Homem multifuncional

persona Médico ginecologista e obstetra, plantonista do Samu e vereador fala sobre carreira, aborto e família. (Foto: Amanda Vieira/JP)

Ronaldo Moschini da Silva, 56 anos, é médico ginecologista e obstetra, plantonista do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e vereador de Piracicaba. Formado em medicina pela Universidade Sul Fluminense, em 1986, fez residência médica em ginecologia e obstetrícia, além de cursos na área de emergência. É casado com Silvana Jussara Toloti da Silva, pai do médico Vinícius Toloti Moschini, 33 anos, e avô de Lorenzo, de quatro anos e meio de idade. Piracicabano nascido em 8 de abril de 1962, Ronaldo Moschini é filho caçula do casal Rodolfo da Silva e Maria Ignês Moschini da Silva, que também têm os filhos Rodolfo da Silva Filho e Rosana Cristina Silva Raedano.

Moschini divide as 24 horas do dia entre o atendimento às pacientes em sua clínica ginecológica, na atuação no gabinete na Casa de Leis, onde também é vice-presidente, bem como nas funções de marido, pai e avô. Embora tenha uma “agenda apertada”, faz questão de manter os momentos de lazer, praticando motociclismo ou lendo um bom livro. Ainda dentro dos compromissos diários, recebeu a reportagem do Jornal de Piracicaba para conceder essa entrevista da seção Persona.

O que o motivou a ser médico e se especializar em ginecologia/obstetrícia?
Na verdade, o meu primeiro vestibular foi na Academia da Força Aérea. Eu sempre gostei muito de aviões. Eu era muito jovem, tinha 16 anos de idade. De lá, eu já fui procurando algo mais consistente para minha vida, que era ser médico. Eu falo que ser médico é um chamado divino e houve algo que me direcionou para a área médica. Eu fazia cursinho na época e algo difícil de se conseguir era passar na faculdade de medicina e eu sempre fui muito de procurar me provar. Aí, senti algo pela medicina, gostava muito de medicina, no colégio ia bem em biologia. Nós fomos em dez amigos de Piracicaba e o único que passou na primeira fase fui eu, no Rio de Janeiro. Aí, voltei para fazer a segunda fase e acabei passando. Entrei na faculdade muito jovem, tinha 18 anos de idade. Com essa idade, fui embora de Piracicaba e, com 23 anos, estava me formando médico. Fui o o aluno mais novo da turma a se formar e fui condecorado por isso. Foi isso que me levou a fazer medicina, não foi influência da família.

Após se formar, atuou como médico no Rio de Janeiro?
Eu me formei e fiz provas de residência médica e comecei a fazer residência na cidade de São Paulo. Trabalhei seis anos no Rio de Janeiro e seis anos em São Paulo. Nesses seis anos em São Paulo, quatro anos eu fiquei me especializando, fazendo minha residência médica em ginecologia e obstetrícia. Depois, fiquei mais dois anos na cidade de São Paulo, onde seria minha vida médica. Aí, eu decidi voltar para Piracicaba, minha cidade que eu tanto amo e estimo e quis voltar até por uma ligação familiar muito grande. Minha esposa é piracicabana e eu também e existiam algumas facilidades para vida médica; já tinha imóvel para morar, meu pai ofereceu uma sala comercial que ele tinha na cidade para o consultório, então, foram algumas facilidades para o início da minha vida médica. Tomei a decisão de vir para Piracicaba também porque durante meu curso de medicina fiz muitas amizades com médicos da cidade, então, foi quando surgiu o convite de vir a Piracicaba e de voltar para a cidade.

Em que ano foi isso?
Eu entrei na faculdade em 1980. Em 1986, eu estava formado. Em 1991, terminei a residência e em 1992 eu estava já em Piracicaba trabalhando no pronto-socorro do Teatro Municipal e começando a fazer postos na área de ginecologia, iniciando minhas ações em consultório médico. Eu voltava para São Paulo todos os sábados, onde dava plantão. Eu fui gradativamente passando para Piracicaba, deixando meus empregos em São Paulo. Mas todo sábado eu ia dar plantão no Hospital do Servidor Público. Fiquei por mais um tempo até me transferir definitivamente para Piracicaba.

