Jovem artista piracicabano em Londres

Ensinei seu pai e seu tio, se bem me lembro. Mas não foi isso que me levou até ele. Foi outro meu aluno, piracicabano, que vive há anos em Londres, e de quem tenho a melhor lembrança. Primeiro, falou-me de exposição de que foi curador. Depois, postou alguns de seus quadros e me provocou saber quem era e a razão de redescobrir no terceiro milênio a arte medieval.

A Araripe Amaral, responsável por apresentar-me Gabriel Luiz Chaim, me permitiu, na distância, apreciar sua leitura do pensamento medievo. Os primeiros trabalhos, estilo inquestionável, apuro técnico, pareciam revelar o caminho da dor. A beleza se escondia em meio ao sofrimento imposto à personagem, revelado na expressão do rosto, na tristeza acentuada, no tom escolhido para as cores usadas no traçado do cenário dos últimos dias de Cristo na terra, os do Caminho da Dor.

Emocionado e bastante entusiasmado com a qualidade do que via, escrevi ao artista, também ele em Londres, onde completa estudos em torno de seu ponto de interesse, a pintura sacra dos artistas góticos, renascentistas e barrocos.

Brasileiro, nascido em Piracicaba, filho de médico que um dia esteve comigo em sala de aula, obrigo-me a contar a seus conterrâneos o quanto soube descobrir o sentido de arte gótica que a Inglaterra disseminou pelo mundo, renovando conceitos de modo a permitir que não fosse vista como uma arte bárbara.

Questionado sobre a razão disto, tratou de dizer-me em carta que não era tão religioso quanto sua arte parecia revelar. Tornou-se místico e contemplativo diante de seu trabalho povoado de figuras cristãs significativas e passou a apreciar por demais este período da história da arte.

Este não é um detalhe insignificante diante do autor e da obra. A impressão que tive ao conhecer seus trabalhos me fez voltar a antigos estudos do período quando ensinei Teoria da Arte e me obrigava a leituras constantes.

Umberto Eco, jovem ainda, lembra que a estética medieval é simples: confunde-se com a beleza ideal, como se fora atributo de Deus a ponto de negar o mal circundante, no plano da criação.
Uma visão contemporânea de arte que soube incorporar a realidade de modo tão evidente na arte, bem como todas as contradições humanas, não aceita que a Idade Média, tendo convivido com a peste, a fome, a miséria, a ferocidade e a luxúria pudesse ter ignorado o duro espetáculo oferecido pela realidade.

Gabriel, jovem, vivendo o início do 21º. século, tem centrado sua obra nos personagens, na cena reconstruída, no sacrifício imposto a Jesus Cristo, em especial, e a sua Mãe, o mal imposto pela perseguição, pela injustiça, pela barbárie humana. Nisto se revela distante do pensamento medievo mas próximo da essência do pensamento formal da Idade Média, distante do rigor geométrico, mas não pela demonstração de gosto por cor e luz.

Os sentimentos humanos se evidenciam em seu trabalho. São murais capazes de criar certa ilusão de profundidade em superfície plana, permitindo perceber nos efeitos de luz as sensações todas, mobilizando afetos e emoções, intuição e percepção do bem. Gostei muito e faço saber aos meus leitores mais esta presença piracicabana no mundo.

 

(David Chagas )