Melhores amigos

 

Em um passeio pelas ruas de Edimburgo, na Escócia, na semana passada, eu me deparei com uma estátua de metal que representa um cachorrinho. Cheguei próximo a ele e vi que seu focinho estava desgastado, mais brilhante que o resto do corpo. Meu amigo me explicou que era porque todos os turistas que passam por ali colocam a mão e os dedos no focinho do bichinho. “É para dar sorte para os seus cachorrinhos”, disse meu amigo. Atrás da imagem, em um pub ao lado, havia a explicação sobre aquela homenagem para mim inusitada, mas muito comum há mais de 100 anos entre os escoceses.

 

Bobby era um cãozinho da raça Skye Terrier, que viveu na Escócia no século 19. Ele conheceu o policial John Gray, que trabalhava como vigia noturno. Este, afeiçoou-se ao cão e o adotou. A dupla foi inseparável durante dois anos de longas jornadas madrugada adentro. Um fazia companhia para o outro. Esquentavam-se nas noites frias e compartilhavam a ceia e o cobertor. Qualquer barulhinho que ouvia Bobby latia e John iluminava para ver o que era. “É só uma raposa, seu bobo, volte a dormir”, dizia o velho policial.

 

Em 1958, John ficou doente e morreu de tuberculose. O policial foi enterrado no cemitério Greyfriars Kirkyard, em Edimburgo. Durante o cortejo até o cemitério, Bobby acompanhou o velho amigo. Logo após o enterro, o cãozinho se aproximou do túmulo e lá ficou. Quem trabalhava no cemitério até tentou expulsá-lo, mas ele sempre voltava. Jardineiros, coveiros, administradores… não havia quem tirasse Bobby dali.

 

Durante os anos que se passaram, Bobby ficou sobre a cova de seu dono. Mesmo em condições de tempo terríveis, com tempestades ou nevascas, Bobby permaneceu lá. É claro que nesse tempo não houvesse quem não sentisse compaixão com o pobre canino.

 

As leis da Escócia não permitiam que um cãozinho ficasse solto por aí e as autoridades queriam sacrificá-lo. Sensibilizado, Sir William Chambers, um figura importante da capital escocesa, renovou a licença do cão, que ficou sob responsabilidade da Câmara Municipal da cidade pelo tempo que lhe restava.

 

Foram 14 anos de intensa vigília de Bobby no cemitério de Edimburgo até sua morte, em 1872. Ele não pôde ser enterrado no cemitério junto com seu dono, mas o colocaram perto do portão da igreja, a 70 metros do local, para ficar mais próximo possível do corpo de John.

 

Um ano após a morte de Bobby, que já era famoso por sua dedicação total a John, a baronesa Lady Burdett-Coutts mandou erguer a estátua, esta que encostei no focinho, no cruzamento das ruas Candlemaker Row e Greyfriars, próxima ao local em que foi enterrado o cão e seu dono.

 

A antiga história, que mais parece uma lenda, não é tão diferente do que é narrado nos dias de hoje. Basta pesquisar nos noticiários e há um monte de notícias parecidas. Capitán, por exemplo, é um cachorro que ficou 11 anos visitando o túmulo de seu dono em Córdoba, na Argentina.

 

Na Itália, na pequena cidade Marliana, na Toscana, o gato Toldo faz a mesma coisa depois que seu tutor morreu. Em Várzea Grande, em Cuiabá, um cavalo visita o cemitério para ficar próximo do corpo de seu companheiro humano, que lhe foi amigo até os últimos dias. Até Sully, cãozinho de George Bush, ex-presidente americano que morreu em 2018, ficou ao lado do caixão do dono durante todo o velório de seu velho amigo.

 

Essas histórias comovem e nos deixam emocionados. Muitas vezes não damos valor às relações que temos com nossos próprios bichos, sem saber que eles sentem, e muito, tudo o que fazemos para eles. Os cães — ou gatos, cavalos, ratinhos — às vezes nos mostram mais “humanidade” do que nós, humanos. Já reparou?