Malucos pela água – 25 anos depois

Em plena ditadura militar nos anos de 1980, um grupo cruzou a cidade com um caixão e enterrou o rio Piracicaba, que poluído pela falta de tratamento de esgoto na bacia também sofria pela diminuição de sua vazão, porque parte de suas águas foi desviada pelo recém-implantado Sistema Cantareira para abastecer a capital paulista. Até hoje esse ‘furto qualificado’ não desce pelas gargantas de muitos caipiras sem noção, que não admitem que mexam no que há de mais sagrado para eles, o rio. O prefeito à época era João Herrmann Neto, que nunca poupou palavras sobre o assunto e tentou tirar o título de Cidadão Piracicabano que foi dado ao engenheiro da obra.

Sem água e comprometido com o restilo vindo das usinas, o rio agonizava com mortandades e, muitas vezes, suas águas se cobriam de espuma. Pesquisadores, professores, políticos e a sociedade civil entenderam que era a hora do basta, era preciso resistir pelo rio, pela cidade e por sua tradição. Piracicaba foi berço para o nascimento do primeiro comitê de bacias do país, que podia ter morrido no parto se não fosse o empenho do Antonio Carlos de Mendes Thame para garantir a primeira fonte de renda para o trabalho que o comitê se propunha: tratar esgotos, proteger mananciais, melhorar a qualidade da água e também sua quantidade na região. Foi dele a ideia de usar recursos cobrados das empresas hidrelétricas para criar um fundo estadual que financiaria as ações do comitê. Era um começo, tímido e também ambicioso para uma região que sofre por falta de água, ainda que parte de seus 5,5 milhões de habitantes não entenda isso. Não, não há água sobrando, ao contrário, ela está cada vez mais escassa apesar do trabalho de técnicos, políticos, ambientalistas e formadores de opinião.

Hoje, 25 anos depois, ainda pouca gente sabe o que é o Comitê PCJ e menos ainda de seu parceiro federal, criado há 15 anos e subparceiros. Mas, isso realmente não importa porque o que é relevante é o aumento do tratamento de esgoto nessa região, as centenas de projetos implantados com recursos da cobrança pelo uso da água, a melhoria da qualidade da água em muitos rios e riachos, inclusive o Piracicaba.

Tem muita história nesses 25 anos e não foram só amor. Teve muita briga com a Região Metropolitana de São Paulo, teve debate, teve negociação, estudos de situação, teses, dissertações, Carioba 2, renovação de outorga, manifestações e, sim, tivemos mudanças e avanços. Só ‘malucos pela água’ sabem da importância do que é feito pelos Comitê PCJ estadual, federal, com apoio do Consórcio PCJ e outros colegiados. Acho que basta dizer que ‘eles trabalham para que qualquer um possa abrir a torneira e receber água de boa qualidade e em quantidade suficiente para se viver’. E acho que isso não é pouco!

(Alessandra Morgado)