Gratidão é o que move ex-jogador

Atleta, escolheu como presente de aniversário, um jogo de futebol beneficente para ajudar as entidades (foto: Claudinho Coradini/JP)

Elano Blumer, natural de Iracemápolis, distante apenas 30 quilômetros de Piracicaba, foi um brilhante e exemplar jogador de futebol. Com as camisas do Guarani, Santos, Shakhtar Donestk (Ucrânia), Manchester City (Inglaterra), Galatasaray (Turquia), Grêmio, Flamengo, Chennaiyin (Índia) e Seleção Brasileira, construiu uma grande carreira futebolística, conquistando títulos e torcedores por onde passou. O filho do seu Geraldo Blumer e de dona Maria Conceição Moro, marido de Alexandra Raquel Vallim Blumer e pai de Maria Teresa, Maria Clara e Maria Júlia, segue no mundo do futebol, agora como técnico, para transmitir seus ensinamentos na época de atleta.

 

Você tem uma ligação muito forte com o nome Maria, explique um pouco mais essa história?

Sou católico e devoto de Nossa Senhora de Fátima. Em 2002, todo jogo usava uma camisa de Nossa Senhora Aparecida por baixo, que ganhava dos meus amigos. Tive uma presença muito forte de Maria na minha vida na Ucrânia, já que estava passando por um momento muito difícil e tive uma visão: a vi ao lado da minha cama e isso foi marcante, já que era um momento de muita tristeza, de muito sofrimento, porquê tinha ido para a Ucrânia e aconteceram muitas coisas que me deixaram  chateado (no primeiro momento no Shakhtar). Desde então, trago Maria para minha casa em todos os momentos depois desta presença espiritual, além de ser o nome das minhas filhas, da minha mãe e isso é muito bacana.

 

Como foi seu começo de carreira (antes de chegar ao Santos)?

Comecei a jogar com 8, 9 anos no Juventus de Rio Claro. Com 10 anos fui para o Paulistano de Limeira, aí o Ismael (Maé) me levou para o Guarani em 1995. Fiz um teste lá e passei. Fiquei lá até 2000. Depois disso fui para o Santos, já como profissional. No Guarani foram apenas dois jogos como profissional, sendo que atuei em um e no outro fiquei no banco e, coincidentemente, esse jogo foi contra o Santos, na Vila. O Santos abriu as portas profissionalmente para mim. Minha gratidão com a este clube.

 

Você se considera um “menino da Vila”?

Sim. Cheguei lá com 17 anos e passei pelo processo todo. É um time fantástico, com uma história fantástica. A história profissional do Santos se conta por si só, não só da minha trajetória, mas daquele todo de 2002. Tenho um carinho por todos os times que já joguei, porém profissionalmente, um carinho especial pelo Santos, que me proporcionou chegar à Seleção Brasileira.

 

Qual foi o seu título mais marcante?

O Campeonato Brasileiro de 2002. Me lembro que o momento mais inusitado do jogo foi quando o Corinthians (adversário na final) faz o 2 a 1, porque em 2001 perdemos na semifinal do Paulista para eles no último minuto. Quando eles fizeram o segundo gol, o lado da torcida do Santos no Morumbi se calou e o lado da Gaviões começou a balançar o estádio. O mais interessante é que no meio, eu e o Robinho saímos com a bola, com 2 a 1 para eles. Nós olhávamos para trás, olhamos no semblante dos nossos companheiros e estava tudo normal. Isso foi maravilhoso. Ninguém se desesperou em momento algum, tanto que dois, três minutos depois fiz o gol do 2 a 2. Eu toco para o Robinho, ele faz a jogada e eu faço o gol. Foi um momento muito especial, já que tinha um tabu de 18 anos. O Corinthians era um rival direto e ganhar deles valoriza o título, porquê o time deles era muito bom, que tem peso e tudo coincidiu para uma conquista muito positiva para nós, já que a maioria do time foi campeão pela primeira vez na vida como profissional.

