Nossa Senhora do Plástico

Ave senhora dos pescadores alados.

Ali alojada entre as pedras, lacres de cerveja e canudos.

Tampas de refrigerante e sacos de mercados.

Bendita seja, oh magnífica figura.

Uma nova padroeira.

Muitos ajoelharam sobre aquela grandeza.

Outros rezaram pedindo o fim das auguras.

Nada a tirava de seu sono profundo.

O mar a cavava com sua maré furiosa.

Atolada naquela areia movediça.

Expelia dos pulmões o lixo do mundo.

Avistaram-na entre pedras e ondas.

A imagem de um ser iluminado.

Primeiro foi uma família de pescadores que a viu.

Logo chegaram os curiosos.

Eram tantos que nem cabiam na extensão da areia.

Alguns ajoelharam chorando .

Outros pediram que acontecesse um milagre.

Nada a tirava de seu encosto.

Enorme como nada visto antes.

Parecia estar em um sono profundo,

coberta pelas águas quentes do Atlântico

As ondas ao seu redor iam cavando-a ainda mais fundo.

A areia já quase a cobria pela metade.

Enquanto isso vinham os comentários,

alguns cheios de crenças,

outros mais afrontosos.

Há quem dizia que aquilo não era de Deus.

Outros viam com olhar de maravilha.

“Mas que coisa mais linda, parece uma miragem.”

Outros afirmavam que era preciso tocá-la ou até tirar partes dela.

“Dizem que cura!”

O sol já estava se pondo quando conseguiram tirá-la da água.

Aquela imagem refletia o último raio de sol daquele dia fatídico.

A multidão já havia cansado.

Quem rezara já havia partido.

Quem encheu os olhos de lágrimas ao ver aquele espécie divina pegou o caminho para casa.

Aquilo não era feito de ferro ou barro.

Tampouco tinha feições humanas.

Mas também não era nada de outro mundo.

Era o maior dos mamíferos.

Aquele que o fundo dos mares tem como lar.

Que reina nas águas dos oceanos.

Ali, morto entre o vai-e-vem da maré.

Os caiçaras foram os únicos que ali ainda acompanhavam a remoção daquele corpo.

Um deles afirma já ter visto-a viva naquela região há duas estações atrás.

Seu filho que o acompanhava, um garoto de sete pra oito anos, repetia para um repórter de televisão:

“Parecia uma Santa gigante, tinha um grande pedaço de plástico que a envolvia e brilhava muito.”

Assim, a chamaram de Nossa Senhora do Plástico Bolha.

Morta por seu próprio manto.