Mulher, mãe, professora e, agora, deputada

A mulher, mãe e professora Maria Izabel Azevedo Noronha, a Bebel, é a primeira deputada eleita por Piracicaba. Nas eleições deste ano ela obteve 87.169 votos, a maioria deles (22.944) na Capital.
A petista comemora uma votação pulverizada que atingiu 630 das 645 cidades paulistas Com um histórico de lutas frente a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) a piracicaba nascida no distrito de Ártemis, é filha do casal Maria Pereira Rocha e Manoel Azevedo Noronha e mãe de Maria Manoela Rocha Azevedo, de nove anos.
Nesta semana, a deputada eleita abriu um espaço na agenda e recebeu a reportagem do Jornal de Piracicaba para a coluna Persona, que você acompanha a seguir.

A senhora foi eleita com quase 90 mil votos nas eleições deste ano. Esta foi a primeira vez em que a senhora concorreu a um cargo no parlamento?

Foi a primeira vez e eu, sinceramente, não tinha isso como perspectiva na minha trajetória, pensava em terminar meu mandato na Apeoesp, que foi em 2017, e continuar estudando, eu queria fazer doutorado. Foi quando o ex-presidente Lula numa conversa, eu pensava em disputar a prefeitura de Águas (de São Pedro), em 2016. Era o que mais queria por causa do momento difícil do Partido dos Trabalhadores. Eu entendendo como criminalização do PT em si, eu acho que discutir os casos isolados é uma coisa, mas atribuir a todos eu achei uma criminalização muito pesada. Então eu entendi que sair candidata a alguma coisa em 2016, e o presidente Lula veio até mim e disse não. Está errado seu raciocínio, a Apeoesp é maior que Águas de São Pedro, quantos votos você tem lá? ele brincou comigo? Passou um tempo e eu desisti da minha candidatura à prefeitura e assinalei que sairia deputada, mas não sabia de federal ou estadual. Mais pra frente junto com meu grupo político da Apeoesp defini que fosse estadual até contrariando o presidente Lula, que achava um absurdo ter de ficar fazendo conta, e de fato tinha, esses votos eu teria sido eleita deputada federal. Mas não foi por medo do voto, de fato eu fiz essa opção de ser estadual porque a pauta é educacional e a minha categoria ela está toda aqui.

Olhando os números da sua votação, percebemos uma pulverização, sendo a maioria em São Paulo (22.944 votos), a senhora atribui esse reconhecimento a sua trajetória na Apeoesp?

Eu atingi 630 municípios, faltaram 15. Você tem quase 90% dos municípios, um voto que você teve foi um voto que chegou lá e não chegou de outra forma. Eu tive também os movimentos sociais e isso é importante dizer porque eu também fiz uma gestão na Apeoesp muito articulada com os movimentos sociais, entendo que a bandeira da educação não é só de professores, mas era dos alunos e era da sociedade geral. E os movimentos comprometidos com a escola pública de qualidades atrelaram também a minha campanha.

Nesta eleição, percebemos muito o anseio por renovação por parte dos eleitores. A senhora foi eleita e é um nome novo no parlamento e na atuação política efetivamente. Como a senhora encara essa realidade, é um desafio assumir uma cadeira na Assembleia neste momento em que a sociedade quer uma renovação política, a senhora se vê no dever de defender o PT? Como a senhora encara essa tarefa?

Eu acho que o PT apresentou, sobretudo, a minha proposta é muito articulada à educação com o desenvolvimento social e com o desenvolvimento econômico, se você muda pela juventude para que ela tenha mais formação e la vai dar rotatividade à economia porque essa juventude vai entrar mo mercado do trabalho, isso é importante de entender. Quando você pensa a educação só na sala de aula e eu também penso nela assim, eu consigo entender que as minhas propostas e quando você faz isso traz a educação para além dos muros da escola dizendo que lá tem de acontecer o ensino de qualidade porque lá fora tem de receber o melhor profissional para poder impulsionar a sociedade, ter emprego, ter mão de obra de qualidade, eu persigo este caminho há muito tempo, então quando você me pergunta se haverá um desafio, é uma desafio sim assumir o parlamento, mas não é diferente do que eu faço. A diferença é que agora eu faço parte de uma esfera de poder, que é o Legislativo, e na Apeoesp eu não fazia. Eu era um segmento da sociedade civil organizada representada pelos professores.

