O calcanhar de aquiles da administração

Foto: Claudinho Coradini/JP Foto: Claudinho Coradini/JP

Edvaldo Brito, 49, separado, pai de Luiz Guilherme, 27, e Karina, 25, avô de três netas, nasceu no estado do Sergipe, mas escolheu viver em São Paulo. À frente da ONG (Organização Não-Governamental) Juntos Por Piracicaba, Brito conseguiu adesão de mais de 5.000 consumidores, de todas as classes sociais da cidade, em um abaixo-assinado que pede ações contra a falta de água e em relação às cobranças abusivas do Semae (Serviço municipal de Água e Esgoto). Temporão do casal de lavradores Leôncio Brito e Petronilia Brito – ela trabalhou na roça até os 75 anos de idade -, que teve seis filhos – cinco homens e uma mulher -, Brito saiu menino da casa dos pais. Chegou a morar seis meses no Mosteiro de São Bento, em Olinda, onde conheceu dom Hélder Câmara. Desde 1985, reside no Estado de São Paulo. Aos 15 anos mudou-se para Barra Bonita, começando sua vida profissional como faxineiro em uma empresa de ônibus e saiu, após oito anos, como gerente. Aos 21 anos, ele e outros jovens da estância turística se uniram para combater o que Brito chama de “máfia política” que atuava há muitos anos em Barra Bonita. Desde 2004, Brito mora em Piracicaba. Confira a entrevista.

Qual é o papel da ONG Movimento Juntos Por Piracicaba?

Nós criamos a ONG no final de dezembro do ano passado. A gente estava vendo o problema do Semae, da corrupção, da saúde, o desmando na cidade e falamos: vamos criar uma ONG contra a corrupção, vamos esquecer partido político, porque por meio de partido não se consegue nada. Criamos, eu e o Eliel Fraga, que é o vice-presidente, uma ONG para a gente ter voz. Formamos um grupo de empresários, inclusive o Eliel é empresário, que também já estão cansados desses desmandos todos. Pessoas da comunidade, lideres comunitários, perceberam a seriedade do negócio, e se juntaram a nós. Quando partimos para trabalhar, ainda estamos no processo de registro do estatuto, já colocamos o problema do Semae. Foi pauta da primeira reunião no ano passado. Nós encabeçamos um trabalho, denunciamos ao Ministério Público, fizemos reunião no Cáritas, com um técnico para falar da situação.

O que a ONG conseguiu fazer em relação às reclamações de falta de água, tarifas altas do Semae?

O Semae atravessa por problemas porque houve ingerência política do município o tempo todo. Não foi respeitado como autarquia, para cuidador do povo, da água, para ser a empresa boa, que o Semae sempre foi. Não quero culpar só o presidente atual do Semae, que está há dois anos. A responsabilidade é única e exclusivamente do prefeito Barjas Negri. Primeiro: mandato de vereador; segundo: secretário de João Herrmann; terceiro: secretário do Mendes Thame; quarto: prefeito por quatro anos; elegeu o sucessor Gabriel Ferrato e voltou prefeito novamente. São quase 30 anos que ele conhece todo o sistema de Piracicaba. Mas qual foi a preocupação dele nisso tudo? Foi fazer viadutos. Existe uma podridão. Em 2016, o dono da Águas do Mirante foi preso. E os problemas que aconteciam em Ribeirão Preto eram muito idênticos. Águas do Mirante tem por volta de 30 funcionários para cuidar do esgoto da cidade toda. Temos como provar que o Semae tem feito o trabalho da Águas do Mirante. E quem leva o dinheiro do esgoto é a Águas do Mirante. Dizem que o esgoto é 100% tratado, o que não é verdade porque na Portelinha não está tratado, nas periferias não está. É uma mentira!

Na sua análise, como é possível conscientizar o eleitor do seu papel transformador enquanto cidadão?

Tem que ter um trabalho de conscientização começando pelas periferias. As associações de bairros têm que ser independentes. Por exemplo, eu me uni a Regina, do Bosques do Lenheiro, porque o Centro Comunitário estava abandonado. É um dos maiores e melhores, talvez, de Piracicaba. Vi o abandono daquele povo, esgoto para todo lado, criança com suspeita de Leishmaniose (doença infecciosa causada por protozoários parasitários). Vi que tem muito trabalhador lá. O pessoal denigre a imagem da periferia, mas tem mutia gente trabalhadora, que tem dois, três filhos, e não tem condição de morar em outro local. Cinco e meia, seis horas da manhã, os ônibus do Bosques do Lenheiro, do Jardim Gilda, estão superlotados de pessoas que estão indo trabalhar.

Como tem sido essa parceria com a liderança do Centro Comunitário do Bosques do Lenheiro?

