Homem alertava para risco de queda do Comurba

Professora lembra que o pai, mestre de obras aposentado, alertou várias vezes: “está fora de prumo”, dizia. (Foto: Claudinho Coradini/JP)

Durante muito tempo eu fiquei com um sentimento de culpa por não termos dado ouvidos ao meu pai”. A frase é da professora aposentada Lígia Penteado dos Santos Peres. Ela se refere ao pai, o mestre de obras Manoel Firmino dos Santos, que na época da queda do edifício Comurba, tinha cerca de 80 anos e já estava aposentado.

Ela contou que, durante muito tempo, o pai falava que o edifício iria cair. Por ser conhecedor de obras, ele falava da falta de “prumo” nas paredes do prédio e comentava – inclusive – com os trabalhadores do local.

Tínhamos uma vizinha (Vitória Martins de Toledo) que havia comprado um apartamento no prédio e meu pai sempre falava para ela não ir morar lá. Nós, filhos, pedíamos para ele parar de falar aquilo, mas ele sempre repetia”, lembrou.

No dia do desastre, Lígia estava em casa quando a vizinha passou e disse que estava indo comprar cortinas para o apartamento. “Ela mal chegou na esquina da Prudente de Moraes e o prédio desabou”, contou a aposentada relatando a nuvem de poeira que tomou conta da região central. “Sempre morei na rua do Vergueiro, aqui o chão não tremeu, mas a poeira tomou conta de tudo”, contou.

Logo após a queda, o marido dela chegou em casa, perguntou pelo sogro e contou que o prédio havia desabado. “Mas naquele dia meu pai estava cuidando da horta, em casa”, contou aliviada.

Dias após a tragédia, ela disse que recebeu várias ligações de pessoas para as quais o pai falava do risco de queda do prédio.

ENTRE OS MORTOS

A enfermeira aposentada Luzia Costa, 64 anos, traz no corpo e na alma as lembranças daquele 6 de novembro. Ela é a única sobrevivente viva da tragédia que atingiu Piracicaba naquele verão.

Ela disse que seguia com a mãe para o consultório do médico Samuel Neves, que ficava próximo às obras do edifício. “Eu era muito pequena, magrinha e um pouco desnutrida. Quando passei em frente ao prédio vi que tinha um museu e um casal de bonecos que eram cangaceiros, fiquei parada, olhando, pois nunca tinha visto nada igual”, contou.

Ela foi até onde a mãe estava, falou dos bonecos e em seguida voltou para olhar novamente. “Me lembro de ter passado pelas madeiras (tapumes) e fazia uma pequena curva para chegar ao museu. Olhei para aquelas lajes e ainda pensei: e se isso cair”.

Luzia disse que logo após isso, as lajes ruíram sobre ela. “Não sei se foi sexto sentido, ou coisa de criança, mas aconteceu”, contou. A menina ficou presa aos escombros com a cabça e o braço esquerdo para fora. “Eu gritei muito, pedi socorro e como tinha um posto do Comissário de Menores perto eles me tiraram da terra”, disse.

Me lembro exatamente o que aconteceu, fui colocada num carro Aero Willys azul e branco e levada à Santa Casa, onde fiquei ao lado de um homem e uma mulher que estavam mortos”.

A garota só foi encontrada pela família no dia seguinte após o pai procurar por ela na Santa Casa. “Foi lá na Santa Casa que decidi que seria enfermeira, pelo jeito que as madres cuidaram de mim”, recordou.

Passada a tragédia, ela disse que preferiu viver no anonimato e só saiu do ostracismo quando o irmão contou à imprensa que ela era sobrevivente. “Não quero me expor, nem relembrar toda essa história de novo, não quero fotos minhas nos jornais”, afirmou.

DOCUMENTOS

No processo de pesquisas nos arquivos da Câmara de Vereadores de Piracicaba, a equipe do Departamento de Documentação e Transparência localizou diferentes manifestações de entidades e associações pela tragédia, como também 71 votos de pesar e protestos de Câmaras paulistas e mineiras.

Do material recebido, o então presidente da Câmara de Santos, Julio Moreno, se refere ao projeto de lei em que o então presidente da República, Marechal Castelo Branco, remeteu ao Congresso Nacional para regulamentação na construção de edifícios.

Beto Silva

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