“In Extremis” (25): Uma viagem com Fernanda

Distante, a filha Patrícia avisa-me: “Pai, estou enviando-lhe pelos Correios uma de suas paixões, a Fernanda”. E pensei no meu querido Evaldo Vicente, que sempre me diz: “Nunca vi esse homem sem estar apaixonado.”

Ora, como viver sem paixões? Se assim fosse, estar vivo seria apenas existir. E existir até as pedras existem. Para estar e sentir-se vivo – penso eu – há-que e há-de estar aberto a todas as maravilhas da própria vida, dores e amores, gemidos e suspiros. A paixão é estar diante de algo ou de alguém que nos abre os olhos d´alma para o inefável que nos parecia escondido. Não acredito em estar apaixonado por algo ou por alguém. A paixão está represada dentro de cada um. E sempre será algo ou alguém que abrirá a fresta por onde escapará – livre, liberta, solta – essa torrente a que se dá o nome de paixão. Rompem-se, então, os limites da razão e revelam-se os dois extremos, céus e infernos.

Sei existir o dom das lágrimas, a bênção delas. Escorrem-nos dos olhos – vindas da alma – na alegria, no prazer, na dor, no sofrimento. Brotam no amor e, depois, brotam na saudade. Admito, sim, com humildade e rendendo graças, ter vivido de paixões, também ainda agora. Paixão pela vida, por meus pais, por irmãos, família. Pela mãe dos meus filhos, paixão por eles e pelos netos, frutos do amor. Paixão por cada mulher que amei, por cada música que ouvi e que me emocionou. Paixão por Piracicaba, pelo XV. E pelo Corinthians. Paixão por Neruda, por Fernando Pessoa, por Adélia Prado. E por Chico, por Vinicius. Por Maísa, por Elizete. Paixão por Procópio e Bibi Ferreira. E por tantos. E paixão, sim – paixão delirante – por essa mulher que me pacifica e angustia, que me faz rir e chorar, mulher sedutora do mundo, Fernanda Montenegro.

Quando vi a capa do livro, beijei-a como a um símbolo, uma religiosa, o retrato de um antigo amor. Fernanda parece assustada, surpresa, como se nos dissesse: “Desculpem-me por contar!” À noite, comecei a flertar com ela, namorado que busca saber das origens da bem-amada. A cada página, perdi a timidez, cedendo-lhe aos encantos. Num fim de semana, tive minha lua de mel espiritual com Fernanda. Só ela e eu. E o tempo infinito, 90 anos dela – quase 80 meus – todos eles revividos, remembrados e relembrados, as recordações de Fernanda despertando, em mim, todas as minhas. Remembrar é unir o que estava separado.

Tudo o que Fernanda fez reviver, toda sua história é, na verdade, a história de diversas gerações que conheceram um outro país, um outro mundo, outro tempo onde e quando a realidade era feita de esperanças. O bom despertava-nos para ir em busca do melhor. Fernanda colocou-me diante de Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Ziembinsky, Adolfo Celi, Domingos de Oliveira, Bibi e Procópio, Tônia e Autran, Chico e Paulo Pontes. Revi, emocionado, Fernanda em “Dona Doida”, em “É…”, em “A Falecida”, em “Central do Brasil”, em… E revi a cultura brasileira contagiando o povo nos palcos, na música, na literatura, na pintura – o imenso laboratório onde acontecia a construção de um novo povo.

Fechei o livro, um sentimento de gratidão, de devota gratidão. Na quarta capa, lá está ainda Fernanda. Mas, desta vez, sorridente, olhar vitorioso e de doce malícia. “Então, gostaram?” – parece dizer. Beijei-a novamente e fui, ao entardecer, meditar na paz de meu jardim. O verdadeiro Brasil, Fernanda trouxera-o de volta. E, como em oração, repeti as suas últimas palavras: “O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto.”