Medalhas olímpicas premiam persistência de Diogo Soares

medalhas Daniel Biscalchin convenceu o atleta a não parar de lutar pelo sonho, que virou realidade na Argentina. ( Foto: Líder Esportes)

O relógio desperta às 6h20 e Diogo Soares se levanta para tomar café antes de ir para a escola. A rotina do adolescente, que completará 17 anos em abril, é quase sempre assim: às 7h ele está na E.E. João Guidotti, onde cursará o segundo ano do ensino médio em 2019. A aula termina às 12h20 e ele volta para casa. O almoço é rápido e, às 13h30, Diogo sai do bairro Maracanã, onde vive com a família na cidade de Piracicaba (SP), rumo à Vila Rezende, mais precisamente à Academia Pira Olímpica. Lá, quem o espera é Daniel Biscalchin, treinador e principal responsável pela manutenção de um sonho que Diogo começou a alimentar aos 4 anos de idade, quando iniciou na ginástica artística.

Na academia, são quatro ou cinco horas de treinamento antes de voltar para casa. A rotina na parte final do dia inclui um breve período de lazer: após o jantar e de banho tomado, Diogo gosta de jogar vídeo game, quase sempre GTA, seu jogo favorito. Logo depois, às 23h, é hora de dormir. No início da semana, porém, o jovem piracicabano teve de mudar o roteiro. Após escrever o nome na história do esporte brasileiro ao conquistar duas medalhas inéditas nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Buenos Aires, ele foi homenageado pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil) no Prêmio Brasil Olímpico, no Rio de Janeiro.

‘Meu técnico arrumou várias formas de me fazer enxergar que eu não poderia jogar o sonho fora. E ele conseguiu’

O bronze individual geral, somando 80.265 pontos, e a prata na barra fixa, com a nota de 13.266 pontos, medalhas conquistadas por Diogo na Argentina, abriram portas para realizar o sonho do pai, Dorival: eles viajaram de avião para o Rio. “A minha maior felicidade foi saber que meu pai estava comigo, me acompanhando e me dando apoio a toda hora. Ele realizou o sonho dele, que era viajar de avião, e deu para ver a felicidade dele em todos os momentos”, contou. Antes do embarque, Diogo e Biscalchin receberam a reportagem na Pira Olímpica. Na ocasião, eles também falaram sobre sonhos: aqueles que já foram alcançados e os que tentarão alcançar nos próximos anos. Confira:

 Vocês imaginavam conquistar o que conquistaram em 2018?
Biscalchin: Em termos de resultado, foi o ano mais produtivo que nós já tivemos, foi muito acima da expectativa. Nós participamos em 2018 de quatro campeonatos internacionais e ganhamos medalhas em todos eles. Na Olimpíada da Juventude, nós sonhávamos com a participação, mas trouxemos duas medalhas inéditas para o país. Sinceramente, foi muito além do imaginado.

Já caiu a ficha do que você conseguiu em Buenos Aires, Diogo?
Diogo: Agora está começando a cair a ficha, mas bem devagar. Na hora ou mesmo uma semana depois, eu ainda não tinha percebido o que tinha feito. Mas isso não significa que vai aumentar a pressão, porque eu estou acostumado a enfrentar dificuldades. Em todas as competições que fui, sempre fui com a cabeça pensando em acertar a minha série. Venho para a academia com essa mentalidade de treinar bastante e agora vai continuar praticamente a mesma coisa: treinar muito, ir com a série melhor preparada possível e acertar.

 Muito se falou após as medalhas em Buenos Aires da estrutura que vocês têm para treinar em Piracicaba, inclusive sobre os aparelhos rasgados. O que, efetivamente, melhorou após a Olimpíada?
Biscalchin: De concreto, ainda não mudou nada. Especula-se que nós vamos receber uma ajuda da CBG (Confederação Brasileira de Ginástica) com aparelhagem e eu estou esperançoso, mas não sei quando e quantos aparelhos virão. Tive uma conversa sobre isso, mas não sei de mais detalhes. Nós não queremos sair de Piracicaba, mas precisamos de investimento para dar continuidade ao trabalho.

 E em relação ao reconhecimento das pessoas, Diogo? Recebeu alguma proposta de apoio ou patrocínio?
Diogo: Ainda não, ninguém nos procurou, mas penso que isso é porque muitas pessoas não sabem a importância do que conseguimos, falta ter a noção do que significa a primeira medalha do Brasil. Agora, do ponto de vista de reconhecimento das pessoas, foi bem maior do que eu esperava. Depois que consegui a medalha, pensei: ‘Vou receber algumas mensagens de parabéns’. Mas foi muita gente, de muitas formas boas, por mensagens e vídeos. É algo que me incentivou demais, muito mesmo. Eu continuo acreditando que posso alcançar os meus objetivos

‘Teve uma vez que falei para o pai dele: ‘Dorival, não aguento mais essa situação. Leva embora esse moleque (risos)’