No início da entrevista, o senhor comentou que ser médico é um chamado divino…
Eu sou católico apostólico romano de tradição familiar, tenho um tio frei, duas tias freiras, minha avó era da Ordem de Terceira (associação de leigos católicos vinculada às tradicionais ordens religiosas medievais, em particular as dos franciscanos, carmelitas e dominicanos e se reúne em torno à devoção de seu santo padroeiro) e sempre fui muito ligado à igreja, aos padres, aos freis, às igrejas dos frades, sempre fui frequentador das missas. Eu acho que foi algo que me colocou na área médica, por isso falo que foi um chamado. E sou médico por vocação. Eu amo o que faço e sempre procurei me dedicar muito e ajudar muitas pessoas na minha área, na minha especialidade também. Então, acho que não fui só chamado para medicina, fui chamado também para a especialidade de ginecologia/obstetrícia, que sempre gostei muito, sempre fui um aficionado pela ginecologia, pelos nascimentos, pelo apoio e cuidados à mulher gestante e não gestante, à adolescente e às mulheres menopausadas, então, sempre gostei muito daquilo que fiz e o que faço e sempre nas minhas orações eu pedi auxílio naquilo que eu poderia seguir como carreira e que eu acertasse e, graças a Deus, fui bem sucedido e acho que escolhi certo.

Ao longo da carreira, quantos partos já realizou, tem ideia de quantas vidas colocou no mundo?
Desde a minha residência médica até o dia de hoje — desde quando iniciei em 1987, eu já estava trabalhando em maternidade, e até 2018 —, já ultrapassam os 7.500 partos.

Em sua carreira, houve alguma perda de vida?
Sim. Todo obstetra tem uma história para contar. Na obstetrícia, uma perda é uma tragédia. Nós estamos preparados para confraternizar junto aos familiares, estamos preparados para a alegria, para o nascimento, mas todo obstetra, logicamente, já teve um caso de um óbito fetal e é muito difícil para a gente. Nós entristecemos como a mãe e como o pai e como todos os familiares. Uma das coisas mais difíceis de conviver com a área médica e com a obstetrícia é quando temos um resultado por uma gestação de altíssimo risco que o feto vem a obituar (morrer) dentro da barriga da mãe. Realmente precisa de um preparo psicológico muito grande do obstetra e do médico para poder conviver com a especialidade.

Recentemente, o relatório DGM (Desafios da Gestão Municipal) apontou Piracicaba como destaque na educação (segunda melhor no país) e, por outro lado, o estudo citou a necessidade da redução da mortalidade infantil. Como o senhor analisa essa situação no município?
Eu participo muito disso, porque eu faço saúde pública, eu exerço minha função de ginecologista e obstetra também trabalhando em postos de saúde e coordenando uma das maternidades filantrópicas da cidade, que é no HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana). Sou diretor e coordenador da maternidade e trabalho junto com a Secretaria Municipal de Saúde os índices de mortalidade materno infantil. E os índices de mortalidade infantil na cidade de Piracicaba têm caído bastante. Nós estamos em uma situação um pouco mais confortável e tranquila, porque estamos abaixo do índice 1 de mortalidade infantil. Estamos em uma situação confortável, mas tomando todos os cuidados para que não permitamos que isso venha a aumentar. Piracicaba é uma cidade privilegiada, nós temos o pré-natal de alto risco, que é realizado nos hospitais filantrópicos da cidade, Santa Casa e HFC. As duas maternidades têm unidades de pronto atendimento obstétrico para qualquer intercorrência com qualquer gestante de Piracicaba.

