“In Extremis” (29): Direita, de Deus; esquerda, do Diabo

Outro dos muitos problemas da ignorância está no fato de ser, ela, contagiosa. Espalha-se como fogaréu em mato seco. E mais devastadora se torna quando promovida oficialmente, como proposta ou mediocridade de governos. Aliás, a implantação ou o cultivo da ignorância dos povos são recursos clássicos e eficientes das tiranias. Em todos os tempos. Povo inculto é povo destinado à submissão.

Viver muito é uma bênção da própria vida. Mas, há mais dores também. Já confessei minha perplexidade. Nunca assisti a uma situação como essa a que estamos subjugados. Crises e mais crises, vivi-as todas, desde a II Guerra Mundial. No entanto, havia como enfrentá-las. Contra a ignorância, porém, tudo se torna mais complexo. Pois o diálogo e a racionalidade deixam de existir. O poder da força e da ignorância são iguais. E devastadores.

Essa obsessão em relação a esquerdismo, socialismo já envergonha o Brasil diante do mundo civilizado. Ora, está faltando apenas proclamar que “comunista come criança; que socialista viola freiras; que esquerdista estupra virgens”. Mas parece estarmos próximos disso. Fantasmas do passado parecem ter sido resgatados. O Holocausto fora anunciado antes de acontecer.

Foi na Revolução Francesa que surgiram, na Política, as expressões “esquerda” e “direita”. Os Jacobinos (os que se reuniam no mosteiro da Rua de Saint-Jacques) – que defendiam reformas e queriam a implantação da República – sentaram-se à Esquerda durante a Assembleia Nacional. E os Girondinos (deputados da Gironda) – que desejavam manter o “status quo”, alguns privilégios do Antigo Regime – sentaram-se à Direita. À esquerda, estavam os liderados por Robespierre; à direita, o grupo também radical de Marat e Danton, representantes da burguesia, dos bancos, etc. Trata-se, porém, de longo e fascinante estudo, da revolução que mudou a história da Humanidade. Seria pretensão demasiada tentar narrá-lo em tão poucas linhas.

Essa foi, também, a época chamada do Medo, dos medos, e do Grande Terror. Morrer e ir para o Céu ou para o Inferno, eis a angústia dos povos de cultura cristã. Superstições, crenças, preconceitos, fantasmagorias – viveu-se um teatro de pavores. E as palavras “Direita” e “Esquerda” pareciam, universalmente, revelar um destino. À Direita, ficava Deus, pois o Credo católico anunciou que Jesus “está sentado à mão direita de Deus Pai Todo Poderoso.” O Bom Ladrão fora crucificado à direita de Jesus. Foi no lado direito que o Divino Mestre sofreu o golpe da lança, flanco de onde escorreram água e sangue.

A visão negativa que se teve – ou ainda se tem? – da mulher é, também, explicada pela “esquerda” e “direita”. Eva nasceu má, por ter surgido da costela esquerda de Adão. O lado direito é o da virilidade; o esquerdo pertence às mulheres. Até Salomão, no Eclesiastes, apresentou sua convicção: “O coração do sábio está à sua direita; mas o coração do tolo está à sua esquerda”. A mão direita do ser humano é a sua destra. Destra de destreza. E a esquerda é a sinistra. Assim, o canhoto passou a ser visto como portador de algo sinistro. A superstição, o medo, a ignorância são milenares.

Os ignorantes – delirando em exterminar a esquerda e o socialismo – devem ser muito religiosos, fanaticamente religiosos. Pois parecem levar ao pé da letra as palavras de Mateus: “Os benditos de Deus estarão à sua direita e irão para o reino dos céus. Os malditos ficarão à esquerda e irão para o fogo eterno.”

Os canhotos que se cuidem: estão em perigo no Brasil.