Roberto Cabrini: jornalismo é interesse público

Piracicabano acumula inúmeros prêmios do jornalismo e defende que a profissão deve dar voz às minorias. (Foto: Claudinho Coradini/JP)

O jornalista piracicabano Roberto Cabrini, 59 anos, 42 deles dedicado ao Jornalismo, se formou na profissão nos Estados Unidos. Filho do casal Natalino e Maria Deise, iniciou sua carreira na cidade natal na rádio a Voz Agrícola e no Jornal do Povo.

Na Rede Globo, emissora que lhe deu projeção nacional, ele começou a trabalhar quando estava no Ensino Médio.

Com vasta experiência na televisão, Cabrini diz que nunca abriu mão de suas raízes e, nesta semana, esteve na cidade para uma palestra a estudantes de Jornalismo na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), onde falou de sua carreira.

Durante sua permanência na cidade, visitou a redação do Jornal de Piracicaba, onde participou de uma entrevista e falou dos desafios da profissão e do momento político pelo qual o país atravessa.

Por que você decidiu escrever um livro sobre suas experiência enquanto jornalista?

Há um momento na vida de um homem que você sente que chegou a hora de compartilhar conhecimento. Eu tenho tido o privilégio de seguir uma carreira que me levou a todas as partes do mundo, me levou a cobrir todos os tipos de acontecimentos e eu acumulei muita experiência. Quando eu recebi o convite da editora Planeta para fazer um livro, eu queria que fosse um livro intenso, um livro onde eu me aprofundasse, onde eu discutisse os desafios, as dificuldades do Jornalismo Investigativo e esse livro repete tudo isso. Na verdade são dez livros dentro de apenas um. Aonde eu navego junto com o leitor sobre os mais diversos assuntos, como se apessoa estivesse vendo os fatos pelos meus olhos. Quem leu me compartilha esse tipo de impressão. Então, eu faço , por exemplo a discrição das longas matérias de investigação, uma localização de fugitivos da Justiça, as matérias que venceram os prêmios mais importantes, as coberturas de guerras, os bastidores, as dificuldades logísticas, os desafios do ponto de vista emocional, as limitações, tudo isso está nesse livro. E as entrevistas mais desafiadoras onde o entrevistado quer te manipular, a estratégia que você precisa usar, a técnica, enfim, o discurso, tudo que norteia a vida de um jornalista investigativo eu fiz me inspirando – principalmente – nas constantes demandas de estudades, de alunos de Jornalismo, alunos de comunicação que sempre me pediam para que eu fizesse um livro contando os bastidores, como é que funciona o Jornalismo Investigativo.

Qual foi a sua primeira grande reportagem, qual sua idade à época? Você já sentiu medo?

Eu já lidei com situações mais difíceis que você possa imaginar, costumo dizer que denunciados não mandam flores, denunciados processam, ameaçam, mas isso faz parte, isso vai medir o seu grau de comprometimento para com a profissão, o fiel da balança é sempre o interesse público, você nunca faz uma matéria para invadir a privacidade alheia, por razões pessoais, sempre faz mediante o interesse público. Medo é algo que existe e ele é até bem vindo à medida que mostra os seus limites, mas você precisa aprender a controlar os seus sentimentos, controlar os seus medos, para que você não perca a capacidade de ter precisão na apuração e na descrição dos fatos. O medo se torna um problema quando ele afeta sua lucidez. Ninguém te ameaça se você não estiver diante de uma grande matéria, medo e as ameaças eles também fazem parte de uma generalização, você faz parte de uma investigação importante para a sociedade, é assim que eu encaro, mas é um processo evolutivo. Você vai aprendendo a lidar com a situação. E como você lida com a situação? Você sempre sendo firme, sem arrogância, nenhum jornalista pode – em hipótese alguma – ser arrogante sempre garantindo que todos sejam ouvidos na matéria. Na palestra de sexta-feira (com estudantes na Unimep) eu disse que o grande desafio do jornalista é ouvir principalmente aqueles com os quais você não concorda. Não há Jornalismo sem ouvir todos os ângulos de uma determinada reportagem, você precisa contemplar todos, principalmente aqueles com os quais você não concorda. E é isso que a gente tem de obededer em cada matéria: o direito do contraditório, de ouvir o outro lado da história e sempre fazer as coisas que são importantes para a sociedade.

E a sua visita a Piracicaba, o que representa para você voltar aqui?

Eu valorizo muito as minhas raízes. Eu nasci em Piracicaba, cresci, comecei a trabalhar aqui na rádio A Voz Agrícola de Piracicaba, no Jornal do Povo, onde eu fazia as matérias da editoria de esportes.

Como você avalia o atual momento do Jornalismo no Brasil? Há muita decepção e descrença entre os profissionais, e também com relação ao jornal impresso, quando há muitos profissionais optando pelas assessorias de imprensa devido aos salários e condições de trabalho. Como você analisa este momento, acha que é apenas um momento de transição?

