Música como essência

Proponente do projeto Som Maior, que existe desde 2001 e nasceu em Piracicaba com o propósito de despertar em jovens o interesse pela música, a pianista, compositora, professora e arranjadora Regina Aparecida de Almeida Gomes é a entrevistada da seção Persona de hoje. Natural de Assis (SP), cidade onde morou até a adolescência e onde iniciou os estudos musicais, herdou do pai, o saxofonista e clarinetista João Augusto de Almeida, a aptidão e gosto pela arte dos sons, com influência de músicos da família dele, da mãe — a dona de casa Irene Barreiros de Almeida —, e dos sete irmãos. Com cinco anos de idade, Regina acompanhava a figura paterna nos ensaios da orquestra sinfônica da qual fazia parte. Ao sete, começou a estudar música pela linha clássica, no Conservatório Musical de Assis. Morando em São Paulo aos 17 anos de idade, passou a dedicar-se ao gênero popular. Estudou harmonia moderna e improvisação com o pianista, professor e arranjador Wilson Cúria, sendo convidada a lecionar na escola dele, onde permaneceu por mais de dez anos. Também cursou música com Amilton Godoy, no Clam (Centro Livre de Aprendizagem Musical), na ULM (Universidade Livre de Música), na Fapart (Faculdade Paulista de Arte) e na Berklee College Of Music. Em entrevista ao Jornal de Piracicaba, a pianista, que já realizou apresentações com diversos músicos, entre eles Ubaldo Versolato, Zeca Assunção e Chico Medori, não poupou palavras para deixar claro que seu maior apoiador, a base da carreira, foi o marido, o advogado e músico Uesli Teixeira Gomes, que morreu em 2 de janeiro de 2016. Foi com ele, inclusive, que ela idealizou o projeto Som Maior, realizado por meio de ação conjunta com instituições de ensino médio e superior (particulares e públicas), que selecionam monitores que acompanham os alunos inscritos para melhor aproveitamento das atividades desenvolvidas, como workshops, ministrados por experientes profissionais da área musical. Atualmente, participam do Som Maior estudantes de cerca de 35 escolas e faculdades de Piracicaba e região. Detalhes sobre esta iniciativa estão na sequência, junto de informações sobre a vida profissional de Regina, que, além de ser uma apaixonada declarada pela música, principalmente jazz, MPB, bossa nova, diz gostar muito de praia.
 
 
Como e quando chegou a Piracicaba?
 
Meu pai era de Porto Feliz, minha mãe, de Assis. Meu irmão mais velho, Lázaro Antônio de Almeida, veio primeiro para Piracicaba, era supervisor do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Depois, meu pai e, em seguida, o restante. Morei muitos anos em São Paulo, fui para lá aos 17 anos de idade, trabalhei, estudei e fiz minha vida. Todos da minha família, incluindo meus pais, meus irmãos, moram aqui em Piracicaba. Eu vim para cá há 20 anos, pois queria ficar perto da família e ter uma vida tranquila no interior. Já tinha me formado.
 
 
Quem foi o maior apoiador da sua carreira?
 
Meu marido, que me deu muita força. Ele foi o grande esteio da minha vida, me incentivou a continuar na área musical, pois sabia o quanto eu gostava. Ele também amava muito a música. Crescemos juntos, fizemos primário na mesma escola, éramos vizinhos. Na adolescência, começamos a namorar. Ele foi embora para São Paulo primeiro, depois eu fui. Casamos lá, mas antes disso ele já tocava muito bem violão, começou desde criança, mas não enveredou para apresentações. Ele era advogado. Enquanto eu fazia faculdade de música, ele fazia direito. Ele abriu um escritório e eu continuei no campo da música, mas ele, paralelamente, me ajudava. Fomos dirigentes de três lares escolas. Fiz muitos shows beneficentes por conta desses trabalhos sociais. Ele me deu base para eu fazer projetos como eu faço hoje. Isso também me deu conhecimento e contato com todos esses músicos famosos que tocavam comigo. Em todos os shows que eu fazia, meu marido era o suporte. Meu tudo. Tinha um ouvido muito bom, ótimo gosto musical. Meu marido morreu em 2 de janeiro de 2016. Foi internado no dia de Natal. Ele não queria morrer. Ele dizia: “não pare nunca com o Som Maior, é um trabalho lindo que está ajudando muitos jovens”.
 
 
Como se deu sua trajetória na música?
 
