Jesus: de esquerda, de direita, de centro?!

Pe. Otto Dana

A bem da verdade, o que é ser de esquerda, ser de direita, ou de centro? Afinal à esquerda de quem ou do que? À direita do que ou de quem? Que raio seria de ser de centro? Em que capítulos e versículos dos Evangelhos vamos encontrar estes qualificativos? Em nenhum, claro.

Esquerda, direita, centro são categorias políticas modernas, cunhadas pela Revolução Francesa. São coisas do nosso vocabulário. Como, por exemplo, atribuir a Jesus o epiteto de revolucionário, reformador, contestador, ou conservador. É como se buscássemos nos Evangelhos saber se Jesus tinha título de eleitor. Ou em qual candidato Jesus votaria nas nossas próximas eleições: em Alckmin, em Ciro, em Lula ou em Bolsonaro? Ou melhor, será que Jesus votaria?…

Essas perguntas são inusitadas, exóticas, bizarras, pra quem faz uma leitura apenas piedosa dos Evangelhos. Mas não são inteiramente despropositadas. Afinal os Evangelhos admitem também uma leitura política. Jesus não se coloca apenas como objeto de devoção ou de fervorinho espiritual. Há um viés político e social na doutrina e na prática de Jesus. A espiritualidade não o isolou das tensões e conflitos da sua sociedade. Afinal, Ele não foi perseguido e executado só por ter ensinado o povo a rezar o Pai Nosso. A grande acusação que o vitimou era que Ele subvertia a ordem, contestava a forma de entender o poder e o governo. Um poder e uma forma de exercê-lo para servir o povo e não para se servir do povo.

Jesus vivia e atuava num clima político agitado e tenso, seja pela presença policialesca do poder de Roma, seja pela pressão contínua das massas populares despojadas, premidas pelo total abandono. Enquanto as minorias privilegiadas se locupletavam no enriquecimento imoral e nas benesses do poder.

Jesus não foge a uma clara tomada de posição. Jesus não se coloca como um ser etéreo que se movimenta à margem dos conflitos de sua época. Participa e toma posição e fala a partir de um lugar social bem preciso. Ele sabe discernir as necessidades fundamentais do seu povo: doenças, fome, exclusão, abandono. E propugna pela instauração de uma sociedade diferente, outra, onde o poder não é para dominação do povo, mas para o seu serviço. Um poder solidário com as massas populares. Para Jesus, um poder não baseado na solidariedade, não passa de uma mentira.

Diante disso, será Jesus um revolucionário, um reformador, um conservador? Hoje, Ele seria de esquerda, de direita, ou de centro?…Um alienado é que Ele não é.

Diocese de Piracicaba
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