‘Não é sangue nos olhos, é o brilho no olhar’

O psicólogo mudou de vida e superou grave doença por meio da arte japonesa. (Líder Esporte)

O psicólogo paulistano Sady Carnot Nunes Neto, 66, pratica aikidô há 26 anos, a maior parte deles em Piracicaba. Antes de mudar-se para o interior, há mais de 20 anos, ele conheceu a arte marcial japonesa de forma ‘acidental’.  O olhar sereno e a fala mansa de Sady, que também atua como consultor de empresas, são características que ele não tinha no passado. Na vida agitada da capital, Sady era um homem nervoso, que vivia entre conflitos e disputas a qualquer custo. A história mudou quando um paciente chamado Herbert entrou em seu consultório.

“Ele disse que precisava fazer terapia, mas não tinha dinheiro para me pagar. Então, perguntei como poderíamos resolver a situação, quem sabe fazer uma troca. Ele disse que era faixa preta de aikidô e poderia me dar aula. Eu aceitei e perguntei onde ficava o dojo. A resposta foi a seguinte: ‘não tenho’. Aí ficou difícil (risos)”, brincou o psicólogo. As primeiras aulas aconteceram no carpete de um consultório que Sady tinha em São Paulo. Treinavam apenas ele e o paciente. Depois de algum tempo, eles conseguiram alugar um espaço para treinar, mas Herbert acabou sendo transferido para Fortaleza (CE).

“Eu fiquei sem saber onde treinar. Como eu não queria mais aquela vida maluca de São Paulo, eu vim para Piracicaba e comecei a praticar o aikidô na Escola Aiki Kaizen. Não parei mais”, contou Sady, que é nidan (segundo grau) e garante que não vai parar enquanto tiver energia para treinar. A única interrupção aconteceu há dois anos, por motivos de saúde. Sady teve uma septicemia, infecção grave do sangue que acontece quando uma infecção bacteriana consegue se espalhar pela circulação sanguínea, chegando a vários locais do corpo.

“Eu estava muito debilitado, perdi 16 kg de músculo em uma semana. Quando estava doente, o cheiro do tatame fazia falta. O aikidô me ajudou bastante no retorno, principalmente a desenvolver os músculos novamente. Claro que, aos 66 anos, demora um pouco mais. Você não imagina o que é cair no tatame sem músculo. Mas, eu insisti”, disse. “A arte para mim sempre foi disciplina, garra. Não é sangue nos olhos; é brilho no olhar. A esquiva e os movimentos circulares são coisas que levo para a vida. No dia a dia, encontro alguns problemas e sei me esquivar”, afirmou.

COMPORTAMENTO

A opção pelo aikidô ajudou Sady a deixar para trás o perfil competitivo, curiosamente, em uma arte marcial sem competição. “Fui absorvendo o conceito filosófico. Para mim, o aikidô é uma fonte de vida. O meu movimento é leve, mas o tombo é duro. Digo que quem aplica o golpe não é meu braço, é minha aura. Sinto a energia. Meu aikidô hoje é muito mais para derrubar do que para cair, pois, quando eu caio, precisa de um guincho para levantar (risos). Vou ao limite e o aikidô tem como característica compreender esses limites”, concluiu.

 

(Líder Esporte)