Muro da discórdia

Depois de uma década de discussões e processos, uma sentença de ação popular movida por 88 moradores foi favorável à derrubada do muro do Santa Rita, que tinha praticamente transformado o bairro num condomínio fechado. As informações estão na matéria de Rodrigo Guadagnim na página A 4. Esses moradores venceram todas as instâncias da Justiça e, ontem, foram abertas duas ruas que dão acesso ao bairro. Esse tipo de embate se tornou comum nas cidades, assim como Piracicaba, a cidade de Rio Claro vive a mesma questão com os bairros Porto Fino e Jardim Leblon, que recentemente decidiram que construiriam um muro separando o bairro e transformando-o num condomínio. A alegação dos moradores é de que terão mais segurança, mas nem todos gostaram da ideia.

A ideia de que podemos nos isolar do caos do mundo ou da cidade tem muito a ver com os tempos modernos, com muros altos, portões eletrônicos, câmeras, vigilância e muito medo. Não são poucos os empresários que contratam empresas especializadas para garantir a segurança do seu patrimônio, funcionários e até família.

Impossível não dizer que um bairro fechado também tem condições de restrigir o acesso de visitas indesejáveis, como usuários de drogas, moradores de rua, entregadores de folhetos. Contudo, nem todo mundo gosta de viver nessa redoma de perfeição, há pessoas que ainda dá valor ao contato com a vizinhança e à possibilidade de receber um vendedor à porta de casa, enfim de uma vida comum nos bairros da periferia de qualquer cidade. Já vivemos numa sociedade tão individualista e egóica que a convivência pode estar se tornando um fardo, porque para isso é necessário tempo, paciência e uma certa dose de desprendimento. Quem nasceu em bairro sabe bem que o vizinho sabe quase tudo de sua vida, nome dos filhos, participa das festas e divide até dificuldades.

Quando não se tem família por perto, os vizinhos podem se tornar amigos de toda a vida. Crianças estudam e crescem juntas e, depois, contam as histórias do que aprontaram na infância. Pelo menos era assim, com mais de 40 já não sei como vão funcionar as coisas no futuro, por que talvez nesse futuro logo ali a gente se lembre mais das imagens e vídeos que mandou por whatsapp.

(Alessandra Morgado)