Ocupamos, literalmente, o Centro Comunitário, tiramos o cadeado, do local que estava abandonado. Agora, terá eleição da diretoria, vamos mostrar que é lá que o poder público tem que profissionalizar o jovem, na periferia. Tem que levar informações para as pessoas da periferia. Nós vamos levar cursos de cabeleireiro, de garçom, de porteiro, tudo com apoio da comunidade, sem nada do poder público. Qualificação profissional! Porque se não fizermos isso com os jovens, vamos continuar perdendo- -os para as drogas. Dentro do nosso limite como cidadãos e de amigos que vão como voluntários, vamos ter cursos profissionalizantes gratuitos e também médicos ginecologista para se reunirem com as mulheres, pediatra para orientar, professores.

Essa revolta te levou a ser candidato a prefeito?

Sim. Fui pesquisar o orçamento do município e vi que, trabalhando sério, sem corrupção, dá para fazer muito, dá para cuidar desse povo. Me candidatei para pegar todos os espaços disponíveis para que eu denunciasse a corrupção, para ter voz. Foi aí que sobrou o PCdoB, a esquerda acabou me apoiando. Me decepcionei. Partido para mim são todos iguais, hoje, acho que são todos uma vala comum. Logo depois das eleições, saí de partido político, por não concordar com a ideologia do “fala mas não faz”. Meu partido é Piracicaba. Meu partido é o povo. Para pedir o impeachment do Barjas (prefeito Barjas Negri – PSDB), a Câmara de Vereadores disse que eu só poderia fazer isso se estivesse filiado a um partido, com assento no Legislativo. Por isso, me filei ao partido do Trevisan (Laércio – PR), para apresentar o impeachment, mas aí arrumaram outra desculpa, então, fiquei quieto. Achei melhor me juntar à comunidade, à população e criar a ONG Movimento Juntos Por Piracicaba.

Qual a importância de dom Hélder Câmara em sua vida?

Foi no Mosteiro de São Bento, com dom Hélder Câmara, que aprendi a me rebelar contra o sistema. Dom Hélder Câmara me falou: “Filho, esse mundão é grande para você, vai andar por aí, porque você não tem vocação. Eu aprendi muito com ele! Dom Hélder tem uma história linda, maravilhosa, que todo mundo conhece, pelo enfrentamento à ditadura militar.

Como foi sua atuação em Barra Bonita? Por que deixou a política naquela época?

Fui vereador com 21 anos, em Barra Bonita e não quis mais saber. A política não pode ser aquilo que você entra e se eterniza. Fui o primeiro presidente do Conselho Tutelar de Barra Bonita. Não tinha casa abrigo, então eu pegava a criançada na rua, quando a delegacia me ligava e falava onde tinha criança, e levava para minha casa, ficava de guarda a noite inteira acordado, para no dia seguinte, buscar a família. Fui presidente do Hospital e Maternidade São José, quando estava para fechar as portas, quando ninguém mais queria saber, toda diretoria havia renunciado, aí sim valeu a pena todo aquele trabalho social que nós fizemos. Busquei os presidentes das associações de bairros, o padre da cidade, o pastor evangélico e nós criamos um conselho. Em 2004, eu saí definitivamente do meio político e vim para Piracicaba.

Você se diz um lutador contra o sistema. Como tem sido isso?

Tenho uma vida de luta contra o sistema. Uma luta terrível. Não tenho formação acadêmica alguma. Tenho ensino fundamental. Na faculdade da vida, acabei chegando às diretorias comerciais de indústria cerâmica, à gerência. Estou fazendo agora, o ensino médio. Minha vida foi voltada para as questões sociais. Estou sempre do lado mais frágil, talvez pela minha história de vida. Em Barra Bonita, por exemplo, eu criei associação de bairros em todos os bairros, independentes, não subordinadas à prefeitura, ao Executivo. O fato das associações de bairros de terem sido fortalecidas e ensinadas a lutar pelos seus direitos, a administração pública sempre respeitou. Em 1995, nós implantamos geração de renda, quando não se falava tanto nisso. Eu fui para Caxambu, aprender a fazer tapete em tear, voltei e ensinei duas mulheres. Elas aprenderam, começaram a ensinar outras mulheres e formamos uma cooperativa. Até hoje existe e foi, inclusive construído um prédio para elas, que também tem um estande na praça de artesanato.

Pretende se candidatar a cargo político novamente?

Possivelmente não. Fui candidato duas vezes: a prefeito e deputado. Fui para aproveitar os espaços, mesmo sabendo que não ganhava. Só que agora, conseguimos acordar as pessoas, a comunidade, de que o povo junto tem mais poder que os políticos. Sem eu ser político, estou conseguindo ajudar muito mais a cidade, as pessoas. Não vou falar dessa água não beberei, porque disse em 2004 que não queria mais saber política. Mas meu desejo não é ter envolvimento político. A ONG é a minha prioridade.

Eliana Teixeira