O calote dos hermanos argentinos

A situação não anda nada boa para nossos vizinhos argentinos. E não se fala aqui de futebol. O maior problema é uma enorme crise financeira. Nesta semana, o governo da Argentina anunciou que não vai pagar a maior parte das suas dívidas internacionais de curto prazo, estimadas em 15,5 bilhões de dólares, que estão para vencer. Ainda existem 56 bilhões de dólares devidos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que não serão pagos e estão sendo renegociados. Esse calote vai cair na conta do próximo presidente argentino, que deverá ser eleito no dia 27 de outubro.

A situação da Argentina é muito preocupante para o Brasil. Isso porque a Argentina é o nosso terceiro maior parceiro comercial, só perdendo para a China e os Estados Unidos. Assim, a possibilidade concreta de quebra da Argentina significa menor poder financeiro dos “hermanos” para comprarem produtos brasileiros, o que pode trazer prejuízos para exportadores nacionais de produtos agrícolas e industrializados.

E a história está atrelada à política populista que, mais uma vez, tomou conta da terra de Maradona. O presidente Maurício Macri é candidato à reeleição nas eleições de outubro. Seus principais opositores são a ex-presidente Cristina Kirchner, que sairá como candidata a vice-presidente junto com Alberto Fernández, candidato a presidente. A chapa da oposição saiu na frente nas primárias e é considerada a favorita para o pleito de outubro.

O presidente Macri, abalado com a perda de popularidade com os eleitores, lançou um pacote econômico que prevê aumento de subsídios no preço de serviços públicos e controle de preços, tal como o congelamento do preço da gasolina por 90 dias. São medidas que, sabidamente, não funcionam no longo prazo. O governo também anunciou um aumento do salário-mínimo, apesar das condições financeiras precárias do país. Macri contrariou a sua própria política econômica inicial, que procurou retirar os subsídios sobre o preço da água e da luz.

A potencial vitória da chapa de oposição significa o triunfo do populismo irresponsável na Argentina. Cristina Kirchner foi presidente, sucedendo o próprio marido, o presidente Néstor Kirchner. O controle político exercido pelo casal na Argentina deve ter inspirado a série House of Cards da Netflix. Só que na Argentina aconteceu na realidade.

Segundo a agenda populista, os políticos insistem em gastar mais do que podem e assumir dívidas para depois não as pagar. Com o aumento dos gastos, intencionam, na verdade, “comprar” votos da população para se elegerem e se perpetuarem no poder.

A situação da Argentina é um alerta para o Brasil. Mostra como entrar num círculo vicioso do qual não se consegue sair. Basta imaginar uma dona de casa que gasta mais do que ganha para contentar seus filhos e assume dívidas constantes para pagar seus gastos crescentes. Este estilo de vida não é sustentável. A lição é válida para prefeitos, governadores e presidentes que insistem em gastar mais do que comportam os orçamentos das cidades, estados e países que administram.