‘Índole de servir’

italiano Primeiro brasileiro eleito senador pelo parlamento italiano fala sobre a carreira e o amor que tem por Piracicaba. (Amanda Vieira/ JP)

Fausto Guilherme Longo, 65, nasceu em Amparo, mas passou a maior parte da vida em Piracicaba. Aos quatro anos de idade, ele e os familiares se mudaram para a Noiva da Colina, onde firmaram raízes e fizeram história. O pai dele, Fausto Longo, era um industrial do setor de mármores e granitos e a mãe, Maria José Marcondes, se dedicava aos afazeres do lar e aos cuidados da família.

Neto de italianos — Santo Giuliano Longo e Brigida Rinaldi (avós paternos) e João Marcondes Pereira de Lima e Olimpia Oscarlina de Oliveira (avós maternos) —, Longo está em seu terceiro casamento. Com a primeira esposa, Yvana Maria Scrocchio, teve um filho, Fausto Longo Netto, ambos falecidos. Posteriormente, casou-se com Jocelyne Martins Rodrigues, com quem teve três filhos: Luccas Guilherme, Leonardo e Luigi. Atualmente, é casado com a designer Sheila Brabo, cuja garra e lealdade o conquistaram. Longo é avô de quatro netos: Elena (5), Filipa (4), Guilherme (3) e Leonardo (1), que segundo ele, são a alegria e a renovação de sua vida.

Por onde passa, deixa sua marca. Sua trajetória profissional inclui inúmeras experiências nas áreas da publicidade e propaganda, sendo na criação ou como ilustrador. Na área da comunicação, trabalhou no jornal O Diário, de Piracicaba; Jornal de Piracicaba, Diário do Povo, em Campinas; Editora Luís de Queiroz, e Agência Monte Alegre de Turismo.

Com formação acadêmica em arquitetura pela PUC-Campinas e mestrado em Tecnologia e Planejamento Habitacional pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), Fausto Longo também teve forte atuação no setor de design e arquitetura, no âmbito público e privado, e ainda vasta experiência na área institucional de comunicação social, promoção e difusão em ciência e tecnologia.

Atualmente, Longo se dedica à vida pública entre Itália e Brasil. Em 2013, foi eleito senador pelo parlamento italiano, sendo o primeiro brasileiro a ocupar este cargo. Ano passado, concorreu e ganhou a vaga na Câmara dos deputados pelo Partido Democrático, também na Itália. Neste ano, seu desejo é também vencer o pleito das eleições nacionais. Ele disputa uma vaga de deputado federal (MDB).

Fale-nos um pouco de sua infância, pais, irmãos, avós. Quem mais te marcou (em termos de bons exemplos) neste período da vida?
Nasci em Amparo, Hospital Ana Cintra, numa terça-feira de inverno, às 6:15 do dia 22 de julho de 1952. Já em 1956, aos 4 anos de idade, minha família se transferiu para Piracicaba, onde meu pai estabeleceu sua pequena indústria de beneficiamento e produção de objetos, revestimentos, altares e jazigos em mármore ou granito, a Marmoraria Artística Fausto Longo, dando sequência à tradição iniciada pela família desde sua chegada ao Brasil, em 1892. A infância em Piracicaba, em sua maior parte na rua Regente Feijó e vizinhanças, se caracterizou como uma rica experiência que sempre foi marcante em toda a minha vida; a amizade, o carinho entre as pessoas que ali conviviam, histórias trocadas, tristezas e alegrias. As pessoas que marcaram esse período foram muitas, mas, em especial, minhas primeiras professoras: Irene e Angela Gatti, Maria Cobal, Carolina de Mendes Thame e Lourdes (Oda); também Bilo, o marceneiro que sempre atendia nossos pedidos mais esquisitos, desde palcos para teatros de fantoches até tacos de bilhar, ‘seo’ Ademar (Dal Poggetto), nosso mágico mecânico, seus filhos Dema, Dorinha, Ziza, Ana Luiza, amigos queridos, a família de Gino Truffi (dona Irene, Suely, Amadeu, João, Irineu, ‘seo’ Rômulo, Chico Cinco Tiro, Paulinho) e a famosa AVA (Auto Viação Americana), com seus ‘gigantescos’ ônibus azul e brancos, a família Bueloni, Cardinalli, o bar do ‘seo’ Gusto, o armazém do ‘seo’ Romeu, a padaria Aliança, as ‘carroças’ do verdureiro ‘seo’ Irineu ou ‘seo’ Ricardo, do sonho, do mata-fome da padaria ou do ‘furgão’ dos Doces Martini, da gengibirra ou da tubaína das famílias Andrade, Altafin, o velho Campo do XV de Mazzola, Pescuma, entre outros, Família Zanetti (Tuca, Paulinho e Verinha), Canciglieri, Dr. Bernardo Aguiar e Dr. Sérgio Caruso, Dr. Consolmagno, Dr. Jorge (oftalmologistas que chamávamos ‘médicos oculistas’), os amigos das ‘redondezas’, Arari (o Amarelo) e Gentil (o Vermelho), o Carlinhos Gonçalves (Carlinho Cebola), Celso e Enory Elena Gemente, a família Gaiad (Cristina, Paulo, Zé Luiz e Marquinhos), a bela Valquíria, família Schiavinato (Cleide, Carlinhos, Claudete e Cleyton), Dona Titi e ‘seo’ Modesto (integralista, ferrenho defensor de Plínio Salgado) e suas netas Maria Lígia e Maria Angélica, o famoso e implicante Maneco Três C, família Fagundes (Antônio Carlos, Regina, Cristina e Luiz Antônio), ‘seo’ Pedro, famílias Negreiros, Boldrini, Müller, enfim, lembro-me de muitas famílias, muitos amigos, todos muito queridos, impossível listá-los todos que vivem na boa memória e no coração. Em casa, destaco meus irmãos, como caçula de seis filhos, era tratado com extrema atenção, de cada um guardo o relevante papel que teve em minha formação; sou muito grato ao José Benedicto (Dito Longo), às irmãs Marisilvia e Adriana, ao Affonso (Longuinho), ao quase gêmeo Alexandre (já falecido). E em especial, meu pai, ‘seo’ Fausto, e minha mãe, ‘dona’ Zezé!

