No dia da Consciência Negra, cidade ainda convive com casos de racismo

Guina relatou drama vivido nos Estados Unidos quando não recebeu atendimento médico por ser negro e turista (Crédito: Claudinho Coradini/JP)

Passados 131 anos do fim da escravidão, o racismo – principal herança do holocausto vivido pelos negros no Brasil –, ainda existe e insiste em assombrar a comunidade negra dentro e fora do país. Nos últimos dias, Piracicaba foi palco de duas situações que reforçam a existência do preconceito velado ou escrachado. Este último adjetivo é dado pelo bacharel em direito piracicabano, Agnaldo Benedito de Oliveira, conhecido como Guina.

Há um mês, durante viagem a Orlando, nos Estados Unidos, ele sentiu na pele o preconceito sofrido pelos negros e turistas no país de Donald Trump.

Guina contou que, junto com um amigo definido por ele como branco, mas com traços negros, procurou uma unidade médica devido a dores na coluna e uma crise de hipertensão, respectivamente.

Ao chegar na unidade médica, os dois aguardaram por uma hora e, após presenciarem pessoas brancas serem atendidas, foram informados por um atendente que eles não receberiam atendimento.

Ele contou que no governo do ex-presidente Barack Obama, foi instituído o Obamacare – serviço de atendimento médico que combinava o atendimento público com o privado. O sistema foi cancelado neste ano pelo republicano.

Guina disse que, mesmo com a disposição de pagar pelo atendimento, o serviço não foi prestado. “Meu amigo que já havia viajado disse que não sabia disso e que nunca precisou de atendimento médico nos Estados Unidos”, afirmou.

O bacharel, que também é presidente do Conselho de Documentação e Cultura Negra de Piracicaba e membro do Conepir (Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Piracicaba) falou que ele e o amigo viajaram para a Carolina do Sul, onde um outro colega brasileiro mora e então conseguiu atendimento médico.

Dentro e fora do país, as pessoas são vistas apenas pela cor da pele dela”, afirmou. Guina também lamentou a situação vivida pela adolescente de 14 anos que não pôde registrar um Boletim de Ocorrência após ser acusada de furto dentro de uma escola técnica de Piracicaba, porque o policial civil era amigo da acusada.

Em outra situação, que ganhou repercussão nas redes sociais, está a apresentação de uma drag queen que usou trajes da Ku Klux Klan durante performance em um evento da Parada LGBT de Piracicaba. “Essas coisas ocorrem, infelizmente, em um país com 54% da população negra, é um racismo escrachado”, destacou.

Para ele, as situações vivenciadas pelos negros, seja em Piracicaba ou nos Estados Unidos, mostram que o racismo sempre existiu e continua existindo.

IMPEDIMENTO

Na avaliação de Guina, o racismo no Brasil impede o crescimento do negro em qualquer área. “Você não vê negros ocupando cargos de destaques em multinacionais ou em outro setor financeiro no Brasil”, afirmou.

Ele contou que, para se formar em direito, foi preciso fazer em dez anos o curso que, leva cinco. “Eu precisava estudar um ano, trancar a matrícula, trabalhar outro ano, conseguir dinheiro e voltar no ano seguinte”, afirmou. “O sistema de cotas se equipara ao tempo de recesso quando o negro, após a abolição, ficou sem condições de estudar e trabalhar”, afirmou.

Beto Silva

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