MTE avalia situação de segurança da empresa de Charqueada

MTE Em Charqueada, a sede da empresa está com todas suas atividades paralisadas. ( Foto: Claudinho Coradini /JP)

A Delegacia Regional de Piracicaba do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) encaminhou ontem a Charqueada dois auditores que passaram toda a manhã e metade de tarde fiscalizando a empresa Biocapital para averiguar as condições de segurança do trabalho da indústria. A chefe de fiscalização regional do MTE, Eloisa Zotarelli, disse que, nos próximos dias, os auditores deverão se posicionar sobre a necessidade ou não da aplicação de algum tipo de penalidade, que vai do auto de infração (multa) à interdição (parcial ou total da empresa). Três homens com idade entre 20 e 31 anos morreram na manhã de ontem numa explosão ocorrida no momento em que trabalhavam em um reator no interior da empresa. A Biocapital não funcionou ontem e a direção informou que não há prazo para que as atividades sejam retomadas.

O Sindicato dos Químicos de Americana e Região informou que a Biocapital, empresa com cerca de 60 funcionários, encontra-se em recuperação judicial e que já teve problemas com recolhimento de FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), atraso de pagamento de INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Um dia antes do acidente, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) multou a Biocapital em 32 mil Ufesps (Unidades Fiscais do Estado de São Paulo), equivalente a R$ 822,4 mil, em função da disposição inadequada de efluentes líquidos industriais. Foi a terceira penalidade pela mesma infração aplicada contra a empresa, cujas as operações foram iniciadas em 2006. Também na terça-feira, a Cetesb aplicou a segunda penalidade por emissão de odores, no valor de 600 Ufesps (R$ 15,4 mil).

A chefe de fiscalização da delegacia regional do MTE afirmou que o foco dos trabalhos dos auditores diz respeito às condições de segurança do trabalho, uma vez que as causas do acidente estão sendo apuradas por peritos do IC (Instituto de Criminalística) da Polícia Civil cujo resultado deverá ser entregue em 30 dias (prazo prorrogável por mais 30 dias). “Todas as vezes que ocorre um acidente, vamos fiscalizar a empresa com a intenção principal de evitar que aconteça novamente. Normalmente, um acidente como esse não é motivado por um fator apenas e, sim, pelo que chamamos de ‘árvore de causas’. Vamos procurar detectar quais foram”, destacou Eloisa.

A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) informou, por meio de assessoria de imprensa, que uma equipe de técnicos da agência de Piracicaba foi enviada ontem ao local e, ao chegar, constatou que a empresa estava com todas as atividades paralisadas, sem energia elétrica e todos os funcionários haviam sido dispensados. O Corpo de Bombeiros isolou a área do acidente e permanecia no rescaldo e no aguardo do resfriamento dos equipamentos.
O local permanecia isolado para trabalho da perícia. “Em relação aos aspectos ambientais, o acidente foi pontual, dentro da área de produção provida de contenção. Não houve derramamento de produto no solo ou emissão de gases passíveis de causarem poluição direta proveniente do evento ocorrido”, informou a assessoria de imprensa da companhia.

Familiares relatam a dor da perda dos parentes em explosão

No dia da tragédia que vitimou três trabalhadores na Biocapital, o engenheiro eletrecista Cláudio Bozzo chegou à empresa, por volta das 14h30, vindo de São Paulo, para buscar os pertences do filho, batizado com o mesmo nome. Um rapaz de 31 anos descrito pela amiga Juliana Bota como uma pessoa “maravilhosa e amorosa”, muito apegado às crianças e que sonhava em ser pai. “Trabalhamos juntos em Piracicaba e, quando ele veio morar em São Pedro, ficou um tempo na minha casa, até se estabilizar. Era com um irmão para mim e um filho para minha mãe. Eu tinha um filho de dois anos e ele foi como um pai para ele por um tempo. O sonho dele era ser pai”, contou ela.

Depois disso, Bozzo Júnior morou sozinho por um tempo em São Pedro e há três semanas havia se mudado para Charqueada. Juliana conhecia também Luís Gustavo dos Santos, 31, morador de São Pedro. “Era outra pessoa maravilhosa. Isso que revolta”. Ela afirmou que os dois faziam queixas relacionadas às condições de segurança do trabalho na empresa. O pai de Bozzo Júnior pensa em acionar judicialmente a empresa. “Não é norma terem vítimas por explosão. Alguma coisa aconteceu de errado”, afirmou o pai.

Santos foi enterrado ontem em São Pedro e Bozzo Júnior, em São Paulo. O corpo da terceira vítima, Higor Barros da Silva, 20, foi levado de avião para a cidade de Oricuri, em Pernambuco.

(Rodrigo Guadaguinin)