Não chame o gerente!

Euclides fazia de tudo para conciliar os estudos com o seu ganha-pão. Era difícil pagar a faculdade sem fazer horas extras de fim de semana e trabalhar como garçom, quase sem folga, durante toda a semana em um restaurante de uma avenida bacanuda em uma grande cidade. Saía do curso às 13h e mal dava tempo de tomar um banho, vestir a camisa, pegar um ônibus e ir mastigando algo que encontrasse pelo caminho para iniciar o turno das 15h que se seguiria pelo menos meia-noite. Voltava para casa por volta das 2h e só tinha umas quatro horas de sono até acordar novamente para um novo e longo dia de estudo e trabalho.

Euclides era um profissional no que fazia, afinal, desde moleque já servia mesas da lanchonete do tio e aos poucos foi arrumando bicos aqui e ali até encontrar um fixo no tal restaurante bacanudo. Ele precisava vestir um uniforme que o descaracterizava totalmente e o diferenciava de todos os clientes que frequentavam o local, como que se isso demonstrasse que ele não pertencia de fato àquele universo. Seu salário mal dava para pagar um prato que toda aquela gente estava comendo sem culpa.

Diariamente, Euclides precisava lidar com um cliente especial, o Rei na Barriga. Um senhor que ia ao restaurante como se sentasse na sala da presidência. Ao chegar, esperava ser atendido de imediato. E se não fosse, logo soltaria aos berros: “não tem ninguém para atender nessa espelunca, não?”.

O Rei na Barriga nem era dos mais ricos da cidade, mas gastava quase tudo o que tinha naquele restaurante. Primeiro para impressionar a namorada, a Rainha do Baile, e depois para ele mesmo inflar seu ego com aquele gostinho de “quem manda sou eu”, maltratando tudo e todos.

Euclides via o Rei na Barriga chegar e logo lhe dava um frio na barriga. “O que deseja, senhor?”, atendeu-o prontamente. Folheando o menu tranquilamente, pediu uma filé mignon com uma porção de camarão para acompanhar. Além do melhor vinho da casa. “E rápido, meu estômago está roncando.”

Aquela quarta-feira era véspera de feriado e o restaurante estava cheio. Euclides andava para lá e para cá, equilibrando pratos entre os dedos e o antebraço, tentando fazer a corrida entre a cozinha e a mesa o mais rápido possível. O Rei na Barriga não esperou nem dez minutos e já começou a reclamar da demora: “oh amigão, tão matando a vaca?”, berrou feito um boi do fundo do restaurante.

Suando frio, Euclides ouviu a campainha da cozinha e, na velocidade de um trem-bala, caçou a bandeja e voou, literalmente, na mesa do “patrão”. No caminho, tirou um fino com a moça da limpeza, tropeçou e a taça de vinho caiu na barriga do Rei na Barriga. Os xingamentos eram ouvidos por toda a vizinhança, findando com a famosa frase: “eu quero falar com o gerente”.

O Rei na Barriga saiu satisfeito do restaurante com sua Rainha do Baile depois do combinado de que ele não pagaria aquele jantar. Ainda ganhou uma torta de limão de sobremesa e um licor de laranja. Nos fundos da cozinha, Euclides esperava seu patrão voltar, segurando o bonezinho com o nome da empresa Castelo do Mignon e a frase “Aqui quem manda é você” bordada no fronte. Para não perder o emprego, concordou em pagar a conta e não receber as gorjetas do dia.

A história de Euclides acontece todos os dias com pessoas que trabalham com atendimento a clientes, seja em um restaurante ou em uma loja de roupas. Aquele que “sempre tem razão”, muitas vezes não tem empatia em perceber o quão difícil pode ser a vida dessas pessoas. Apelam para os gerentes como quem tem o direito supremo de reclamar, esculachar o indivíduo só porque está pagando. Nem sempre é um dia bom para atender com um sorriso no rosto ou o cansaço pode o deixar menos cuidadoso.

Pense duas vezes antes de chamar o gerente. Melhor, pense três.