Nossa relação com o tempo

A sensação da passagem do tempo, embora comum a todos, tem algo de misterioso, que cada um percebe de modo único.

Além do tempo cronológico, objetivo, existe sua percepção subjetiva, que é imensamente variável e relativa. Por exemplo, quando se desfruta de algo prazeroso, uma hora pode parecer um minuto, enquanto ao se experimentar um grande sofrimento, tem-se a impressão de que um minuto parece uma hora. Do mesmo modo, algo significativo e vivenciado com intensidade parece se perpetuar na vida de quem o experimentou.

Cada um utiliza o tempo de acordo com seu nível de consciência, expresso em necessidades e interesses, escolhas e prioridades. Desse modo, o tempo gasto para se enredar em um vício é o mesmo que pode ser investido na conquista de uma virtude.

Na relação das pessoas com o passado é comum ouvir-se a expressão: “no meu tempo…”, como se o seu tempo não fosse o agora. Muitas vezes o momento presente não é plenamente vivido por quem evoca excessivamente o passado ou se preocupa em demasia com o futuro. Nesses casos existe um deslocamento da atenção do presente, que é o único sobre o qual se pode atuar de modo transformador. A mágoa, assim considerada, é um reviver de acontecimentos emocionalmente desagradáveis, como a nostalgia é a recordação do que foi prazeroso e ficou para trás, na marcha inexorável dos dias. Entretanto, se ninguém pode mudar o passado, sempre é possível alterar o modo de vê-lo, pois existe a possibilidade de uma ressignificação, ao se fazer uma releitura, mais construtiva e libertadora, do que tenha sido vivenciado. Com relação ao futuro, a ansiedade e as preocupações excessivas são motivos de sofrimento e desgaste emocional e vital, que empobrecem a experiência humana de cada momento. Nossa realidade imediata é aqui e agora; é no momento onde estamos que, a partir da consciência, temos a possibilidade de agir, assumindo e enfrentando o que cada instante traz de ensinamento, experiência ou desafio.

No livro O Poder do Agora, seu autor Eckhart Tolle revela com muita clareza a importância de se viver plenamente cada momento e esclarece como essa vivência consciente tem um poder transformador e enriquecedor da vida.

Um modo adequado de se lidar com o tempo é usar a paciência, ou seja, a capacidade de esperar o momento certo de cada coisa ou situação. Não apenas esperar, mas saber como esperar; não uma expectativa indolente e passiva, mas um aguardar consciente, confiante e produtivo, como quem semeia boas sementes no solo da vida e sabe aguardar a época da colheita.

É importante ter-se consciência de que existem conquistas a longo prazo, que requerem muita paciência e perseverança, valores esses que podem e devem ser transmitidos às crianças e aos jovens, geralmente mais afoitos e ansiosos, principalmente na época atual em que predominam o imediatismo e a pressa. É importante lembrar que para as conquistas mais significativas da vida é preciso recomeçar muitas vezes, levantar-se após cada queda, perseverar no trabalho digno e superar os obstáculos e desafios inevitáveis. Tudo isso requer uma relação pacífica e saudável com o tempo, sem se acomodar nem postergar o que seja necessário realizar, mas também sem ansiedade excessiva, sem expectativas aflitivas, sem desalento diante dos primeiros insucessos, com a fé e a determinação de quem usa o tempo como aliado das melhores realizações.