Mais temperança!

Chega-me, pelas redes sociais, mensagem de seguidor da filosofia espírita, pedindo oração conjunta em favor de Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, para que acerte no traço do caminho que pretende apresentar aos brasileiros.

Homem de fé, solidário, certo de que a virtude teologal da caridade conduz ao amor de Deus e ao nosso semelhante, não me neguei a atender ao que me pedia o desconhecido, mas fiz, em favor do Brasil, preocupado que ando com o descomedimento de seus meninos, que bem revelam o berço em que foram embalados.

Se bem entendem os eleitores, devem concluir que o homem é mesmo senhor do que pensa e escravo do que fala. Sempre exaltado, o Presidente interrompe entrevistas quando se vê acuado por seu discurso e clama aos jornalistas que tratem de buscar por quem disse o dito que o compromete tanto e deixa seu governo atabalhoado.

Difícil. Rodeado de assessores, parece não haver voz capaz de lembrar que, hoje, sua principal função é representar o Brasil e os brasileiros, no mundo todo, não os que os elegeram e podem concordar inteiramente com ele, mas também aqueles, quase em igual quantidade, que não concordam, mas o têm respeitado até aqui.

Preocupa-me muito a imagem no exterior. Digo isso, porque fiz, por mais de vinte anos, parte deste trabalho de representação e sei o peso disso. Mais ainda, conheço o quanto as cooperações, em países em desenvolvimento, especialmente, são bem-vindas e necessárias. A quantidade de retaliações criadas neste menos de um ano de governo, as deselegâncias cometidas, o palavrório contra tudo e todos que têm ideias e ações distintas, trarão, a meu ver, consequências sérias. Revelam despreparo, falta de assessoramento, de companhia de gente preparada para a função.

Na recente visita a China, por exemplo, obrigou-se a rever o que dissera antes, em declarações suas, quando estava inteiramente ligado ao pensamento do líder norte-americano a quem devota admiração e apreço fraternos.

Recebido com honras, Jair Bolsonaro teve do presidente Xi Jiping no grande Salão do Povo, ao lado do Mausoléu de Mao Tsé Tung, cerimônia majestosa, hospitalidade e simpatia, mas pôde sentir que os discursos a ele dirigidos tinham, na verdade, o objetivo claro de introduzi-lo no ritual da diplomacia chinesa. Por mais que insistisse na mudança que vem fazendo de refundar as relações com a potência oriental, foi obrigado a saber que o país anfitrião quer prosseguir na rota aberta 45 anos atrás nas relações com o Brasil.

Tive a honra de trabalhar com o embaixador Roberto Abdenur, um dos mais ilustres diplomatas que conheci, e representante do Brasil em Pequim, com trabalho dignificante, permitindo prosperar ainda mais esta propalada relação entre os dois países. Falta, no entanto, a inteligência brilhante do grande diplomata, hoje, aposentado, iluminando o Itamaraty e oferecendo ao governo assessoria que, por certo, traria benefícios indiscutíveis no campo do relacionamento internacional, principalmente se mantida a relação herdada dos antecessores do atual presidente.

Bom seria recomendar prudência aos filhos, experimentar do mesmo alimento e permitir ao Brasil romper limitações políticas, sociais e ecológicas em benefício do povo. Talvez nos libertássemos da violência crescente e alcançaríamos o patamar desejado.