Histórias marcam o centenário da imigração japonesa em Piracicaba

imigração Sussumo Sato e Tereza Sato com a filha Elisabete. ( Foto: Claudinho Coradini/JP)

A busca pela riqueza e a vocação na agricultura levaram os japoneses a trocarem a terra do Sol Nascente, pelas terras brasileiras, em 1908, completando, este ano, 110 anos da imigração japonesa no Brasil. Em Piracicaba, os primeiros imigrantes chegaram no dia 2 de setembro de 1918, por meio do navio Hakata-Maru. Nele, embarcavam 23 famílias e 15 japoneses, que foram para a Fazenda Pau d’Alho, em Ártemis, para trabalharem com café. A informação é do resgate histórico feito na obra, lançada recentemente: 100 Anos da Imigração Japonesa em Piracicaba, de autoria do jornalista e escritor piracicabano, Cecílio Elias Neto. “O livro registra essa relação tão bonita dos piracicabanos com os japoneses”, relatou Pedro Mizutani, vice-presidente executivo de Relações Externas e Estratégia na Raízen e do Clube Cultural e Recreativo Nipo-Brasileiro de Piracicaba.

Ainda, de acordo com o livro, o principal responsável pela vinda dos japoneses para o Brasil foi o médico piracicabano e então Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo, Carlos Botelho, que em 1907 outorgou a Lei de Imigração e Colonização. “Basicamente, todos os imigrantes do Japão vieram ao Brasil com o objetivo de ficarem ricos, por meio da plantação do café, que era considerado ouro na época, e voltar para o Japão, mas não foi exatamente isso que aconteceu”, disse Mizutani.

A diversidade cultural da comunidade japonesa contribuiu, de forma efetiva, em alguns setores da cidade. Por exemplo, por meio das técnicas de cultivos dos japoneses, a cultura agrícola piracicabana foi aperfeiçoada, sendo desenvolvido pelos imigrantes várias frutas e vegetais, como o caqui, a maçã Fuji, entre outros. “Eles também contribuíram com a inserção de valores no trabalho formado por ética e honestidade, e com a cultura, trazendo coisas que não eram tão tradicionais aqui”, informou Mizutani.

Entre os imigrantes, está Sussumo Sato, que completará 94 anos mês que vem. Sato chegou em Piracicaba em 1930, com seis anos de idade, acompanhado dos pais e de três irmãos. Hoje, com a idade avançada e com dificuldades na fala, um dos mais antigos representantes dos imigrantes japoneses da cidade, não hesitou em contar suas histórias e nem perdeu o bom humor, quando foi questionado sobre a sua longevidade. “Sou novinho ainda”, brincou. “Quando chegamos, era tudo campo. Na Paulista tinha apenas duas casinhas, um açougue e um armazém. Lembro também que chegamos aqui à noite e já tinha um caminhão nos esperando. Fomos direto para a fazenda Pau d’Alho trabalhar. Só depois de muitos anos que começamos a passear pela cidade, pois na época não tínhamos condições”, contou.

Casado há 67 anos com a piracicabana Tereza Takagi Sato, 88, hoje, a família que é formada pelos dois filhos, três netos e cinco bisnetos, todos piracicabanos, é símbolo da união entre Japão e Piracicaba. “Meus pais vieram para trabalhar na lavoura, ganhar dinheiro e ir embora, mas não foi o que aconteceu. Trabalharam muito, mas não voltaram”, relatou Tereza.
Os pais de Tereza também vieram do Japão e é uma das famílias pioneiras que escolheram Piracicaba e permaneceram na cidade, a família Takaki. Por conta da dificuldade de comunicação entre línguas tão diferentes, o registro no Brasil da família Takaki ficou com a grafia Takagi.

Com uma bagagem cultural tão diferente da nossa, Sato afirmou que o início, seus dias na cidade foram marcados por muitas dificuldades, inclusive, na língua e na gastronomia. “Foi difícil aprender a falar, mas consegui junto aos brasileiros da colônia (onde tinham os colonos que trabalhavam na fazenda). Eu não entendia o que eles falavam e eles não me entendiam também”, disse.
“Agora não fala nem japonês, fala muito pouco”, afirmou Tereza, em tom de bom humor. “Na verdade, a língua japonesa está muito influenciada pelo inglês. Têm muitas palavras que eles trouxeram daquela época, e que agora, já não usa mais. O vocabulário mudou bastante, quem vai entender mais a linguagem de antigamente são os que vivem nas plantações.Hoje ele tem um pouco do caipiracicabano e se considera um piracicabano. Os costumes daqui se integraram com os dele. Piracicaba é o seu lar”, ressaltou Elisabete Sato, filha mais nova do casal.

Em relação à comida, Tereza disse que hoje comem mais a brasileira, o tradicional arroz, feijão e churrasco, mas que às vezes, insere no cardápio alguns pratos japoneses. “A comida japonesa que fazemos é mais caseira, e usamos alguns temperos e ingredientes diferentes também”, disse.

O casal também participou, por muito tempo, das atividades do Clube Nipo de Piracicaba. Sato foi o primeiro coordenador do grupo da terceira idade do clube, e na sequência, Tereza, que coordenou por 11 anos. “Acredito muito que a juventude de hoje é mais interessada na cultura, do que a de antigamente. Eles querem conhecer e aprender mais sobre a história. Esperamos que nos próximos 100 anos, eles deem continuidade. Conhecendo a história, podemos conservá-la”, comentou Tereza.

CLUBE NIPO O PONTO DE ENCONTRO DAS FAMÍLIAS JAPONESAS

A primeira versão do Clube Cultural e Recreativo Nipo-Brasileiro de Piracicaba nasceu em 1920, da necessidade dos imigrantes de conviverem em grupo e se auxiliarem com as dificuldades referente as diferenças culturais. Ao longo da história, o clube passou por várias mudanças no nome e na administração. Hoje, o clube tem como objetivo a conservação e fomentação da cultura japonesa como danças (odori e taikô), músicas folclóricas (minyo), esportes, artes-marciais, gastronomia e escola japonesa com aulas de escrita e conversação. “A conversação é muito complicada e difícil, meus filhos fizeram aulas, eles sabem escrever e ler, mas tem dificuldades de falar. A escrita pode parecer difícil por conta dos ideogramas, mas é ensinada de uma maneira que aprende bem e fica mais fácil. Agora pra falar, a língua japonesa é um pouco polida, o tom e os uso das palavras mudam de acordo com a idade das pessoas”, explicou Irio Takumi Kawasima, presidente do clube.

Segundo o presidente, hoje a associação possui 80 associados, 40 são famílias e o restante são individuais, como estudantes e curiosos da cultura. “Atualmente, temos muitos piracicabanos que frequentam as oficinas por admirarem a cultura, inclusive, estamos mudando o nosso estatuto, para que possamos investir em parcerias e ter acesso a Lei Rouanet”, informou.
Ainda, de acordo com Kawasima, a maior preocupação do clube é manter viva a cultura. Nascido em Pariquera-Açu, cidade da região do Vale do Ribeira, Kawasima é filho de japoneses e chegou em Piracicaba em 1986. Atualmente vive na cidade com a esposa, Terue, e os três filhos, Elton, Igor e Vivian Kawasima. “Nós só temos a agradecer a cidade, pela recepção que tivemos. Olha, eu acho que no fim, somos piracicabanos mesmo, aqui é a nossa casa”, afirmou.

(Jéssica Souza)