Após a Olimpíada, o Diogo quebrou recordes no Brasileiro e nos Jogos Abertos. Como manter a motivação em evento de nível reduzido?
Biscalchin: Nunca escondemos que o foco em 2018 foi voltado para as Olimpíadas e o nosso planejamento foi feito em torno disso, o que atingimos com excelência. No Brasileiro, nós não fomos com o objetivo de vencer. Reduzimos os treinamentos e as séries, mas, uma vez que ele treinou, tem que fazer o que melhor pode. Ganhar é uma consequência. No entanto, somos muito competitivos e nos classificamos nas seis finais. Depois, fomos mentalizando prova a prova para ganhar, e acabamos vencendo todas. Não recordo de um atleta ter vencido em todos os aparelhos. Nos Jogos Abertos, é um evento importante para a cidade e nós gostamos de participar e representar Piracicaba. As séries são bem diferentes e obrigatórias, não são livres. É muito abaixo, por exemplo, do que ele fez nas séries livres. Por um lado, nivela a disputa por baixo, mas, por outro, desenvolve o esporte. O risco de errar existe sempre, e o Diogo chegou em cima da hora. Felizmente, vencemos também nos seis aparelhos e mais o título individual geral.

 Nos Jogos Abertos, aliás, o Diogo foi bastante procurado pelo público para tirar fotos e dar autógrafos. Como foi essa experiência?
Diogo: Foi diferente (risos). Nunca fui recebido assim, muitas pessoas me falaram parabéns. Antes da medalha na Olimpíada, eu estava acostumado a ganhar os Jogos Abertos e as pessoas parabenizavam, também, mas isso aumentou muito, foi bem legal. Busco me espelhar em atletas que chegaram longe e participaram de Jogos Olímpicos, como Diego Hypólito, Arthur Nory ou Arthur Zanetti. São referências. Eu quero melhorar a minha ginástica e fazer mais pontos do que fiz neste ano. Mas, neste momento, eu não estou pensando muito nisso. Sei que tenho que melhorar minha cabeça enquanto atleta.

Você tem 16 anos apenas e está na ginástica desde quando tinha 4. É muito difícil ser atleta de alto rendimento com essa idade, mantendo o foco o tempo todo?
Diogo: Não acho difícil, pois eu quero isso. Deixar de comer alguma coisa ou não sair, não muda muito. Prefiro ganhar a medalha do que isso. Teve uma época que eu pensei em desistir, mas o meu treinador não deixou (risos). Foi a pessoa pela qual eu não parei. Ele ‘brigava’ e me incentivava todos os dias. Brigava pelo meu melhor. Meu técnico arrumou várias formas de me fazer enxergar que eu não poderia jogar esse sonho fora. E ele conseguiu. Foi um período longo, muito sofrido para ele. Eu estava desanimado, tinha preguiça de treinar, mesmo ganhando os campeonatos. Queria fazer algum curso, trabalhar para ter meu dinheiro. Além disso, tem que considerar o tempo de ginástica. Comecei aos 4 anos, estava enjoando. Graças a Deus, cresci e minha cabeça mudou.

Nessa época, como foi a relação entre o treinador e a família do atleta?
Biscalchin: A pessoa que eu tenho mais contato é com o pai dele, que sempre quer saber se ele está treinando bem ou não, pergunta se aconteceu algo no treino quando ele chega ‘emburrado’ em casa. A relação com a família é muito boa e eles apoiam sempre. Na época que ele quis parar, abri o jogo para o pai dele: ‘Não sei mais o que faço com esse menino, tentei mudar o treino dele mil vezes, e não conseguia motivar’. Teve uma vez que falei: ‘Dorival, não aguento mais. Leva embora esse moleque (risos)’. Isso foi entre 2013 e 2014. Era muito difícil, abria mão de muita coisa para ouvir: ‘Não estou com vontade’. Eu fazia tudo por ele, só que não podia treinar por ele. Se pudesse, faria.

A persistência valeu a pena.
Biscalchin: As medalhas olímpicas foram uma realização para mim. Tive o reconhecimento do pessoal que acompanha o trabalho: árbitros, técnicos de outros países, treinadores… todos me parabenizaram. Lembro que fiquei 40 minutos sem olhar o celular e, quando vi, tinha 580 mensagens (risos). Nos Jogos Abertos, por exemplo, foi anunciado para os torcedores a nossa presença. A repercussão da medalha foi importante. A única coisa que me deixou um pouco chateado é que, no meio da ginástica, algumas pessoas que poderiam nos incentivar com um gesto, não o fizeram. Mas, é como sempre falei, tudo que construímos, foi sem depender dessas pessoas e não é agora que isso vai mudar.

E agora, 2019. Qual será o planejamento?
Biscalchin: Será o ano do primeiro Mundial Juvenil, que acontecerá em junho, na Hungria. É o nosso foco principal. Aí, claro, temos as competições anuais de sempre e, em 2019, nós pretendemos colocar o Diogo para competir no adulto. É o ano da transição para ele. O Diogo faz 17 anos em abril e nós não quisemos queimar cartucho antes. Será importante para testá-lo. O ciclo olímpico dele é pensando em 2024, sem dúvida alguma.

(Líder Esportes)