Eu acho que é só um momento de transição, com certeza. É um momento delicado por vários aspectos. Primeiro pela situação econômica do país, que afetou o mercado publicitário e todos os veículos de comunicação pelo Brasil afora estão sentindo isso porque diminuiu a oferta de publicidade. Diminuindo a oferta de publicidade fica difícil para os profissionais. As empresas são obrigadas a fazer demissões eventualmente , mas acho que é um momento de transição, que vai passar à medida em que a economia melhore, a tendência é que a economia melhore, com essa reforma da previdência, que vai ser benéfica, com a aceleração de investimentos do exterior, eu acho que a tendência é melhorar. Estamos passando por um momento muito delicado porque é um momento de muita polarização politico partidário. Eu vejo pessoas se distanciando por discussões político partidárias. Eu acho que o que precisa é o Jornalismo não influenciado por ideologização. Nosso Jornalismo tem sido influenciado pela epidemia da paginalização, pessoas que estão compromissadas com este ou aquele partido se autodenominam jornalistas. A militância é muito importante, não há democracia sem a militância, mas quando a militância se autodenomina jornalista isso afeta um pouco a democracia. Mas acho que é um momento que vai ser superado com um bom Jornalismo. E o que é um bom Jornalismo? É aquele que analisa cada situação pelo mérito dela, afinal de contas os males que o país atravessa, como por exemplo, desvio de comportamento representado por corrupção, tráfico de influência não são monopólio deste ou daquele partido, são desvios de conduta do ser humano e assim que tem de ser encarado. Ao Jornalismo cabe investigar cada fato independente da sua procedência partidária, é assim que a gente constrói um bom Jornalismo. O ato de se executar o Jornalimso não é um ato de convencimento, o jornalista não está ali para convencer as pessoas a pensar como ele pensa, a obrigação do jornalista é prover informação de qualidade para que as pessoas possam tomar melhores decisões, mesmo que essas decisões possam, eventualmente contrariar o pensamento pessoal do próprio jornalista. O pensamento do jornalista é de certa forma irrelevante diante da importância de prover informações adequadas para que a sociedade ache os seus rumos. Essa é a nossa obrigação, fazer um Jornalismo que não seja influenciado por política partidária, ou por este ou aquele segmento. É um momento difícil porque é um momento de polarização e é um momento onde a partidalização tende, de certa forma, influenciar as coberturas jornalísticas, mas eu acho que é um momento que vai passar, que vai prevalecer o bom Jornalimso, que busca incessantemente a imparcialidade.

Sobre suas técnicas de entevistas com diferentes persoanlidades que você cita no livro. Tem uma pergunta que você fez para algumas pessoas (Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Dilma Houssef), a pergunta: você é corrupto?

Infelizmente essa pergunta tem se tornado recorrente para os nossos políticos, porque a corrupção tem contaminado a política brasileira em grande parte. Não se pode generalizar, então é só uma pergunta recorrente, quando você vai entrevistar um politico que está lesando a população, de um modo geral, ele vai ter dois grandes procedimentos, duas grandes estratégias, ou ele vai tentar intimidar o jornalista ou então vai tentar fugir do assunto de maneira que você faz pergunta sobre determinado fato e ele responde sobre outro e dar uma resposta tão longa que você vai até esquecer o que você perguntou. Então, isso exige muita observação e exige que o jornalista faça a lição de casa, que antes de cada entrevista ele se informe profundamente sobre o fato para não ser enganado ou levado para direções totalmente distintas daquelas que ele quer atingir. A obrigação do jornalista não é ridicularizar ou prejudicar qualquer político que seja, é a de dar a informação correta e muitas vezes isso exige de você fazer perguntas questionando, mas não há democracia sem isso.

Essa pergunta do ‘ser corrupto’ você fazia em qual momento da entrevista?

Depende, por exemplo, quando eu fui entrevistar o Fernando Collor, era um momento muito desafiador, era uma época onde não se faziam perguntas questionadoras para políticos, era uma questão cultural. Foi a primeira entrevista do presidente após o impeachment, então o essencial foi a primeira pergunta que eu fiz, eu perguntei: “Presidente Fernando Collor de Mello podemos perguntar o que a gente quiser, há alguma restrição para entrevista? Ele respondeu que não, o senhor pode perguntar o que o senhor quiser o que lhe aprouver. Muito obrigado, presidente. O senhor é corrupto? Porque havia um grande questionamento e grandes denúncias de corrupção era algo pertinente e a partir daí a temperatura subiu e a gente pôde mostrar, de fato, o lado dele da história, mas questionando, fazendo a lição de casa. Eu sabia todas as informações todos os desvios de condutas dos quais ele estava sendo acusado e fiz uma pergunta de interesse da sociedade. Da mesma forma que eu tive a oportunidade de fazer a primeira entrevista com o Fernando Collor depois do impeachment, eu fui o repórter que fez a última entrevista com a Dilma Houssef antes do impeachment e foi uma entrevista também norteada por grandes denúncias de corrupção e a corrupção tem sido um tema recorrente em relação aos políticos mais importantes do país. Espero que chegue o dia que esta não seja a principal pergunta a ser feita.

 

Beto Silva
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