Mãos dadas

David Chagas

O que guarda o poema?

Nos bons poemas, motivo para entender a mim e ao mundo, a razão do instante, o complemento bom da vida.

Dia de chuva, pingando pena e tédio, choverando. Debruçado sobre Ribeiro Couto e Raul de Leoni paro de rondar à sombra de mim mesmo. Passada a busca desmedida para entender o que impõe o mistério, trato de ajeitar no peito um ramo de açucenas e, nelas, o cheiro e o toque provocando lembranças.

Em A Sagração dos Ossos, Ivan Junqueira afirma: “ será o poema/ essa estranha trama/ de penumbra e flama; que a boca blasfema?// Que será, se há lama/ no que escreve a pena/ ou lhe aflora à cena/ o excesso de um drama?// Que será o poema: uma voz que clama?/ uma luz que emana? Ou a dor que algema?”

Que será o poema? Pois tive um amigo que afirmava: só mesmo um poema pode ajudar a suportar a variação de humor entre um dia e outro permitindo administrar as diferenças que a vida impõe. Além disso, ao redor, o mundo, intolerante e mau, perturba.

Hoje, chateado que andava, sem açucenas para fazer ramo. Obriguei-me à rotina de estar com médico, numa parte de dia chuvoso e desassossegado, esperando resposta para noite mal dormida. O incômodo deixou como herança, saliva insistente em fazer a boca saber do amargo da alma tecido de preocupações e medos diversos.

Logo hoje, pensei comigo, quando tenho que escrever. Procurei recomendar-me a mim mesmo lida cuidadosa com as palavras para deixar ao leitor a impressão de texto sem avesso permitindo separar o “eu” que passeia pelo texto do escrevinhador, a voz que dita, dele próprio.

Claro está que há, no que se escreve alguma revelação, algo seu. Sou do mundo, estou no mundo e não posso negar dele as experiências em mim refletidas. Há momentos, bem sei, de repulsa, asco. O invólucro acabado, resistente, aparentemente forte, engana quando não revela a fragilidade interior, a história acumulada.

À sala de espera do médico, mistura de sentimentos, sensações diversas, tudo atormentava. O tempo passando, não reduzia a expectativa, aumentando com isso o estado de grande confusão instalada.

Ao ouvir meu nome, adentro a sala da esperança. Vou até ele e na forma como me recebe, saudando-me com boa ventura, posso entender o sentimento de amor, nem sempre manifesto no sacerdócio que a profissão exige. À sua frente, senti-me um girassol em dia chuvoso e sem sol, à procura de luz, voltando-se, então, para outro girassol com luz bastante para indicar o caminho.

As aflições tamanhas cederam, na conversa tão simples, tão fácil, lugar a uma felicidade certa. Fizera aquilo de modo tão natural, vestido de médico, mas humano no ser, capaz de entregar-me ao coração e à alma um ramo de felicidade. Na despedida, nenhum abraço. Um sorriso e uma palavra rápida, que soou como um credo: estou para curar!

Aliviado de tudo, levei do seu olhar a flor amarela que resiste, aquela mesma que se esconde por trás da montanha. Dentro da flor amarela, o menino.

Desfez as metáforas? Qual flor, qual menino? Aquele que na cor e na luz soube trazer mais do que esperança, paz.