 

O que significou tirar o Santos da fila de títulos, que durava desde 1984?

O Santos tem uma história maravilhosa, que começou com Pelé, Coutinho, Pepe, Clodoaldo, Mengálvio, Juary, Rodolfo Rodríguez, Geovanni, entre tantos outros craques. Costumo dizer que aquele time de 2002 resgatou toda a história do Santos, pois o time passava por uma situação muito difícil, financeiramente e de conquistas, e naquele ano o Santos voltou a elite do futebol.

 

Em 2003, o time teve um bom ano, porém as conquistas não vieram (vice na Libertadores e do Brasileiro). Como vocês superaram aquele momento?

Apesar de não ter conquistado títulos, foi um ano positivo. Tivemos dois vices no mesmo ano e era um time muito maduro, que manteve uma base para 2004 e ganhamos o Campeonato Brasileiro. Novamente fiz o gol do título no Brasileiro daquele ano e é muito gratificante e fica para a história, porque nós morreremos, mas a história não.

 

Como você avalia a sua passagem na Europa?

Muito positiva. No Shakhtar tive mais dificuldades em razão da cidade, de toda a estrutura que tinha na época. A língua atrapalhou um pouco e toda a dificuldade fora do campo, longe da família, uma cultura diferente, frio. Mas fui feliz ‘pra caramba’, ganhei quatro títulos lá, copa e campeonato ucraniano, joguei a Champions, Copa da UEFA, o que me deu bagagem jogar na Inglaterra.

Quando cheguei lá (Inglaterra) foi um momento especial, porque mesmo não ganhando títulos, conseguimos resgatar novamente um pouco da história do City. Ganhamos os dois clássicos contra o Manchester United no primeiro ano. Naquele ano fiz 15 gols. Enfrentamos Cristiano Ronaldo, Rooney, Giggs, Scholes, Ferdinand.Era um timaço do Sir Alex Ferguson. Ganhamos em casa e fora, isso depois de 20 anos e ficamos em sexto, sétimo na Premier League. Para um time que havia sido recém-formado, foi um resgate fantástico do City. Estive lá em novembro do ano passado, no clássico contra o United e me fizeram uma homenagem dentro do campo. Foi emocionante, uma gratidão enorme ao clube.

No Galatasaray foi um ano antes da copa. Eles vieram na Inglaterra para me levar. Não teve como não ir. Foi um processo legal, peguei um time em formação, onde fiz um contrato para jogar de 3 a 4 jogos por mês, pois estava em preparação para a Copa do Mundo e queria chegar em condições de jogá-la.

 

Como era a torcida do Galatasaray e a rivalidade com o Fenerbahçe, descrita como uma das maiores do mundo?

A torcida na Turquia é demais, a torcida do Galatasaray tinha música própria. Basicamente é um time que não consegui viver de forma normal, já que era uma espécie de pop-star. Saia para jantar com a minha esposa ou ia no parquinho com a minha filha e juntava muita gente na rua. Nunca liguei para isso, na verdade até me incomodava um pouco, já que não conseguia ter uma vida normal, mas foi uma experiência muito bacana.

A rivalidade com o Fenerbahçe era intensa. Os caras brigavam no aquecimento, aí a torcida visitante fica fechada em uma tela fechada, parecendo uma jaula; além de ter entre dois e três mil policiais sentados a beira do campo. Fernerbahçe x Galatasaray é uma loucura.

 

Qual o título que mais te marcou na Europa?

Foi o primeiro, a Copa da Ucrânia, devido à dificuldade de adaptação, de onde e como jogava, então por toda a dificuldade que vivi e foi muito marcante já que amadureci com tudo aquilo que vivi ali.

 

Qual foi a sensação ao ver que seu nome estaria entre os 23 da Seleção para disputar a Copa do Mundo?

