Gordofobia existe

Os pequenos detalhes do nosso cotidiano revelam uma obsessão doentia pelo peso corporal. Absolutamente todos os dias nós convivemos com o mal-estar em estar acima do peso. Uma dobrinha sequer por cima da calça é vista com horror pelos nosso olhos que lacrimejam gotas de Zero Cal a cada vez em frente ao espelho, com se uma Carolina Ferraz olhasse para dentro da sua alma, lembrando-te do açúcar colocado no café passado. E se todo mundo se acha gordo, aqueles que realmente são acabam se sentindo um lixo quando nos veem reclamar de um obesidade invisível em nossos corpos, mas presente cada vez mais na imagem distorcida de nós mesmos.

“Agora que acabou o Carnaval, alguém sabe de uma dieta para secar?”, pergunta o malhado, exibindo o tanquinho em uma foto no Instagram. “Nossa, gente, estou gorda que nem uma baleia”, legenda a foto da garota de biquíni sorrindo à beira da piscina após as festas de fim de ano. “Essa semana vou na academia todos os dias para queimar tudo o que comi nesse churrasco”, comenta o mocinho sob a foto na frente do espelho segurando um pesinho.

Não, queridos, vocês não estão gordos. Quanto é possível comer em uma ceia de Natal? Um quilo de comida? E no Carnaval? É suficiente beber tanto que você vai dobrar os centímetros de sua gordura acumulada na barriga? E em um churrasco? Você comeu uma vaca inteira? Não! Por mais que existam exageros, dizer que está gordo depois deles significa apenas uma coisa: gordofobia.

Sim, essa fobia diária que temos é medo constante em engordar. Daí vamos exagerando em outro patamar, o de reclamar. Enquanto isso, o sobrepeso alheio segue sendo escrachado, diminuído e humilhado.

Começa na escola. O bullying diário tem uma vítima constante: o gordinho ou a gordinha. Assim, no diminutivo, como é de praxe chamá-los para “não ofender”. Mas quem disse que ele some? Todo mundo tem algum amigo ou amiga que na adolescência foi ignorado em todas as turmas porque “estava acima do peso”. Os garotos não eram aceitos nos times esportivos. As garotas eram excluídas entre as “best friends forever”. Eram os perdedores. Sempre foram considerados assim.

Há quem ache que agora é OK na vida adulta ser gordo. Nada muda! Até em ambientes de trabalho quem não está dentro dos padrões estéticos é tido como sem saúde, relaxado, porco, sem organização, etc. “Mas é só ele ter força de vontade que ele emagrece”.

As mulheres, com tantos padrões de beleza expostos na publicidade e na mídia, são as que mais sofrem. “Você tem um rosto tão bonito, por que não emagrece?”, ou “ela era tão bonita, mas agora engordou”, são outras frases bestamente ditas e colocadas como normal em nosso cotidiano. Ao contrário dos homens, muitas vezes gordos e que têm ao seu lado mulheres magras, as mulheres dificilmente escapam do julgamento de seus corpos na vista dos homens justamente pelo seu corpo, não uniforme com os padrões dispostos. O julgamento entre os dois sexos é bem distinto.

Outra crítica é a de que a pessoa acima do peso não é saudável. “Sendo assim, ela vai morrer logo”. Talvez ela morra mesmo, mas de outra doença, a depressão, causada por conta de tanto ódio e preconceito.

Sim, há muitos suicídios que têm ligação direta com a gordofobia. Em busca do emagrecimento “eficiente”, a cirurgia bariátrica é uma das saídas das pessoas que sofrem todos os dias com todo esse preconceito. A Universidade de Leipzig, na Alemanha, fez uma pesquisa com pessoas e os resultados foram alarmantes. O estudo ouviu 24 mil pacientes de 11 países. A taxa média de suicídio entre os pacientes da cirurgia era quatro vezes maior (4,1 para cada 10 mil) que a taxa mundial (1 a cada 10 mil habitantes).

Gordofobia, assim como outras fobias da nossa sociedade, é que tem cura. “Emagreça, faça dieta, coma menos” está no linguajar de uma indústria cruel que só pensa em vender. A gente é influenciado, eu sei, e acabamos caindo nessa lábia. Mas na nossa frente não existe apenas etiquetas numeradas de tamanhos, não somos GG, XG ou XXG. Somos humanos!