Você viveu grande parte da vida em Piracicaba. Nos conte um pouco de sua permanência pela cidade. Escolas por onde passou.
Passei pelo Grupo Escolar Moraes Barros, Escola Industrial Cel. Fernando Febeliano da Costa, Colégio Técnico Industrial (Eletrotécnica), sem contar os famosos ‘cursos de admissão’ do Professor Hélio Padovani. Guardo boas lembranças da Banda Marcial e de todos os professores com quem aprendi muito sobre ética. A lista é extensa, difícil relacionar tantos mestres queridos.

E na imprensa? Fale sobre as passagens por O Diário, Jornal de Piracicaba e Rádio Difusora.
O primeiro contato com a imprensa foi em O Diário, como fotógrafo. Aprendi com o saudoso amigo Henrique Spavieri! O primeiro trabalho profissional foi fotografar o primeiro dia do recém-eleito prefeito Adilson Benedito Maluf. Depois, foram diversas experiências como ilustrador ou chargista no mesmo O Diário, no Jornal de Piracicaba, na Revista Aldeia, de Alceu Marozzi Righetto. Aos 16 anos, uma experiência bastante interessante com o amigo Carlos Gonçalvez, pudemos realizar o trabalho de produtor e apresentador do programa musical radiofônico Postal Sonoro do Brasil, na Rádio Educadora de Piracicaba, dirigido pelo saudoso, rígido e competente profissional Moraes Sarmento. Antes, na Rádio Difusora, apresentava no programa de auditório aos domingos pela manhã nosso teatro de fantoches Mamolengos (que também era destaque em festas e escolas da cidade). Lembro-me que em um desses programas fui sorteado com um vidro de ‘Toddy‘, o que me deixou muito feliz!!!

Sobre o Salão de Humor de Piracicaba, como foram as tratativas e as ideias que fizeram nascer a maior e mais tradicional mostra de humor do mundo. Conte-nos sobre sua participação.

Nossa participação foi ambivalente, ou seja, por um lado como participante ativo no processo de instigação política de um possível evento que se contrapunha ao domínio da censura, sempre mobilizado por Alceu Marozzi Righetto, e com ampla participação democrática de João Maffeis, Cerinha, Ermelimdo Nardin, José Maria, Adolpho Queiroz e Carlos Colonese e, por outro lado, com duas outras vertentes: a primeira pelo fato de ser um apaixonado pela arte do cartum e a segunda por ter uma agência de publicidade que podia prestar alguma colaboração à realização do evento. Dessa forma, desde a primeira edição fui um operário colaborador, ofício que vai desde a confecção das artes dos cartazes, dos luminosos de ingresso, da montagem e da decoração, até ser membro de júris, de comissões organizadoras e presidente em algumas edições, sem contar que já fui participante premiado. Enfim, é um evento que vi nascer, crescer e se tornar indispensável na história recente de nossa política.

Como foi o ingresso na vida política e o que te motivou a entrar nesse “ramo”?
Interessante colocar a questão dessa forma, ou seja, ‘entrar no ramo’. Na vida política, como resposta àquela tendência natural que algumas pessoas apresentam como índole de servir, creio que nasci com essa característica congênita. Sem demagogia, ao colocar a política como ‘ramo de atividade’, acabamos por reduzir-lhe o real significado e importância, reforçando o conceito inadequado do ‘servir-se do que é bem público’, ao invés de ‘servir ao bem público’. Na política, creio que o significado ‘profissional’ deveria ser associado ao conceito de ‘professar’, de compreender o presente para se desenhar o percurso de transformação que transporte a sociedade a uma condição melhor, por meio de um conjunto de normas e procedimentos: as leis.