Eu já venho de uma família de músicos. O parceiro do Pixinguinha na música Tico-Tico no Fubá era primo da minha mãe. Meu irmão, João Marcos de Almeida, toca violão, tem uma orquestra de cordas em Piracicaba e dá workshop no meu projeto. Estudei com Paulo Artur Mendes Pupo Nogueira, conhecido por Paulinho Nogueira. Meu pai era músico em Assis, saxofonista, clarinetista, tocou com Booker Pittman, tinha uma orquestra de jazz chamada Jazz Guarani, que misturava jazz e música popular, e eu ia aos ensaios, ficava até de madrugada assistindo. Meu pai tocava muito bem, chorinho, samba. Está no DNA, é uma herança. Eu estudei música desde criança, 6 anos de idade, começando pelo erudito. Estudei piano. Fiz colegial e técnico de contabilidade juntos, à tarde estudava música. Quando fui para São Paulo, trabalhei em algumas empresas na área contábil. Trabalhei na Honda, quando a empresa fundou no país. Quando a Honda comprou o terreno em Sumaré (SP) para montar a fábrica, fazia oito anos que eu estava lá, mas queria continuar com a música. Mesmo trabalhando, nunca parei de estudar música. Pedi demissão da Honda, sai e me dediquei só à música. Tinha de ir atrás do meu ideal. Estudei em São Paulo nas melhores escolas e tive contato com os melhores profissionais de música do país e do mundo. Estudei com o Wilson Curia e, quando sai da Honda, um ano depois, à convite dele, já estava dando aulas na escola dele. Ele deu aula para os maiores profissionais de música. Conheci os maiores músicos internacionais em São Paulo que iam na escola fazer workshops. Tocava piano acústico com meu pai também, fazíamos show juntos. Se não fosse piano, eu não queria nada. Tocava dez horas por dia, até que fiz harmonia moderna da Berklee, pois já tinha base erudita, nos anos 80. Prestei vestibular com mais de 8 mil candidatos e entrei para a ULM (Universidade Livre de Música) quando montaram no Brasil como nível universitário, e hoje é a Faculdade Livre de Tom Jobim. Tom Jobim ficava conversando conosco no pátio. Depois de um ano, a instituição deixou de ser nível universitário e passou a ser livre, pois, logo depois, Jobim morreu. Então, prestei novamente o vestibular e fiz graduação na Faculdade Paulista de Artes.
 
 
Quais são seus projetos musicais?
 
Quando vim para Piracicaba, eu e meu irmão abrimos uma escola, chamada JR Music (João Marcos e Regina). Fechamos a escola com 85 alunos para poder me dedicar aos projetos, porque cheguei à conclusão que continuar dando aula de um por um eu não ia atingir meu objetivo, que era alcançar muito mais gente ao mesmo tempo. Só ia conseguir isso se eu abrangesse muito mais pessoas, tivesse nova visão. No ano de 1999, elaborei um projeto que chamava Bossa Brasil 500 anos, dedicado aos 500 anos do Brasil em 2000, com a cantora Claudia, que fez a peça Evita. Com ele, viajei muito, em Limeira, São Paulo, Campinas, Americana, Hortolândia. Depois que passou a data, ficou só Bossa Brasil. Ele era muito requisitado, contava a história do período da ditadura e da bossa nova. Montei o Som Maior em 2001, levando a ideia para a diretora de eventos do Sesc na época, que deu a maior força, amparo. Foi muito bem aceito por eles. No Por Trás da Canção, de 2006 a 2017, também com o apoio do MinC (Ministério da Cultura), apresentado em várias cidades, conto o que tem por trás da canção mesmo, cada um com um tema diferente. Ano passado, fizemos o show Conexão. O Stylish foi um projeto que fiz de 2006 a 2009, no Sesc, contando a moda da música. Fiz inúmeros shows com a cantora Claudia, Vania Bastos, Paula Moretti, Eliete Santos Almeida, Pa Moreno e muitos outros.
 
 
E como surgiu a ideia do Som Maior?
 
Depois do Bossa Brasil, eu falei para meu marido: ‘será que não está na hora de bolar um projeto que possa transmitir a necessidade do conhecimento para quem quer se dedicar à música?’ Eu tive a ideia, montei o projeto, escrevi, mandei para o Ministério da Cultura. Então, queríamos unificar a arte e a educação, em parceria com escolas através da diretoria de ensino, que coloca um convite na rede. Vamos nas escolas, elas mesmas fazem inscrições e mandam um monitor representante. A ideia da elaboração do projeto surge, também, da importância irrefutável das artes como alternativas às drogas, em tempos de tanta violência e que, muitas vezes, esse caminho passa a ser opção quase que irrecusável.
 
