Minha pátria é como se não fosse…

 

David Chagas

Os últimos anos parecem ter destruído minha pátria. Se assim não foi, serviram ao menos para dar sentido novo aos versos do poeta de que me valho para abrir a crônica. A pátria não é a que conheci um dia fazendo festa em meu coração. Nem da que tive imensa saudade no exílio. O que fizeram dela, meu Deus?

A beleza é a mesma. O céu, um bordado de estrelas. A Cruz do Sul indicando caminhos e as três Marias, juntas, observando a lua desfraldada. A terra, de aromas, cheia. As várzeas e os campos carregados de flores. O rio secular, como ensinou o poeta, a beber nuvem, comer terra e urinar mar. Agora, a pátria, desolação, destruição arrasadora, descaso, desamparo, abandono, fome, miséria.

Quem destituiu os filhos deste solo das virtudes e lhes privou da cordialidade característica? Nesta época de eleição a velhacaria é visível não só nos candidatos. Em muitos que se somam a eles. Por quê? Para se agarrar aos cornos da vaca profana e lambuzar-se de seu leite.

Triste realidade. Interessante observar que ninguém protesta contra a equivocada distribuição do que é de todos. A maioria do staff nos gabinetes não atende a requisitos básicos. Mas se alinha às campanhas para estabelecer a troca. Vergonhoso. Do mais alto escalão da República ao município mais insignificante, se tece a teia.

Por estas e outras tantas razões, o desalento toma conta do país que melhor paga seus representantes como se fosse economia de primeiro mundo. São tantas as vantagens, tantos os direitos que, reduzidos, atenderiam milhares de outros brasileiros, trabalhadores muitos deles, em precária condição de vida. Sem falar nos milhões de desempregados e nos jovens, ansiosos por um primeiro emprego, partícipes da fileira dos desalentados.

Insisto em não fazer fila com eles. Chamam-me, no entanto. Sabem que também ando abatido com isso tudo. Jamais pude supor, velhice chegando, ver o país entrar em curva tão perigosa. Outros tantos países mais velhos que este e alguns mais novos, acelerando ao máximo, têm chegado ao pódio com tranquilidade, exibindo vitórias sucessivas em diferentes frentes de ação. E, ensina o poeta, o Brasil, a vaca profana, dona de divinas tetas, com seus cornos acima da manada, oferecendo leite bom para os caretas.

Por sorte, este croniqueiro contumaz, agradecido a tantos e tão bons leitores e àqueles que, por certo, não sendo adeptos de sua pena atrevida também dedicam instantes do café da manhã na leitura, vislumbra eleições livres que, espera, sejam decentes, e despertem para alguma alternância. Até quando nos obrigarão a conviver com esse conluio hereditário de transferir poder? Até quando os mesmos nomes, as mesmas caras, o mesmo séquito? Outubro guarda esperanças não pelos que estão na corrida, mas pelos que, poucos, bem sabemos, podem pôr ordem na turba.

Aqui, abancado, bem poderia oferecer crônica gostosa, texto despido de paletó e gravata, em camiseta jovial, valendo-me do azul do céu e do sol de inverno que promete. A boniteza da manhã e a passarada. O cair da tarde explodindo cor igual ao daquele quando Pedro, o primeiro imperador, já sabendo da ação de Leopoldina, gritou Independência.