Gig Nova 4 terá reunião inédita de cantores e grupos vocais arrebatadores

Depois de três edições darem visibilidade a mais de 50 instrumentistas da geração que desponta criando uma nova música brasileira a partir de São Paulo, o projeto Gig Nova abre 2018 com uma proposta inédita. Em vez de instrumentos, vozes. E vozes também com funções instrumentais. Seguindo o formato original do projeto, de promover reuniões exclusivas com talentos pouco visíveis mesmo no fluxo de notícias dos cadernos culturais, o jornal escolheu cinco cantores e três grupos vocais e os misturou em quatro formações (as gigs, como chamam os músicos). A apresentação dessas quatro gigs será nesta quinta-feira, a partir das 21h, na casa de shows Tupi or not Tupi, na Vila Madalena.

O Gig Nova Vozes abre com a espanhola Irene Atienza, o grupo Barbatuques e mais dois integrantes do grupo vocal harmônico Sambaranda, Cristiano Santos e Diego de Jesus. Irene, que lança agora seu primeiro álbum, Salitre, puxado por uma parceria com Lenine em Grãos de Sal, tem uma personalidade vocal fortalecida pelo DNA da música flamenca. Seu álbum, com músicas em português e em espanhol, revela também uma compositora de pensamento bastante original.

O segundo encontro terá a cantora amapaense Patrícia Bastos, que lançou um dos melhores discos de 2016, com o grupo de repertório brasileiro contemporâneo Seis Canta e uma das vozes do Barbatuques, Marcelo Pretto. Batom Bacaba, de Patrícia, inseriu a música amapaense na cena mais recente da música brasileira e trouxe alguns dos seus maiores compositores sem investir em folclorismos didáticos graças à sensibilidade do produtor paulistano Dante Ozzetti. Indicado para o Prêmio da Música Brasileira de 2017, acabou perdendo para Maria Bethânia, com Abraçar e Agradecer.

O Seis Canta terá seu tempo depois de Patrícia. Em um país de pouca tradição com grupos vocais harmônicos, jovens que se conheceram enquanto tinham aulas na Escola de Música do Auditório Ibirapuera conquistaram o segundo lugar no Concurso Nacional de Novos Grupos Vocais, o Brasil Vocal, no Rio de Janeiro. Vídeos na internet mostram como dividem vozes com muito movimento em músicas como Depressão Periférica, de Kiko Dinucci, e Maria de Vila Matilde, de Douglas Germano. Duas mostras de que música vocal não precisa viver de clássicos e patrimônios. O Seis Canta é formado hoje por Amanda Temponi, Aninha Ferrini, Everton Dantas, Paulla Zeferino, Raquel Bernardes e Wilson Alves.

Marcelo Pretto, mesmo conhecido pelo coletivo, é outra voz de brilho próprio desde que praticamente introduziu uma nova função vocal ao surgir como destaque dos Barbatuques, há quase 20 anos. Não é só o canto nem só a percussão, mas um lugar que encontrou entre um e outro para criar uma musicalidade absolutamente original. Outra mostra do que seu vocal propõe está no álbum A Carne das Canções, lançado com o violonista Swami Jr em 2014.

A terceira gig terá Cibele Codonho dividindo vozes com o sexteto Sambaranda. Cibele tem histórico de grupos vocais. Filha de Odécio Codonho, mentor do antológico Trio Tambatajá, um dos primeiros a levar a bossa nova ao Japão nos anos 60, ela criou, nos anos 90, ao lado de Leni Requena e da irmã, Solange Codonho, o grupo de repertório brasileiro A Três. Aula de Canto, uma das canções gravadas no álbum Vocalise, teve arranjo de Severino Filho, dos Cariocas, o maior grupo vocal brasileiro de todos tempos. Em 2005, lançou com Filó Machado um álbum em homenagem a Tom Jobim, Tom Brasileiro e seu disco atual, Afinidade, dirigido por Pichu Borrelli, tem entre as participações o cantor Mark Kibble, do grupo norte-americano Take 6, considerado a bíblia dos grupos vocais contemporâneos.

O Sambaranda, que começou a ensaiar com Cibele no dia da sessão de fotos para esta matéria, no prédio do jornal “O Estado de S. Paulo”, é um sexteto idealizado por Rafael Carneiro. Sua existência tem exemplos da incompreensão com relação à música vocal no País. Alguns programadores de casas de shows não entendiam bem qual a proposta do grupo e, por isso, não os colocavam na agenda. Seu primeiro disco fala por si. Delírios Volume 1 recebeu, no ano passado, nos Estados Unidos, o prêmio de melhor álbum de jazz no prestigiado Contemporary A Cappella Recording Awards 2017 (CARA). O primeiro grupo brasileiro a ganhar um prêmio de música a capela na terra da música a capela e da tradição gospel, um dos maiores berços da música vocal no mundo. Sua formação hoje tem Nani Valente, Penélope Celano, Fredson Torres, Cristiano Santos, Diego de Jesus e o mentor Rafael. Seus movimentos harmônicos são muito interessantes e as vozes do baixo são um destaque à parte.

Grávida de nove meses de Alice, Vanessa Moreno faz sua penúltima apresentação no Gig Nova antes do parto. Na noite seguinte, ela estará na Casa de Francisca para mais um show da temporada de Em Movimento, disco que resume como se materializa a musicalidade de uma das cantoras conhecidas por usar a voz como um instrumento de fato, de pensamento livre e sobretudo centrado no ritmo (Baião no Porão, por exemplo, é mostra definitiva de seu poder de arrebatamento). Seus dois álbuns anteriores foram feitos apenas com voz e o contrabaixo de Fi Maróstica. O último deles, Cores Vivas, só com músicas de Gilberto Gil e produção de Swami Jr, é outro belo disco de 2016.

Causa expectativa o encontro entre Vanessa e os Barbatuques. A gig 4 será aberta em parceria com Marcelo Pretto, o que já deve dar a dimensão da visão criativa de duas vozes sem limites. Ela depois fica com os Barbatuques e então deixa o palco para que o grupo faça a última parte da noite. A investigação musical que esse coletivo faz desde sua criação, em 1995, com as ideias de Fernando Barba, o torna o grupo de proposta corporal mais importante em atividade. Mais do que a voz, eles mostram que as possibilidades passam por todo o corpo. Seus 14 integrantes já visitaram mais de 20 países, mostrando o repertório de três discos. O mais recente é Tum Pá, de 2012. Antes houve Corpo do Som (2002) e O Seguinte É Esse (2005).

Gig Nova
Edição Vozes. Quinta (22),às 21h.
Tupi or not Tupi.R. Fidalga,360. Vila Madalena.
Tel: 3813-7404 Preço: R$ 6
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.