 
Quantas pessoas já participaram do projeto?
 
Em 17 anos, direto o auditório do Sesc ficava lotado. No Som Maior, no dia da apresentação, mais de 2 mil pessoas por ano. Agora que participam tocando, mais de 100, umas 120 pessoas por ano. Podemos dizer, por baixo, que mais de 3 mil pessoas participaram. Entre eles estão Zaíra, Os Republicados, Canaiera, Clavix e muitos. Sempre tem muitas revelações de talento. Isso é lindo. Muitos participam do Som Maior e, depois, fazem faculdade de música. Ajudo eles. É bem bacana.
 
 
Quais músicos que já passaram pelo Som Maior você destacaria por conta do renome?
 
Eumir Deodato, que mora nos Estados Unidos, ganhou dois Oscars e 17 grammys, participou do projeto em 2010, no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Ele é um dos maiores músicos do mundo. Também vieram Jair Rodrigues, Tom Zé, Pedro Mariano, filho de Elis Regina; Osmar Barutti, pianista do Jô Soares; maestro Nelson Ayres, Renato Loyola, baixista da Fafá de Belém; Ubaldo Versolato, que toca com Roberto Carlos; Chico Medori, baterista do Dominguinhos, Alexandre Cunha.
 
 
Qual a importância do projeto para os jovens?
 
A grande benfeitoria para os jovens é a interação que existe entre eles, principalmente entre escolas particulares e públicas. Um participa com o outro. Em tempos de tanto desamor, em que, no palco da vida, o show principal se apresenta através de atitudes desumanas e os trágicos acontecimentos passam a ser vistos de forma natural e corriqueira pelos protagonistas do espetáculo, levados pela ânsia do imediatismo, nada mais urgente e necessário que fazer eclodir os dons artísticos e naturais, despertando o senso da sensibilidade e da criação inerente do ser. Alguém que resolve aprender a tocar um instrumento musical, por exemplo, com uma boa assistência, é claro, se curva às exigências que o instrumento lhe impõe, tornando-se humilde, acessível e aberto para o aprendizado, pois o domínio se torna um desafio e, para vencê-lo, ele precisa usar áreas do cérebro que normalmente não seriam exercitadas. Entretanto, em nossa longa e larga experiência no campo artístico e em trabalhos culturais, sociais, junto aos jovens, nos fez entender e concluir que não adianta oferecermos oportunidades se não houver um trabalho de base e diretriz. Assim, elaboramos o projeto, que, acima de tudo, além de ativar o senso criativo e dar oportunidade ao participante em mostrar o seu talento, tem por objetivo oferecer, através das palestras, uma visão mais ampla e segura sobre qual caminho seguir com menos possibilidade de erros e fracassos.
 
 
Há novidades para o projeto neste ano?
 
Este ano, tive um problema, não tive condição física e emocional, por conta da morte de meu marido, de entrar com o projeto pela Lei Rouanet, mas estou recebendo apoio muito maior do Sesc e do Sesi, além de empresas patrocinadoras. É o único ano que não estamos fazendo por essa lei. Faremos o evento normalmente e, agora, vamos começar a elaborar o projeto deste ano. As inscrições começam em maio.
 
 
Qual a sua avaliação quanto à valorização da música no Brasil em relação ao exterior?
 
Em termos de criatividade, a música brasileira está em um patamar elevado no aspecto de conhecimento. Apesar de que, atualmente, o importante é o visual musical. Isso é triste. A criatividade, a sensibilidade, a forma como a música foi composta estão sendo deixadas de lado. É uma pena, porque o brasileiro é muito criativo, está junto com países do topo. O brasileiro tem uma forma rítmica de música que poucos no mundo têm. É muita pena se deixar morrer isso no brasileiro, de forma geral, levando em contato só a parte visual. Se formos ver em termos de jazz, ninguém ganha dos americanos. Já no erudito, a Europa está acima de tudo. Cada um dentro do seu campo musical.
 
 
E quanto ao desenvolvimento da música em Piracicaba?
 
De maneira muito satisfatória, por isso fiz campo aqui e fiquei na cidade. Piracicaba sempre foi muito musical e tem pessoas com conhecimento que transmitem isso para a população. É vista fora daqui como uma cidade elevada no campo musical. Isso é bem bacana. Há uma troca de interatividade de música. Piracicaba merece elogios.