Minha pátria, minha língua

Dia destes, prosseguindo nesta minha caminhada em favor do ensino, depois de ouvir o clamor de inúmeros professores primários por cursos, soube de mensagem de secretários municipais de Educação que diziam ser impossível oferecer formação continuada a seus professores porque o ano vai em curso e estas atividades são para período letivo que se inicia. Com porte imponente, informavam que suas atividades haviam sido programadas no início do ano. Agora, esperar pelo próximo.

Quanto desinteresse pela qualidade da Educação! Professor, li com atenção e cuidados muitos dos diversos pensadores modernos, conheci alguns deles, incomodou-me este comportamento dos senhores, no poder, distante do desejo de avançar. Por certo não sabem que escrever se limita com catar feijão, como bem ensina João Cabral de Melo Neto. Entenderão a metáfora?

Já terão ouvido Caetano Veloso celebrar a língua, em Língua, ou Gilberto Gil ensinar metáforas, em Metáfora, para dizer o inatingível? Bem avaliam a criação do aluno em confusões de prosódias, profusão de paródias? Gostarão do Pessoa, na pessoa, e da rosa, no Rosa? Terão clara percepção de que a língua portuguesa lhes é superior? Ou querem ver os Portugais morrerem à míngua?
O apoio ao trabalho do professor em sala jamais poderia estar atrelado a calendário escolar, porque o instrumento de que se vale para ensinar desde à alfabetização até o último ano do ensino médio é a língua portuguesa. Como privá-lo de informações sobre isso para um melhor desempenho nas diferentes frentes de trabalho pedagógico? Não lhe pode faltar conhecimento para o bom uso da língua portuguesa em seus mais diversos aspectos ou níveis em qualquer época do ano em especial no segundo semestre quando as relações entre diferentes professores de distintas turmas se intensificam em competência e precisão.

Devo reconhecer aqui experiência benfazeja de que participei com secretário municipal de Educação, que mantinha os professores sob orientação de leitura e discussão durante todo o ano, a partir de encontros semanais e presenciais. Estas conversas a respeito das ciências da linguagem e suas aplicações práticas no desenvolvimento pleno da leitura e da escrita eram prazerosas e trouxeram, por certo, resultados significativos entre os que se dispuseram a aplicá-los com rigor porque só é possível aprender bem o que é bem ensinado.

Como a responsabilidade recai sobre o professor de quem se espera competência e adequação é que defendo encontros assim para discutir prática de ensino para a Educação Fundamental em torno do Português. Conferências e palestras em seminários anuais podem ser muito significativas, mas não atendem às necessidades do dia a dia escolar, como formação contínua. Não resulta criticar a deficiência com que os alunos percorrem as séries sequenciais se lhes falta orientação devida. Menos ainda o professor, em especial os que se licenciaram nos últimos tempos. Antes, permitir que a grande maioria dos profissionais de Educação, começando pelos das séries iniciais da alfabetização, descobrissem a transformação imposta ao ensino da língua materna com apoio da moderna instrumentação oferecida pela linguística.

Só assim será possível entender que pátria e a língua se confundem.

(David Chagas)