Linda, a Velha

David Chagas

Numa das vezes que fui a Portugal, era para viver lá por um tempo. Deveria assessorar o embaixador para a institucionalização da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Uma das muitas coisas que deveria analisar era a possibilidade da unificação da língua. Logo eu, que gosto tanto desta mestiçagem linguística, do português amorenado do Brasil, das variações impostas pelo português crioulo, dialetal, enegrecido pela tradição e sabedoria africanas.

Cheguei a Lisboa em 1º de maio de 1994 para missão específica, com o coração profundamente ferido, já que soubera, ao embarcar nos Estados Unidos, da morte de Ayrton Senna. Pensava comigo mesmo o quanto os brasileiros de todos os cantos deveriam sentir-se como eu. A diferença era o isolamento, o chorar solitário.

No voo, este era o assunto, entre interrogações e exclamações as mais diversas e as mais doloridas. Todos, em diferentes línguas se perguntavam e deixavam entrever a mágoa profunda que tomara conta do mundo.

Ao chegar à capital portuguesa comecei a vasculhar nos jornais, algo que me pudesse explicar a tragédia que abalou o planeta e enlutou o Brasil. Não sabia ainda que, por alguns dias, por determinação do chefe da missão brasileira em Lisboa, me ocuparia de estar entre as milhares de visitas que chegavam à chancelaria, obrigando-me a envolver-me mais com aquele instante de luto e dor.

Passados os dez primeiros dias entre minha sala e a belíssima capela da chancelaria onde recebia distintas personalidades portuguesas e estrangeiras, que vinham para solidarizar-se com nosso povo assinando um livro de condolências, voltei-me novamente para o principal motivo de minha estada em Lisboa e tratei de contatar escritores dos mais diferentes países de língua portuguesa para deporem a respeito da nova comunidade.

A organização da antologia com depoimentos significativos me levou a um editor português que vivia entre o Brasil, Moçambique e Portugal. O excesso de trabalho me obrigou a procurá-lo em casa, na freguesia de Linda a Velha. Começava, assim, a penetrar Lisboa, cidade que já conhecia, agora descobrindo por inteiro sua beleza, seus mistérios, sua história.

Nenhuma região, no entanto, me encantava mais por seu nome que Linda, a Velha. Ao me aproximar do bairro, sempre me perguntava a razão do nome, com maior interesse ao saber que a povoação contava mais de setecentos anos.

Sempre tive interesse por nome de lugares e de pessoas. A razão do nome traz algo que comove e encanta. Menino ainda, com sete ou oito anos, na voz de minha mãe, o poema “Auto-Retrato” de Vinícius de Moraes, obrigou-me a perguntar-lhe a razão do meu. Com a boca entremeada de histórias, fazendo-me crer nelas, minha mãe revelou o porquê dos nomes dados. Se fantasiosas ou não, pouco importa. Anos mais tarde, Carlos Drummond, em verso que me escreveu, afirmou ser meu nome um decassílabo perfeito. Precisa mais?

No caso de Linda, a Velha, a história remonta ao século XIII, reinado de Afonso III. O nome refrão de cantigas de amor e de amigo cultivadas no período medieval por seu filho, Dom Dinis, o rei-trovador.

Das histórias que me foram contadas nas bibliotecas de Lisboa, a lenda de amor protagonizada por uma bela jovem, uma vida à espera do amado perdido na guerra, era a que mais me encantava. Linda, a Velha porque envelheceu alimentando esperanças no seu amor, sem perder sua beleza jamais.