Conte-nos um pouco sobre sua trajetória política.

A primeira experiência na administração pública foi a convite do Luiz Antônio Lopes Fagundes, então presidente do Departamento Municipal de Turismo. Em seguida, assim que se elegeu prefeito, João Herrmann Netto, em cuja campanha eu havia participado ativamente, me perguntou duas coisas: como eu via o turismo e qual minha impressão sobre o carnaval. Respondi que turismo era uma atividade econômica que trazia em si a vantagem de aproveitar as peculiaridades locais — culturais ou paisagísticas — para atrair visitantes, que movimentariam a economia local, ajudando a enriquecer o município sem ser às custas dos contribuintes. Sobre o carnaval, disse que todos mereciam quatro dias de folia, depois de 361 dias de rotina. Mas que via no carnaval algo mais importante, que ia para além dos quatro dias de folia: os seis meses anteriores de preparação, quando crianças e jovens se envolviam nas atividades comunitárias de construir a escola de samba, aprendendo a tocar um instrumento ou mesmo a fabricá-lo, aprendendo costura para confeccionar as fantasias e os adereços, toda a comunidade se reunindo para organizar o samba-enredo e a bateria, decorando e ‘sentindo’ a música conforme o tema proposto, a produção dos carros alegóricos amarrados ao tema, enfim, uma verdadeira ópera comunitária; e que ao produzir o espetáculo gerava riqueza e renda, estimulando mais ainda a visita dos turistas que lotavam as arquibancadas para ver a Zoon Zoon, Ekypelanka, Pé Chato, Unidos do Jaraguá, Vila Bacchi, entre tantas outras, que proporcionavam também alegria e, principalmente, o senso de participação de toda a comunidade de forma voluntária. Enfim, uma festa do povo. E foi assim, naquele dia, baseando-se nessa visão de turismo e carnaval apresentada, que João nos apresentou o desafio de ajudá-lo na administração, ocupando o cargo de Secretário de Turismo.

Quais os projetos para a política?
No processo político, no contexto italiano temos uma posição bastante estável, o próximo pleito somente será em 2023, ou seja, ainda temos um longo mandato pela frente. Porém, embora muitos brasileiros digam que gostariam de deixar o país, penso justamente o contrário, creio que o momento exige assumirmos a responsabilidade de sermos protagonistas de nossa própria história, não meros coadjuvantes, espectadores ou desertores. No Brasil, estão meus familiares, filhos e netos… certamente fico indignado com os rumos da política, não creio que o caminho correto seja deixar tudo piorar, precisamos assumir o desafio de devolver ética e responsabilidade àqueles que se propõem a fazer política, devolver o significado de ‘servir’ e não ‘servir-se’ da política. Eu realmente creio que é possível fazer a boa política.

Porque escolheu se candidatar no Brasil?
Por entender que tenho uma contribuição a dar ou, ao menos, tentar. Penso que é o momento de lutarmos por algumas mudanças de rumo e de conduta, nossa Carta Constitucional está tão emendada e remendada que mais parece uma antiga colcha de retalhos. Precisamos modernizá-la, aperfeiçoá-la e dar-lhe as feições de um novo tempo, o amanhã! Quando foi feita, atendia ao seu tempo, carregada de proteções a um possível retrocesso institucional que pudesse subtrair nosso estado de direito; quando promulgada, apenas três anos após a retomada da democracia, era adequada a evitar a reedição dos 25 anos passados, hoje, precisamos de uma carta que olhe para os 100, 200 anos futuros!
O senhor é um defensor do parlamentarismo. O que te faz acreditar que este seria o melhor caminho para o Brasil?
Vivo a experiência real desse sistema, afinal, fui senador e hoje sou deputado em um regime parlamentarista. Posso perceber nitidamente como o processo de decisão e de solução de crises é mais eficaz e mais justo. A última tentativa (plebiscito) para se discutir o aperfeiçoamento de nossa democracia se deu há 25 anos. Será que não seria o momento de aproximar o Brasil de uma forma mais avançada, mais plural de tomada de decisões, evitando-se a concentração de poder, de recursos e de ‘oportunidades’ de erros nas mãos de um só dirigente?
Quando se aposentar, onde vai morar: Piracicaba, Amparo ou em alguma cidade italiana?
Sinceramente, espero morrer trabalhando. Tanto o desenho como a boa e séria política têm um forte poder de nos rejuvenescer. O ideal será fazer uma permanente ponte aérea entre a alma, a mente e o coração, sem importar onde.

Diante de uma trajetória de vida tão eclética, qual o legado que você pretende deixar para seus netos e para seus eleitores, tanto italianos quanto brasileiros?
Um país! Uma nação! Um presente. Basta de sonhar um futuro, mãos à obra!

(Fernanda Moraes)