Ichthys. Vida em abundância

Pena não tenham feito esta semeadura de peixes em tempo de aula. Era para juntar alunos ali no Tanquã assistindo à festança com a missão precípua de trazer de volta, vida em abundância. Espécie de repetição do milagre da multiplicação, inspiração divina.
 
Ichthys. Decidi assim ao ver a foto de capa do JP, sexta-feira (12), contando a ação de associações não governamentais, é claro!, preocupadas com a vida no rio e deixando ali, no pântano piracicabano, mais de setenta milhares de piracanjubas. Ichthys. Em grego, porque a palavra me remete diretamente a Cristo, o Filho de Deus. Naquela manhã, sem licença do editor, assinei com ele sua palavra de ordem recomendando conhecer ação de cidadania a ser seguida e aplaudida.
 
Não sou piracicabano. Amo, no entanto, as colinas, os campos, a topografia desta terra que, a partir do rio, ganha contornos, se arredonda e sobe fazendo ver-se da planície para o alto, do alto para a planície, revelando flores pelos caminhos e deixando que o sol derrame luz em suas encostas. No bairro do Tanquã, aí, então, fauna e flora se desdobram para fazer jus ao apodo dado: pantanal piracicabano. Andorinhas, tuiuiús, jaburus, tucanos se agitam fazendo explodir vida, forma como Deus se apresenta observando os homens.
 
Gosto por demais de muita coisa que esta cidade oferece. Do jornal, das revistas, dos escritores, dos cantadores, de suas escolas, de suas gentes. Amo o rio, sobretudo que se enrosca nas bordas do lugar onde conheci a vida. Nascer ali foi acaso. Não conheço a terra do primeiro choro e ao passar por ela o que vejo é o rio, o rio de Piracicaba. 
 
Na verdade, desconheço suas ruas, seus espaços, sua gente, porque sempre, a mim, pouco importou ter nascido aqui ou lá. O Planeta é de Deus e nele cabemos todos, em toda parte, com iguais deveres e os mesmos direitos. Não é assim, bem sei, mas deveria. 
 
Jamais entendi esta divisão de fronteiras, esta dinheirama gasta com diplomacia política sem qualquer resultado prático, este apego desmedido à terra natal. “Pátria é acaso de imigrações e do pão nosso onde Deus der”. 
 
Alimentei-me — e muito! — do pão nosso oferecido por esta cidade e sou grato e respeitoso por isso. Quanto à diplomacia, deveria aprimorar-se cada vez mais, como fazem muitos, em difundir educação e cultura, revelando dos brasis o que tem de melhor. 
 
Daqui, por exemplo, levei comigo excelentes pintores, escritores, músicos por onde estive difundindo cultura, e, sem alarde, fiz com que a comunidade internacional pudesse reconhecer este e outros tantos recantos no imenso mapa do Brasil onde poucos sabem de geniais talentos à espera de reconhecimento e aplauso.
 
Foi como soube agradecer os muitos que me acolheram desconhecendo minha origem e me tratando como filho da terra. Esquecer — como? — de Walter Accorsi e sua Judith; de Jamil Muçouçah, dona Zeine e seus rebentos; de dr. Ademar Spallini, minha saudosíssima tia Zaida e de seu filho dr. Ademar Spallini Filho, de Maria Helena Aguiar Corazza, dos Mello Ayres, de dom Eduardo Koaik. Paro aqui. São muitos os que, braços abertos, me ensinaram fazer caminhos, traçando-os ao andar pelas ruas da cidade tendo o rio como fonte de vida e de esperança e aprendendo com ele a melhor lição que se pode ter: prosseguir em busca do futuro, sem voltar ao passado, como as águas que não regressam nem se repetem jamais.