Jeca Tatu sobrevive na terra de Monteiro Lobato

O olhar continua desconfiado. As vestimentas são as mesmas: botina, calça e camisa esgarçados, chapéu de abas largas. Em vez de agregado, ele agora é funcionário. Na choupana, ainda reinam o fogão, a lenha e o banquinho de três pés. Do lado de fora, uma antena parabólica denuncia a modernidade. Nos bolsos, nada de telefone celular. Aí seria demais.

O caipira do século 21 permanece nas terras da Buquira, a fazenda do Vale do Paraíba que já foi do escritor Monteiro Lobato e lhe serviu de cenário para seu primeiro livro, Urupês, cujo conto inicial foi publicado nas páginas do Estado. No livro, aparecia pela primeira vez a figura do Jeca Tatu, descrito como uma espécie de “piolho da terra”.

Às vésperas da comemoração do centenário do livro, lançado em 1918, o Estado percorreu trilhas do conto. E na própria Buquira, hoje desmembrada em várias pequenas propriedades, encontrou Antônio Donizete, de 41 anos. “Estou acostumado na roça, não quero sair daqui não”, diz. “Faço meu roçadinho, vivo sozinho cuidando da terra do patrão. Não penso em outra vida.”

Como o personagem de Lobato, são poucos os motivos que fazem Donizete deixar a fazenda. Um deles é o dia de eleição. “Votei na prefeita”, lembra ele, referindo-se à última eleição na pequena Monteiro Lobato, cidade a cerca de 130 quilômetros de São Paulo que ganhou o nome do mais ilustre munícipe. “Agora não sei não. É eleição pra que mesmo?”

A propriedade que Donizete administra, mediante o pagamento de dois salários mínimos, fica numa encosta de morro. Ali se cria “um gadinho” – cinco vacas leiteiras. Planta-se verdura numa pequena horta. “Os dias custam a passar”, diz o caipira do século 21. “A única distração que tem é a novelinha que passa na televisão à noite.”

Na área urbana da pequena cidade, hoje com 4,4 mil habitantes, também se percebe o tempo passar devagar. Moradores em cadeiras nas calçadas, um carro vez ou outra na rua, o latido distante de um cachorro. Em dias de festa, porém, a localidade se transforma. O grupo de catira Tangará, que surgiu na década de 1930, mantém a tradição da cultura tropeira com sua dança de passos firmes e palmas sincronizadas, ao ritmo da viola caipira. No mais, tudo é puro marasmo.

Na zona rural, pouco adiante da casinha ocupada por Donizete, existe uma pequena vila, abandonada, com só uma moradia habitada. Nela vivem Alessandra Vaz, de 38 anos, e seus três filhos. Alessandra é a mais perfeita tradução da “caipirinha cor de jambo” citada por Lobato. Com um adicional que lhe confere atualidade: vive dos R$ 202 mensais do Bolsa Família.

“Morava na cidade, vendia espetinho na praça”, conta. “Mas sou da roça, aqui é meu lugar, e resolvi voltar. Vou fazer uma lavoura para tirar o que comer e com o dinheiro que ganho do governo pago o aluguel.”

Casarão. Mais à frente fica a antiga sede da Fazenda Buquira. Foi no casarão de 19 cômodos e 80 janelas, construído em 1870, que Lobato rascunhou a lápis os contos de Urupês, numa escrivaninha que até hoje pode ser vista na sala principal. Ele herdou a fazenda do avô, o Visconde de Tremembé, em 1911. Era uma grande propriedade, de 1.515 alqueires, que o jovem se empenhou em tornar rentável: modernizou a agricultura, importou cabras, abriu novas frentes de plantação, introduzindo as culturas de café, milho e feijão.

A antiga sede da fazenda pertence hoje à professora aposentada Maria Lúcia Ribeiro Guimarães, de 75 anos. Seu avô comprou a propriedade de Lobato. Ela relembra as dificuldades do escritor, que, depois de exercer carreira de promotor de Justiça na vizinha Areias, resolveu virar fazendeiro para cuidar da propriedade herdada.

“Aqui ele sentiu na pele a dureza que é ser um produtor rural e foi registrando tudo isso nos seus escritos, muitos deles enviados ao jornal O Estado de S. Paulo”, relata Maria Lucia.

De acordo com o biógrafo Edgar Cavalheiro, em seu Monteiro Lobato: Vida e Obra, só um ano e pouco depois de se tornar fazendeiro é que o jovem escritor passou a atentar para os homens que o rodeavam.

“Vítima, como tantos outros lavradores, do instinto depredador do colono ou agregado, ele medita sobre o assunto e, de passagem, anota a possibilidade de uma obra de caráter profundamente nacional tendo como centro, ou personagem principal, o caboclo”, anota o biógrafo.

No primeiro desses escritos de Lobato, eis que surge o perfil do homem nativo que habitava e, como se vê, ainda habita aquelas paragens: “Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.