“In Extremis” (21): A triste exclusão do fiu-fiu

Tempos estranhos, os nossos. Mais do que isso, penso que amedrontados, tempos medrosos. São mil medos: medo do ar, do alimento, do amor, medo de amar, do futuro, medo de ter filhos, medo da generosidade que se tornou suspeita de algum interesse oculto. Basta um gesto de delicadeza para despertar dúvidas: “o que está por trás disso?”

Grosserias, vulgaridades, chulices, vandalismos – tudo isso que, antes, se chamava “gaucherie”, a rusticidade, agora faz parte do cotidiano. Ora, não se trata – ao lamentar-me disso – de alguma forma de elitismo. Trata-se, apenas, da convivência civilizada, cordial, gentil. Quem poderia protestar contra atenções e delicadezas recebidas? Lembro-me – e sempre insisto em contá-lo pois me pareceu um início de deterioração – de quando ofereci meu lugar, num metrô, a uma jovem senhora grávida. Ela me fitou com um olhar colérico e vociferou: “O senhor pensa que gravidez é doença?” E isso foi nos longínquos 1980…

Freud fez-se a pergunta diante do enigma: “O que querem as mulheres?” Basta, porém, pensar um pouco para constatar que elas querem tudo. Porque, gestando e gerando filhos, estes se lhes tornam o objetivo maior, o sentido totalizante, a plenitude da vida. Quem consegue enfrentar e vencer a mulher-mãe que luta por seu filho?

Ora, só posso comentar, escrever a respeito do que vivi, mesmo que isso não interesse a ninguém. Tem sido, porém, a minha sina, longa sina, pois vi e vivi transformações já de muitas décadas. Se é verdade tratar-se de uma riqueza, não menos verdadeira é a dor de ver perderem-se tesouros irrecuperáveis. A grande farsa de o homem conquistar a mulher, por exemplo, tem sido desfeita. É uma pena. Pois a civilização vive de farsas, de máscaras, de disfarces. Não é o homem que conquista, mas a mulher que, deixando-se conquistar, escolhe. No fundo da ancestralidade, está a questão: qual o melhor reprodutor?

Estou tentando dizer que estes tempos de lmaterialismo individualista estão destruindo o que, por séculos sem fim, o ideal amoroso despertou na humanidade. Há – ou havia? – entre homem e mulher, um ritual fascinante. Como se fosse um bailado de esgrimistas. Trata-se – ou tratava-se? – da herança do amor cortês, o amor da Corte. O homem cortejava a mulher, fazia-lhe a corte. E o cortejo, esse galanteio, manteve-se ao longo dos séculos, adaptando-se a cada época. Foi admirável: tudo mudou, incluindo as mil maneiras de cortejar. Mas o amor cortês sobreviveu. Pelo menos até aqui.

Tudo se tenta para matar o desejo humano. Conseguiu-se, muitas vezes, inibi-lo, reprimi-lo. Não há, porém, como matá-lo. Hoje, nas chamadas redes sociais, repete-se – mas de maneira grotesca – o que se chamava “correio elegante”. Antes, uma simples piscadela enviava a mensagem do pretendente. E a mulher – com um sorriso ou com o código dos leques – respondia. Sutilmente, ela mostrava o começo dos joelhos. E o homem tremia. Hoje, a mulher se desnuda inteira e o homem perdeu o interesse.

Agora, o “fiu-fiu”. O adorável, o encantador “fiu-fiu” que sempre foi a síntese sonora da admiração de um homem por aquela mulher. Ora, mulheres dos tempos que vivi sentiam-se lisonjeadas ao receber o “fiu-fiu” verdadeiro. O dos cafajestes sempre foi desprezível. O próprio marido, ao ver a sua mulher arrumadinha, olhava-a e, baixinho, fazia o “fiu-fiu”. E isso significava: “Como você está linda!” E ela se encantava. Apenas isso.

Desculpem-me. Mas mulher que nunca recebeu um “fiu-fiu” desconhece a beleza de um dos sedutores rituais da vida. Que pena!