Juízo formado rápido demais

“As pessoas sempre podem nos surpreender”

Passadas as eleições presidenciais e a poeira começando a baixar, a curiosidade sobre o que está por vir aumenta. Dias atrás me perguntaram: E aí, Marcelo, como você acha que vai ser esse novo governo? Minha resposta: “Não sei, prefiro esperar um pouco antes de opinar”. Recentemente o jornalista Ricardo Boechat foi questionado sobre o que acha do Partido Novo. A resposta dele: “Não sei, vou esperar ele ficar um pouco mais velho”. Tanto eu como o Boechat temos estrada rodada o suficiente para saber que o futuro sempre pode nos surpreender.

Qualquer pessoa que tenha mais de 12 anos de idade (digo isso porque a minha filha, de 12 anos, já me contou uma experiência de decepção recente em relação a uma “amiga”) já viveu alguma experiência na qual fez um juízo precipitado sobre algo ou alguém, e, depois de um certo tempo, viu que se equivocou. Tanto para o bem quanto para o mal. Um velho ditado mineiro, que já citei aqui “n” vezes, dá um conselho valiosíssimo: “Nunca forme um juízo definitivo sobre alguém antes de comer 3 sacas de sal juntos”.

No mundo do trabalho, essa máxima não se verifica de forma diferente. Profissionais que chegam e, já nos primeiros dias ou semanas, mostram uma postura que lhes rendem grandes apostas (“Olha o fulano! Esse vai longe…”), mas depois de um certo tempo deixam as máscaras caírem e mostram a sua verdadeira face. Outros, por sua vez, que num primeiro momento deixam dúvidas sobre o seu potencial, com o passar do tempo se soltam e voam alto e longe. Assim é a vida, é clichê, mas como futebol, é uma verdadeira caixinha de surpresas.

Sabendo disso e já tendo bebido dessas duas águas (a boa e a ruim) várias vezes na vida e na carreira, tenho hoje muito cautela ao formar juízos sobre pessoas. Prefiro até nem externar a minha aposta e simplesmente observar por um tempo um pouco maior antes de emitir opinião. Fazer apostas futuras em pessoas tem sempre o seu risco. Portanto sempre recomendo muita cautela aos meus alunos.

A causa do fenômeno é mais simples do que se imagina, e pode ser explicada em uma frase. “Somos seres mutantes”. Só isso. Por mais que tenhamos valores sólidos e posturas previsíveis, estamos sempre vivendo novas experiências e sendo influenciados por elas. Mesmo depois de velhos, podemos mudar de posição política, de religião, de nível de ambição, de orientação sexual ou de qualquer outra coisa. E não há nada de errado nisso. Aliás, que chato seria se as pessoas não mudassem, não é mesmo? Portanto, novas situações e experiências podem alterar, de maneira suave ou radical, a nossa forma de enxergar o mundo e, por consequência, as nossas posturas e atitudes. Pare por um minuto e me responda se não há algo que você já gostou e deixou de gostar e vice-versa. Tem ou não tem? Claro que sim. E se é assim com você, porque achar que vai ser diferente com outros?

Portanto, tanto em relação ao novo governo, ao novo chefe, ao novo funcionário ou ao novo síndico do prédio, é sempre bom, antes de sair por aí dizendo que “vai ser assim” ou “vai ser assado”, que você deixe o ponteiro do seu amigo de punho girar um pouco, para depois, com mais fatos e ações concretas, emitir juízos mais assertivos e embasados. Garanto que essa postura lhe fará se decepcionar menos e acertar mais nas suas escolhas e decisões. Até o próximo!

(Marcelo Veras)