Em 2005, quando fui vendido ao futebol ucraniano, perdi a Copa, já que estava em todas as eliminatórias e minha expectativa de poder jogar um Mundial, quando retornei à Seleção esse era meu objetivo principal. Foram três anos e meio lutando e fazendo jogos bons para poder ser chamado. Estava na Turquia, sentado na sala com a minha família e quando vi o meu nome na convocação. São sentimentos inexplicáveis. Ter no currículo uma Copa do Mundo é sensacional.  Me lembrei de Iracemápolis e de tudo que vivi para chegar até ali.

 

Você marcou dois gols na Copa, contra a Coreia do Norte e Costa do Marfim, porém uma lesão encerrou sua participação no Mundial. Como você deu a volta?

É triste, porque tinha feito dois jogos e dois gols na Copa do Mundo e na hora o Giuliano Bertolucci, que era meu empresário, disse que o pessoal do Real Madrid tinha entrado em contato com ele, dizendo que estavam me monitorando. Fiquei feliz, porém depois da contusão tudo acabou. Sou um cara decidido, calmo e grato pelas coisas que tenho e conquistei. Esse tipo de coisa dentro do esporte pode acontecer a qualquer momento. Basicamente segui a minha vida após aquilo, procurei não lamentar por aquelas situações e procurei viver o momento que foi fantástico, já que fiz dois jogos e marquei dois gols na Copa do Mundo e isso foi um presente de Deus na minha vida.

 

Como foi a conquista da Libertadores de 2011 e como foi estar em uma nova geração com jogadores como Neymar e Ganso?

Se tratando de Santos posso dizer que sou um privilegiado, já que peguei duas, três gerações e venci com todas elas. Em 2002, a geração de Diego e Robinho, que se tornaram grandes peças do nosso time e em 2011 com Neymar e Ganso, além de outros jogadores importantes daquele elenco, como Durval, Adriano, que são pessoas pouco lembradas, mas que foram extremamente importantes. O Muricy chegando num momento delicado. O Keirrison e o Maikon Leite fizeram um jogo fantástico contra o Cerro Porteño em Assunção, um golaço do Danilo de esquerda. Foram caras importantes em uma conquista que a última tinha sido há 48 anos e foi fantástico poder conquistar.

 

Em relação aos rivais (São Paulo, Palmeiras e Corinthians), qual foi o que mais sentiu rivalidade?

O clássico contra o Corinthians é forte, porém é muito gostoso jogar qualquer clássico. Basicamente joguei vários clássicos contra o Corinthians e o Kleber, que era lateral-esquerdo, era o cara que eu mais enfrentava dentro do campo e ele é um grande amigo meu. Independente da rivalidade, sempre respeitei muito o Corinthians, os atletas, não tenho problema com ninguém, com nenhuma torcida rival. Sempre procurei fazer o melhor para o Santos, que era ganhar o jogo, o título, para deixar a torcida feliz e é o que eu sempre buscava em fazer dentro dos clássicos.

 

Como foi a sua aventura na Índia, quando você foi jogar no Chennaiyin?

Depois da minha passagem pelo Flamengo, estava no Rio jogando futevôlei, já que morei por um tempo lá, em razão das minhas filhas que estavam no colégio. Neste dia, chegou um amigo meu de bicicleta e me perguntou se eu não queria ir para a Índia. “Pô cara, eu parei de jogar futebol para ficar em casa. Como é que eu vou para a Índia?”

Depois disso ele me convidou para tomar um café e conversar a respeito. Ele me falou do campeonato indiano, que era apenas três meses e que estavam contratando alguns jogadores principais para cada time. Pedi mais informações e depois fui falar com a minha esposa e expliquei a situação, porém já que o campeonato era curto tive que ir sozinho.

