In Extremis (13) – A tenda mágica

Não consigo compreender a tão pouca importância que se passará a dar ao estudo de Humanidades nas escolas. Criaram-nos um momento em que “não saber” parece ter-se tornado uma bênção: aquilo que eu não sei não existe. O problema, porém, é que existe.

Começa a surgir uma nova tirania que precisa de novos súditos. A esperança, porém, é de que essa humanidade vilipendiada e prostituída venha a rebelar-se, dando-se, novamente, conta de sua dignidade. E o que é a dignidade humana senão um valor que não tem preço, sem relatividade? Espíritos tirânicos ignoram essa grandeza. Mas ela continua existindo.

Um robô é programado a pensar e a agir conforme as diretrizes e objetivos de seu criador. Nas últimas décadas, construíram-se mecanismos sócio-político-econômicos visando a essa robotização humana. Criou-se um “prêt-a-porter” comportamental, tudo pronto para usar. As gentes não mais precisarão criar, pensar, questionar, duvidar, pois tudo estará pronto, uniformizado.

Ideologias, partidos e regimes políticos levaram-nos ao desastre quando nos impuseram totalitarismos. Vencemo-los com o exercício da liberdade de espírito, essa força moral cujo nome é dignidade. E a pedra de toque está na busca da sabedoria, um dom doado ao ser humano em seu nascedouro. Ao perguntar o “por quê” de qualquer coisa, uma criança está filosofando. O jovem filosofa ao interrogar e interrogar-se. O adulto filosofa angústias em sua, muitas vezes, desesperada busca de respostas ao que é irrespondível.

A Ciência nasce do senso de Humanidades. O cientista, por primeiro, quer saber do “por quê”. Filosofa, portanto. Só em seguida ele irá perseguir o “como”. E faz Ciência. Se, pois, roubar-se à juventude – nas escolas e na vida – as Humanidades, poderemos criar técnicos que obedecem às leis criadas pela ciência. Mas bloquearemos a genialidade dos que poderiam contribuir para a jornada interminável da ciência. Saber pensar é aprender com a natureza e descobrir: o que não pode ser não é; o que deve ser é.

As Humanidades possibilitam-nos entender a vida como dom, como graça, bênção. E não como castigo ou penitência. Penso em Henry Thoreau – um dos maiores pensadores estadunidenses – que decidiu, para pensar e entender, refugiar-se numa floresta à beira de um lago. Em seu livro “Walden”, captou a harmonia da natureza, passou a entender melhor o mundo e a vida. E concluiu: “minha vida é minha diversão”.

Ora, a vida humana nada mais tem sido do que um esforço inaudito para apenas sobreviver. Não é mais distração para ninguém, ao contrário do que já vivemos no passado: olhar passarinhos fazendo cirandas no ar, estrelas piscando, o luar inspirador de romances, a doçura da fruta, o barulho alentador das crianças, a vivência do amor, o espírito de fraternidade. E um voo de borboleta? Mas, não: agora, queremos estar bem em Marte.

Esse terrível redemoinho está engolindo-nos. Hei, eu, de insistir em acreditar: “A beleza salvará o mundo.” E essa salvação virá a partir de quando voltarmos às origens reveladas pela Filosofia e pelas Humanidades, agora sonegadas à juventude brasileira. O materialismo haverá de acabar, pois a matéria se extingue. E será uma estupidez deixarmo-nos destruir por nos impedirem de fazer as três perguntas fundamentais: “de onde viemos, para onde vamos, quem somos?”

Encerro com uma reflexão de Guido Tonelli: “Arte, beleza, filosofia, religião, ciência – numa palavra, a cultura – são a nossa tenda mágica. E precisamos dela, desesperadamente, desde tempos imemoriais.”