Notre Dame! Notre Dame!

A Catedral desta Senhora do meu coração revelava uma realidade medieval, contraponto necessário à imagem obscurantista de um período também bárbaro, que desde o século XVIII complementa de algum modo a modernidade.

Todas as vezes em que estive caminhando pelo átrio de sua Igreja, pude senti-la, Ela e o edifício em sua honra, em sua grandeza, no seu esplendor. Parecia estar à espera da Senhora que lhe dá nome, cujo rosto desconheço, mas imagino ao mesmo tempo soberana, bela, vestida de sol e de estrelas, ao mesmo tempo humilde, repetindo igual estribilho: “eis a escrava do Senhor” em quem tudo se cumpriu segundo Sua palavra! Ela e eu. Eu e ela. Comigo, os meus. Eu, revendo o já conhecido. Eles, descobrindo os segredos da Notre Dame que a tornavam única, mágica.

Ao saber a Igreja da Senhora de Paris (e do mundo!) em chamas, meu coração estremeceu como se fizesse ecoar outros tantos milhões de corações igualmente feridos. Nunca mais os vitrais concebidos à luz de estudos cromoterápicos para compor com outros detalhes, a Igreja instalada no coração da cidade.

A resposta dos franceses e do mundo à tragédia, veio célere. Em algumas horas e milhões de euros arrecadados para sua reconstrução! Quantos podem, nesta demonstração de generosidade, provar sua riqueza gesto de solidariedade aparente, em si, a marca do poder! Se bem me lembro de Marcel Mauss entendo que dar e receber é a fonte do comércio na sociedade. Inquestionável conclusão. Por certo muita vantagem fiscal para tanta magnanimidade.

Neste caso, embora me incomode a rápida movimentação em torno do terrível acontecimento, penso nas gerações futuras e me comprazo, porque terão, senão a mesma catedral que vi ao lado de minha irmã e meu pai e em outras tantas vezes em que estive em Paris, a oportunidade de saber como era e toda a história que guardara, agora destruída rapidamente num incêndio que feriu o mundo.

Se aplaudo esta arrecadação milionária em tão pouco tempo? Sim e não. Sim, pelo que já disse. Não, porque a fome e a miséria no mundo é tamanha e não vejo igual sentimento de pessoas, uma com as outras, na devassidão da miséria e da fome.

A tristeza que me abate ao ver destruída a Catedral de Notre Dame é incomensurável por sabê-la patrimônio da humanidade e ver engolido pelas chamas um período do passado revisto algumas vezes naquele espaço de cultura e fé, fazendo valorizar ainda mais sua riqueza.

Se o tempo me permitisse voltar para antes de segunda-feira à noite, talvez pudesse dissipar da memória este evento impressionante, este sentimento de perda que me invade. Em tão pouco espaço de tempo, engolidos séculos de história! Os vitrais, rosáceas perfeitas, do norte e do sul, as joias do século XIII, os quadros, um deles de 1220, as imagens, tudo agora fumaça, cinza, embaçando o que a memória guarda.

Nossa Senhora deixou-se queimar? Não. O que se queimou foi a herança secular dos construtores da Idade Média, presentes em nosso presente nesta imagem de tempo luminoso, arquitetura poderosa, elevada em altura onde uma luz contínua penetrava a nave, como se fora o olhar da Virgem ou a presença constante de Deus.