GANHOS, PERDAS E CONQUISTAS

A cada instante, no dinamismo incessante da vida, pessoas, seres e coisas se transformam, refletindo a transitoriedade de tudo o que se manifesta no mundo fenomênico. De um ponto de vista material e superficial, a todo momento se ganha e se perde nos movimentos e nas relações entre os seres.

Os conceitos de ganho e perda são relativos e refletem o significado e o sentido que se dá às circunstâncias e aos acontecimentos. As conquistas materiais se caracterizam, inevitavelmente, pela instabilidade e transitoriedade, por isso se luta pela conquista do poder para, em breve tempo, perdê-lo para outros; possui-se beleza, a qual se esvai continuamente, na marcha inexorável do tempo; a juventude, que se perde a cada dia; o dinheiro, que a qualquer momento passa a outras mãos; o próprio corpo, que se julga possuir, dura o breve tempo entre o berço e o túmulo.

A linguagem e as expressões refletem o modo como se consideram perdas e ganhos. Quando alguém diz ter perdido a paciência, na verdade não a possuía, pois ninguém perde o que não tem; quem afirma “perder a cabeça” em alguma reação intempestiva, apenas demonstra insuficiente controle dos próprios impulsos; aquele que perde o juízo e cai em tentação, simplesmente revela pontos de fragilidade moral diante de situações, para ele, desafiadoras; quem “perde” alguém que morre, se vê constrangido a perceber que nunca o possuiu.

Tudo o que pode ser perdido realmente não se possui, somente está transitoriamente nas mãos de quem se julga seu possuidor, e nada do que se possui de verdade é passível de perda. A consciência desse fato pode ser útil na relação com pessoas, coisas e circunstâncias.

Sob uma perspectiva integrada, toda perda aparente pode ser ressignificada como experiência, oportunidade de crescimento, transformação, libertação, conquista de valores e virtudes, enfim, de aprimoramento interior. Por exemplo, a perda de um emprego pode significar estímulo para o aperfeiçoamento profissional e a oportunidade de um trabalho mais gratificante.

Além de ganhos aparentes, fáceis de serem postos diante do aplauso alheio, as conquistas interiores, infinitamente mais valiosas, como paciência, perseverança, autocontrole, pureza, renúncia, geralmente passam despercebidas. O desapego, por exemplo, é conquista relevante, pois tem profundo efeito libertador, evita sofrimentos desnecessários e permite o florescimento saudável dos relacionamentos; nem por isso é devidamente reconhecido ou valorizado.

Mais do que adquirir coisas e bens transitórios, importa conquistar qualidade de vida, como equilíbrio, sabedoria, alegria e paz, pois esses são os verdadeiros bens, que se leva aonde se for, verdadeiros tesouros portáteis e inalienáveis.

Neste mundo, em que predominam as aparências, a superficialidade e o imediatismo, é difícil encontrar estímulos à renúncia diante de ganhos ilusórios, à superação de prejuízos materiais e afetivos e à busca das conquistas interiores. Por isso, além de procurar todo auxílio disponível, torna-se necessário encontrar motivação e recursos dentro de si mesmo, pela consciência da conexão com a fonte da vida e pela valorização e cultivo de um caminho espiritual libertador, com o consequente equilíbrio diante de perdas e ganhos externos, considerados circunstâncias menos importantes da jornada existencial, portanto incapazes de alterar a serenidade e a paz interior.