In Extremis (16): Ver, ouvir e contar estrelas

Quando o vi, à porta da sala, alegrei-me. Como que de repente, ele crescera. Agora, era o sorriso tímido da adolescência, não mais aquelas álacres risadas da meninice. Ele era do grupinho que me encantava as manhãs da velhice. Quatro crianças visitando o “velho que conversa com as pedras”, como diziam. Feitos ventanias, entravam casa adentro, iam até meu quarto, chamavam-me: “Acorda, dorminhoco, tá na hora.” A empregada advertia-os: “Deixem o homem dormir, ele escreveu durante toda a madrugada.” Mas eu despertava alegremente. E tomávamos, juntos, quase sempre, o café da manhã.

Perdi-os quando eles ganharam celulares, tablets. Perdi-os para os games, que, também a eles, os seduziram. Não mais os vi correndo por nossos espaços, lamentei a ausência de meus amiguinhos. Daí, meu entusiasmo ao ver o garoto sorrindo para mim, querendo conversar. Tratava-se de um trabalho escolar e ele queria entrevistar-me.

Ele estava inibido. Parecia não saber o que perguntar-me. Senti haver, em seu olhar, uma certa ansiedade, essa sombra que sempre acompanha a adolescência. Lembrei-me de mim, das minhas angústias, a explosão hormonal confundindo-me. Então, o garoto me perguntou: “Diga uma coisa: os seus tempos eram melhores do que agora?”

Admito a minha surpresa. O menino confirmava aquilo que tenho percebido: crianças, adolescentes, jovens estão pedindo socorro sem mesmo entenderem o porquê ou do quê. Enquanto multidões de adultos – na perplexidade de uma vida sem sentido a não ser o do consumo – falam de uma geração alienada e indiferente, lá estão filhos e netos atormentados pela inevitável crise existencial. Inevitável e benfazeja. Pois, enquanto o “monstrum” de nome mercado prega a cupidez, ganância, essa nova geração continua em busca de sua verdadeira humanidade. O que é a vida? Por que a morte? E esse tanto ódio, para quê? E a maldição da guerra, das armas, da violência desenfreada?

Ora, não tenho o direito de destruir sonhos, mesmo por não acreditar nisso a que chamam de realidade. O que é o real, o mundo real? Quem o constrói? O mundo verdadeiramente humano é o da utopia – aquele que ainda não é, que ainda não existe. É o tempo que perpassa a imaginação e os sentimentos dos jovens; tempo do “faz-de-conta”, de inventar para sobreviver. O meu amiguinho, na realidade, perguntava-me se, no passado, nós, os velhos, vivemos ou apenas sobrevivemos. O que é mais saboroso, o ontem ou o hoje?

Não, eu não podia dizer-lhe que mais saboroso – com sabor de encantos e de magia – fora o passado. Se o fizesse, estaria, apenas, dando-lhe a versão de um homem velho que peneirou o que houve de bom e de ruim em sua trajetória para, então, ficar com a recordação de como tem sido fantástico viver. Para o sobrevivente, o passado sempre terá sido melhor. Mesmo não sendo toda verdade.

Falei-lhe das maravilhas das novas técnicas, das conquistas da ciência, de como é preciso usá-las para o crescimento espiritual e material. Falei-lhe, sim, do desperdício de priorizar jogos, de tornar-se dependente e escravo deles. Tentei alimentar-lhe os sonhos escondidos sob o medo de tudo o que acontece.

Observei-lhe, então, as mãos, os dedos. Não tinham verrugas. E Olavo Bilac intrometeu-se na conversa: “Ora, (direis) ouvir estrelas?” Pois é. Houve tempo quando crianças viam, ouviam e contavam estrelas. E os dedos ficavam salpicados de verrugas. Pois ver, ouvir e contar estrelas davam verrugas nas mãos. Estrelas ainda brilham nos espaços. Verrugas, porém, onde estão?