Tem alguma passagem importante na sua carreira que gostaria de comentar?
Eu gostaria de relatar aqui uma das passagens mais felizes e mais importantes da minha vida. Foi o maior presente que eu recebi, depois do nascimento do meu filho. Tenho um filho só, maravilhoso, médico radio-oncologista, professor e orientador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e que hoje (21 de agosto) defende a tese de mestrado na Unicamp, um dia muito feliz para mim, um trabalho que ele já vem há três anos se preparando e hoje está fazendo a defesa. Meu filho é o meu ídolo, meu melhor e maior amigo, que é o doutor Vinícius e que quero aqui fazer um comentário que é a segunda melhor e maior passagem da minha vida. Foi algo que Deus me deu, que foi trazer o meu neto a esse mundo pelas minhas mãos. Eu tenho o Lorenzo Moschini, que em dezembro faz cinco aninhos, e nasceu pelas minhas mãos, em uma das madrugadas em Piracicaba e não há alegria maior, não há retribuição maior de Deus de poder ter feito o pré-natal da minha nora e trazer o meu neto.

O senhor fez o parto do seu filho também?
Não. Até porque meu filho nasceu quando eu estava no 6º ano da faculdade de medicina e a minha esposa morava com os meus pais em Piracicaba. Nós nos casamos no 6º ano. Ela foi morar com os meus pais e eu estava praticamente terminando a faculdade de medicina. Quando minha esposa entrou em trabalho de parto, eu sai do Rio de Janeiro à noite e quando cheguei de manhã em Piracicaba meu filho já tinha nascido. Eu não pude participar do nascimento do meu filho, mas a minha esposa foi muito bem assistida pelos médicos amigos de Piracicaba, que foram o doutor Adib Cury e doutor Gilberto Pettan.

Como verifica a posição atual da mulher com relação ao parto natural e à cesariana? Existe ainda resistência quanto ao parto natural e como o senhor trabalha isso com suas pacientes?
Hoje é um direito da mulher escolher, além do médico de lhe informar toda a conduta obstétrica daquilo que é melhor para ela, das campanhas do Ministério da Saúde, mas muitas mulheres solicitam ainda ao médico a realização da cesariana. Foi determinado pela Federação Brasileira e Sociedade de Ginecologia a realização da cesariana com 39 semanas e não antes, quando é de solicitação da mulher e existe um termo de consentimento livre e espontâneo que a mulher assina para a realização da cesariana, mas nós médicos obstetras propagamos o parto normal desde que haja condições. O parto normal é muito melhor para o feto, porque ele prepara melhor o feto para o nascimento e o estresse das contrações do parto, da passagem do bebê trazem o bebê com melhor preparo da sua parte pulmonar, então, o parto normal é o melhor.

Agora falemos de sua carreira política. O senhor está há quanto tempo como vereador?
Eu estou praticamente no terceiro mandato. O primeiro mandato (2010), eu sai candidato pelo Partido Progressista (PP) e fiquei como primeiro suplente, ocupei a Câmara de Vereadores por 30 dias, na licença do vereador Carlos Gomes da Silva, e depois eu coloquei meu nome à aprovação pública, fui eleito, então, eu tive um mandato pelo PPS e estou no segundo mandato pelo PPS na Câmara de Vereadores, ocupando o cargo de vice-presidente.

O que o motivou ser vereador?
Eu sempre fui muito interado das políticas públicas na cidade de Piracicaba, sempre fui muito politizado do ponto de vista do nosso Estado e do nosso país, sempre gostei muito das ações públicas nas áreas da saúde, educação, cultura, habitacional, então, eu sempre que fui chamado a cargos de coordenadorias, aceitei, e existiam muitos cargos na área médica que o médico era chamado para ocupar. Como representante credenciado da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, fui quatro mandatos delegado credenciado de Piracicaba e região, fui diretor de maternidade, coordenador da Saúde da Mulher em Piracicaba. Sempre exerci cargos representativos em Piracicaba e as minhas pacientes no consultório questionaram se eu nunca tinha pensado em ser vereador e falei que nunca tinha pensado. Eu falo que tudo na vida da gente é um chamado, tudo tem seu momento certo e eu achava precoce ainda eu me lançar a algo na política. Um dia, eu fui convidado pelo vereador Carlos Gomes da Silva a fazer parte do Partido Progressista e senti que aquele era o momento para lançar meu nome. Eu já tinha uma clínica bem estabilizada, já bem concretizada na cidade e com todos meus cargos de coordenação eu vi que eu podia fazer muito pela saúde do município e por outras áreas também, já que eu tinha muitos amigos, desde coronéis da PM (Polícia MIlitar), comandante da Guarda Civil, todos os secretários. Eu tive uma votação expressiva na primeira eleição, fiz 2.660 votos, mais votos do que três vereadores eleitos, e acabei ficando de fora por causa do coeficiente de votos. Fui eleito para o primeiro mandato oficial, assumi a segunda secretaria da Câmara e agora no meu último mandato assumi a vice-presidência. Tenho feito um trabalho digno, assíduo na Câmara, amo as ações da política na área da saúde e educacional.

