Moradores temem perder a paz com comércio na Avenida Cruzeiro do Sul

Árvores entrelaçadas sobre a pista demarcam a entrada para o bucólico bairro de Nova Piracicaba. Ali, a vida parece passar devagar, em meio ao verde e à rica fauna. Perto do rio Piracicaba e da prefeitura, o bairro está no centro de uma polêmica. A Câmara aprovou um projeto de lei do prefeito Barjas Negri (PSDB), que transforma dois quarteirões da principal avenida do bairro estritamente residencial – a Cruzeiro do Sul – em área comercial. O trecho vai da rua Tico-Tico até Emílio Galdi. Esse projeto foi aprovado pela Câmara, em duas discussões. Moradores ameaçam entrar na Justiça para barrar a lei, pois temem perder a tranquilidade, que as ruas fiquem congestionadas, que se acumulem detritos e que a movimentação cause impactos ambientais e afugente os animais que convivem com os moradores. 
 
O bairro foi criado em 1972 e vendido em 1976. “É uma área em que o pessoal vem aqui para praticar esportes,caminhar, andar de patins e de bicicletas. Vem gente da cidade inteira. Com os comércios, vão acabar com a oportunidade de fazer esse tipo de atividade no bairro, que é muito traquilo”, informou o propagandista Denilson Rissato, 44.
 
“Aqui a gente se sente em um condomínio. O bairro é unido, tem muitas pessoas de idade. Tem uma fauna e flora ricas. O bairro foi feito para não ter nenhum tipo de comércio”, afirmou a professora Rosani Toledo, 53. No local, os moradores já avistaram capivara, lagarto, gavião, tucano, sagui, tartaruga, cágado, garças, biguá e uma infinidade de pássaros, atraídos pela tranquilidade e pela fartura de alimentos disponíveis na mancha verde que margeia os três quilômetros da avenida. É usada para eventos, treinamentos da equipe de ciclismo e aulas de direção de auto escolas.
 
Para o morador Serginho Setten, a liberação de comércio abre precedente para a permissão em outros trechos. “Não temos dúvidas que a paz vai acabar”, disse Setten. Segundo ele, a comissão de moradores vai se reunir semana que vem para decidir sobre ingresso de ação judicial para barrar a lei, se entrar em vigor.
 
Residente no bairro desde 1983, o aposentado Dorival José Maistro, 58, disse que o loteamento planejado com terreno mínimo de 300m2 tem diversas áreas verdes além de ruas sem saída e já estão previstos lotes comerciais na parte superior. “O corredor comercial só vai trazer sujeira, poluição, desgaste e espantar os bichos”, disse Maistro. A representante de vendas Eveline Blumer, 52, disse que o comércio aumentará o fluxo de pessoas em detrimento dos interesses dos moradores. 
 
Desde 2015, os moradores reivindicaram revitalização da pista de caminhada, mudança da ciclovia para a pista da avenida, instalar câmeras de monitoramento e base móvel da Guarda Municipal, análise fitossanitária das árvores, replantio, iluminação e manutenção do muro de arrimo às margens do rio para conter a erosão, informou Maistro.
 
O proprietário do Restaurante Dourados, José Carlos Camargo, 66, disse que é a favor do projeto porque está instalado no ponto há dez anos, gera 30 empregos e ainda não obteve o alvará de funcionamento. Pretende entrar na Justiça se a lei for derrubada. “Estou aqui há dez anos. Eu preciso do alvará”, disse Camargo. 
 
A prefeitura informou que o prefeito aguarda o autógrafo a ser enviado pela Câmara para sancionar o projeto e que aguardará o ingresso da ação dos moradores na Justiça para se manifestar após a citação. Técnicos da Sedema informaram que a iluminação do local está em dia. A pista de ciclovia e de caminhada atendem aos propósitos, mas equipes estarão no local para ver se há necessidade de plantio de mais árvores.