O governador eleito (João Doria) tem um histórico nada popular na educação devido algumas medidas que ele tentou implementar. A senhora pretende apresentar projetos que tentem reforçar a sua atuação e contrapor o governo?

Eu já tenho um pré anteprojeto, é uma ideia que faz embate com o projeto da Escola sem Partido. A pessoa pode perguntar: com tanta coisa para acontecer na escola, você vai apresentar esse anteprojeto? Sim esse projeto é determinante na conjuntura. Primeiro que eu considero o Escola sem Partido como assédio moral para cima dos professores, é uma categoria que vai ser perseguida, usando até os alunos para fazer essa perseguição, não é bom porque a autoridade do professor tem de ser confirmada, não duvidada e a liberdade de cátedra é um preceito constitucional tanto que o STF (Supremo Tribunal Federal), quando os estudantes colocaram aquela faixa nas universidades, foi taxativo na liberdade de expressão, pluralidade de ideias e concepção pedagógicas. Então esse é um projeto estrutural que você não pode deixar o Estado de São Paulo, por exemplo, o segundo maior parlamento, aprovar a Escola sem Partido, é verdade que a nossa força e os professores do Brasil, como um todo, nós conseguimos – de certa forma – engavetar, vai ter de começar na estaca zero lá no Congresso Nacional.

Dias depois da eleição, pessoas ligadas ao presidente eleito começaram a incentivar os alunos a gravar imagens dos professores em sala de aula. Como a senhora avaliou essa situação?

Uma irresponsabilidade, pode escrever porque é o que acho. Se ele entende que o professor tem de ser perseguido, ele deve entender que nenhuma profissão – inclusive o próprio presidente – não existe se não tiver o professor. A educação é a única bandeira que ultrapassa os partidos e para ele que disse querer unificar o Brasil a primeira medida dele é não fazer esse embate com a educação porque ele vai perder. Ele Perde porque nós somos formadores de opinião, por isso essa raiva contra os professores. Ele está com essa ideia de esquerdismo na cabeça. Você forma opinião até dizendo que passou um processo democrático e você vai lutar para melhorar o que aí está. Porque eu não acredito em um presidente eleito já com proposta pronta, você disputa uma proposta, você puxa essa proposta e os professores, eles têm essa disposição de fazer essa disputa com os professores , porque é isso, na minha opinião, pois ele chegou a incentivar que os alunos gravassem as aulas dos professores é muito ruim . Ele que fala tanto em autoridade, está desautorizando o professor, a pessoa mais querida entre os alunos e ele perde nesse debate, os alunos não vão obedecer a ele.

Passadas as eleições, olhando para a situação da esquerda no país, sobretudo a situação do PT, qual saldo a senhora tira dos fatos até este momento, desde a prisão do ex-presidente Lula, dos fatos envolvendo o partido, da sua campanha, que conclusão a senhora tira de tudo isso?