Quais projetos de sua autoria nesses dois mandatos aponta como mais importantes para a sociedade?
São muitos, mas tem alguns que coloco como sendo de suma importância. A pesquisa do estreptococo na gestante, tornando obrigatória na cidade de Piracicaba, para que possamos diminuir a infeção neonatal. Então, isso tornou-se obrigatório na cidade e tem inúmeras pesquisas de trabalhos médicos que, quando a gestante está com 35 a 37 semanas, ela faz o teste do cotonete e, quando positivo, na entrada da maternidade, em trabalho de parto ou com bolsa rota, nós fazemos um soro com antibiótico e com isso impedimos a transmissão vertical dessa bactéria da mãe para o feto, diminuindo as chances de infecção neonatal. O Projeto da Reanimação Cardiopulmonar nós proporcionamos à população leiga o treinamento de reanimação cardiopulmonar, para que, até o momento de uma ambulância do Samu chegar até o local da parada cardíaca, exista um leigo fazendo massagem cardíaca de forma correta, treinado para que aumente as chances de vida do paciente com parada cardiorrespiratória. As cadeiras de rodas em todos os edifícios de Piracicaba, para um socorro mais rápido, com melhor qualidade, em supermercados, em edifícios na cidade de Piracicaba, proteção laterais de roçadeiras quando está se roçando vias e avenidas, ter as proteções laterais para evitar acidentes, programa de prevenção de acidentes domésticos, programa de prevenção de queimaduras, projeto de prevenção de depressão na adolescência… São inúmeros projetos que passam pela área da saúde trazendo melhoria da qualidade de vida da população piracicabana. Como sou plantonista do Samu em Piracicaba há dez anos, promovendo o socorro em vias públicas, rodovias e acidentes, temos todo esse preparo e com isso me traz uma tranquilidade muito maior de saber o que é melhor para a população para prestarmos um socorro melhor. Então, nós estamos fazendo um preparo à população aprendendo a fazer reanimação para leigos. No dia 22 de setembro, inclusive, convido toda a população para ir ao bolsão de estacionamento do Mercadão Municipal, no período da manhã, ou no Shopping Piracicaba, no período da tarde e da noite. A cada minuto que o paciente está sendo reanimado, ele aumenta a chance de 10% à vida antes da chegada da ambulância. Como levamos de cindo a dez minutos, por mais rápido que ambulância vá ao local, é normal esse trajeto perdurar e são dez minutos que o paciente pode ser massageado até a chegada da ambulância.

O senhor é vereador, médico e cristão. Existe a polêmica em torno da legalização do aborto, que envolve justamente as questões judiciárias, a ética médica e a igreja. Como avalia essa questão?
Primeiramente, como médico e católico, eu sou grande defensor da vida. Lutamos com a vida desde quando ela se forma, desde quando houve a concepção. Desde que haja início da formação embrionária, com cinco semanas e quatro dias, já existe um coração batendo. E quando temos um coração batendo, existe uma vida instalada e dali começa a nossa luta para que haja a manutenção da vida. Então, sou contrário ao aborto. Existem situações especiais, sim, que se deve pensar na vida materna. Se a mãe é portadora de um câncer e aquela gestação possa encurtar ou tirar-lhe a sua vida, é uma condição especial, assim como o estupro confirmado judicialmente através de violência, tortura. Estupro, então, é uma condição especial. Em toda a minha passagem pela vida médica, eu sempre trabalhei com os casais a questão da vida e toda vez que há um aborto espontâneo é muito difícil até para os médicos.

 

(Beto Silva)