Libertar-se das prisões

Além dos presídios construídos para manter os criminosos isolados da sociedade, inúmeras outras formas de privação de liberdade fazem parte da vida humana, impedindo a realização de uma existência plena.

Múltiplas são as formas de se cercear a liberdade humana: as prisões sem grade do remorso, da culpa; as barreiras da ignorância; o cárcere invisível de todo e qualquer vício ou dependência, que se apodera de quem se lhe submete, escravizando e destruindo sua vida, ou pelo menos a sua qualidade, beleza e possibilidades de realização.

Obstáculos criados pelos preconceitos, pelos dogmas e pela intolerância aos poucos cercam quem os constrói, fechando-os em triste isolamento.

Há vínculos interpessoais em que existem verdadeiras algemas invisíveis de ciúme, controle e desconfiança, ao lado de chantagem emocional, manipulação e codependência, o que empobrece e desvirtua as relações.

Padrões de conduta e de consumo impostos por convenções sociais, propaganda e apelos diversos, procuram manipular os comportamentos humanos, limitando, portanto, a liberdade de escolha das pessoas, atendendo a interesses econômicos menos dignos e a propósitos obscuros.

Mesmo alguns movimentos religiosos, quando incitam direta ou indiretamente qualquer forma de intolerância, fanatismo ou crença cega, podem funcionar como limitadores da liberdade individual, distorcendo as expressões autênticas e puras da fé.

Será que nos damos conta do quanto nos submetemos a padrões que nos são impostos, a condicionamentos culturais, a modismos, perdendo contato com a nossa real natureza, com a essência que somos e que precisa se expressar livremente, a fim de que possamos ter uma existência mais significativa, plena, saudável?

Na vida de relações, só pode existir liberdade autêntica quando há, simultaneamente, o respeito à liberdade alheia, à diversidade, pois são os dois lados de uma mesma moeda.

Para que se possa viver de modo significativo, realizando, tanto quanto possível, as potencialidades humanas, expressando na existência aquilo que se é em essência, parece fundamental que se conquiste cada vez mais a liberdade interior, unida à necessária consciência e responsabilidade para que tal liberdade seja exercida correta e construtivamente.

Parece-nos essencial, como passo para a nossa educação e evolução ­ processos libertadores ­ que tenhamos sinceridade para admitir nossos erros, falhas, imperfeições e sombras. Se estivermos presos a ideias cristalizadas, ilusões, imposições externas ou internas, condicionamentos, ameaças ou medos, jamais iremos nos enxergar, individual e coletivamente, nem teremos condições de transformar o que deve ser mudado na existência de cada um e da comunidade.

Os caminhos espirituais, educativos e transformadores, dos quais faça parte uma busca sincera pelo autoconhecimento e pela consequente autotransformação, podem ser valiosas ferramentas no processo de superação das prisões invisíveis que ainda tanto restringem a liberdade humana.

André de Paiva Salum