Eu considero que esse processo eleitoral desde a democratização do país, passa por ciclos. Se você observar que na década de 1980 o processo da Constituinte, nós lutamos muito para termos eleições diretas para presidente da República e até diretores de escola, foi uma luta empreendida por todos os movimentos sindicais e populares do país e foi vencedora, nós conseguimos a redemocratização, conseguimos as eleições diretas e quem foi que nós elegemos? Nós elegemos o Collor de Mello que se dizia o caçador de marajás e ele próprio era o marajá. E Aí acabou acontecendo que ele foi ‘impeachmado’ e depois veio um ciclo de governos de concepção neoliberal do Fernando Henrique Cardoso, um governo que reduziu muito o papel do estado e quem vem vencedor em seguida? O Partido dos Trabalhadores, que foi o que mais tempo ficou no poder por 13 anos. Eu considero golpe, pediram o impeachment porque a presidenta cometeu pedalas, analisem então o que o Temer (Michel) fez, analise o que os prefeitos fazem, então foi uma desculpa, a presidente Dilma foi tirada exatamente porque tinha que ser colocada em prática uma agenda ultraliberal incluindo a reforma trabalhista, tentou fazer a reforma da previdência, mas aí vieram os professores para cima e o funcionalismo público, depois a CUT (Central Única dos Trabalhadores) com a greve geral. Foram dois movimentos que conseguimos tirar da pauta a reforma da previdência e depois vem a criminalização do PT e da esquerda, eu acho que subestimou-se muito o Jair Bolsonaro e a agenda liberal que eu chamo de retrocesso, ela não foi escondida, ela foi assumida e esse projeto foi vencedor e leva a repensar a fazer com que a esquerda se una cada um com chapa, a união da esquerda será fundamental e deveria ter sido. Nós perdemos as eleições, isso é fato mas o saldo do Fernando Haddad que encaminhou a sua chapa no segundo turno com toda a pressão e criminalização dos movimentos sociais, o PT ainda sai fortalecido, ele foi para o segundo turno. Acredito muito na unidade da esquerda para fazer proposta para o Brasil. A gente vinha avançado, mas depois da história da goiabeira, da futura ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, o que vamos pensar no que vem por aí? Eu acredito até que há um problema no PSL do Jair Bolsonaro, ou eles se acertam ou eles se socam. O Mourão é que está dando as cartas, acho que ele vai ser o presidente da República (risos) porque ele vai dar as cartas pois é um governo militarizado. Ele foi eleito pela via direta, mas ao mesmo tempo se você olhar, a maioria dos cargos ficarão para os militares, incluindo a educação. Com a visão totalmente retrógrada então, qual é o futuro que eu espero da esquerda? É uma agenda para o Brasil de forma a disputar agenda proposta por um governo conservador e eu tenho certeza que a esquerda faz isso de forma muito responsável.

Durante a campanha a senhora percorreu vários municípios paulistas, quais foram as demandas apresentadas pelas pessoas, além das ligadas à educação?

A educação e saúde são as demandas centrais da sociedade, dos menos favorecidos, que é o que está pegando, moradia também devido ao recrudescimento do programa Minha casa Minha Vida, as pessoas estão sem opções de moradia. E eu quero lamentar a posição de Piracicaba quando retirou aquelas famílias de Ártemis, no acampamento Nelson Mandela, porque ali é uma área pública e será uma área que vai atender à inciativa privada. Isso mostrou a mão pesada do Executivo local, eu fiquei muito desapontada porque eu estive negociando com o Executivo.

Como será sua estrutura de trabalho nos próximos quatro anos? A senhora vai manter o escritório em Piracicaba?

Eu quero ter um conselho político, isso é importante para o mandato. Não vai ser um mandato pensado de cima para baixo, se você está falando em mandato popular tem de ser popular. Quero maior presença do público na Assembleia Legislativa isso que dá possibilidade de fazer com que os deputados se sensibilizem com as causas dos estudantes, dos trabalhadores, dos movimentos de moradia e também ter perfil de assessores que sejam mais suscetíveis a isso, não quero uma coisa muito burocratizada que fique só no gabinete e andar, fazer muitas audiências descentralizadas isso também traz o mandato para s populações, enfim tudo o que desenhei de possibilidades é o que eu espero.

O que o eleitor pode esperar do mandato da Bebel nos próximos quatro ano?

Eu sou muto transparente, então pode esperar muita transparência e sinceridade e também muita luta, eu sou muito aberta para a luta, faço qualquer coisa por uma causa , quando eu digo qualquer coisa, eu abro mão das minhas coisas pela coisa que estou defendendo. Quem foi professor sabe que eu faço isso, uma demonstração de como eu sou no discurso e na prática.