Era eu no Chennaiyin, o Trezeguet no Pune City, Del Piero no Nova Delhi, entre outros. O Marco Materazzi (que levou a cabeçada do Zidane na final da Copa de 2006) era o treinador do meu time. Foi uma experiência humana anormal. O meu relacionamento com eles era uma coisa absurda, já que ganhei e tenho muitos vínculos lá até hoje. São amizades, como a do presidente do time, que é minha amiga, seu esposo, seus filhos, já que falo com eles frequentemente, além dos atletas que estavam lá. Fui artilheiro da liga no primeiro ano e ela (a presidente) me ‘obrigou’ a voltar no ano seguinte, me comprometi que eu voltava, então foi especial.

 

Agora você já é técnico de futebol, como foi a experiência na nova função até este momento?

Consegui recentemente a Licença A da CBF, porém já trabalhei nove jogos no comando do Santos pelo Campeonato Brasileiro (em 2017) e venci seis deles. Foram jogos difíceis, em momentos difíceis, em que já tive experiência em ter trabalhado como auxiliar e não posso largar os meus 20 anos como atleta. Agora conclui a Licença A e estou habilitado para retomar a minha carreira como treinador, então agora já posso dizer que sou técnico.

 

Qual foi o técnico mais marcante em sua carreira?

Tenho amizade com todos os treinadores com quem trabalhei, entre eles Parreira, Leão, Luxemburgo, Muricy, Geninho, Cabralzinho, Chulapa, Enderson Moreira, Roger… São muitos, esquecerei algum e dará confusão. Trabalhei com o Sven-Göran Eriksson, Tite, Rijkaard, Georghe Hagi, Mircea Lucescu. Costumo dizer que todo atleta bom tem que trabalhar com treinador bom, pois ele potencializa o atleta. É difícil destacar um, pois todos foram importantes para mim.

 

Como você define a sua passagem pela Seleção Brasileira?

Melhor do que todos os clubes em que já joguei. Foram seis anos e meio, 68 convocações e tenho apenas um erro, que é o pênalti (contra o Paraguai na Copa América em 2011). Naquele dia entrei aos 46 do segundo tempo para bater o pênalti e perdi, então posso considerar um erro. Nos classificamos para a Copa de 2010 com três rodadas de antecedência, ganhei a Copa América, ganhei a Copa das Confederações, fiz gol na Argentina, na Itália. Na Copa do Mundo em dois jogos fiz dois gols, além de outros grandes jogos e acredito que tive mais jogos bons do que ruins dentro da seleção, então posso dizer que minha passagem pela Seleção é quase perfeita.

 

Como é o Elano fora do futebol. O que você gosta de fazer no seu tempo livre?

Gosto de futevôlei, churrasco, família, amigos. Sou bem devagar. Gosto de ir para shows, principalmente dos meus amigos, gosto de ir com a minha esposa. Gosto de show sertanejo, de samba. Eu gosto de música e tenho meus amigos que fiz ao longo do tempo, como o Daniel, Alexandre Pires, Thiaguinho, entre outros. Tem muita gente.

 

Qual técnico que você se inspira? Qual que você não trabalhou mas queria ter trabalhado?

Todos os treinadores que eu trabalhei têm coisas boas, tanto dentro quanto fora do campo. Um que não trabalhei, mas acho que seria legal pelo relacionamento seria o Abel Braga, o Felipão. Não trabalhei com o Guardiola, mas estive com ele ano passado no City e foi muito especial, conversamos sobre a profissão de técnico de futebol. Ele me olhou e disse: -Você gosta? E respondi: – Professor, eu amo isso aqui, gosto demais. Ele me abraçou e disse: – Que beleza, mais um que ama futebol. Isso me marcou muito. Tenho um conceito de jogo muito atualizado com a parte da gestão de grupo e acredito que o bom gerenciamento promove o sucesso dentro de campo. No contexto geral acho que aquela frase do Guardiola sobre “ser legal ter mais um que gosta de futebol virando treinador”, ficou gravada.

 

Mauro Adamoli
mauro.adamoli@jpjornal.com.br