O caminho do meio – parte II

“E se todas as religiões fossem transformadas em filosofias?”

Neste segundo texto da série “O caminho do meio”, quero abordar a religião. Veja, não encare o que lerá daqui pra frente como um texto especificamente sobre religião. Na verdade, o tema de fundo, e principal, é sobre extremos e suas mazelas. Depois de 3 décadas de carreira, sendo duas delas em Educação, tenho motivos suficientes para defender que nada se sustenta nos extremos, inclusive religião. Ainda vou abordar nesta série política, empreendedorismo e outros “territórios” onde a análise sobre extremismos pode nos ensinar algo.

Pois bem, como relata Yuval Harari em seu belo texto “Sapiens”, as religiões monoteístas e evangelizadoras são bem recentes. Começaram a surgir com força após a revolução agrícola, há aproximadamente 14.000 anos. Até então, elas existiam sim, mas não tinham em um único Deus a verdade absoluta e nem queriam conquistar mais adeptos. Isso surge, “coincidentemente” quando o homem começa a se fixar na terra e lutar por ela. Segundo Harari, mais um dos instrumentos para fazer estranhos cooperarem em larga escala a partir de uma ficção. Obviamente, não é por acaso que regras divinas como “não roubarás” aparece justamente quando surge a propriedade privada.

O fato é que as religiões monoteístas ganharam o mundo. Aliás, não sei, e acho que ninguém sabe, o que seria do mundo sem elas. Se o mundo já tem as mazelas que tem com as religiões, imagine o que o homem seria capaz de fazer sem a as ideias de céu ou o inferno. Não gosto nem de pensar. Por outro lado, as religiões foram responsáveis por algumas das maiores atrocidades que vimos da história. De novo, quando os extremos imperam, as mazelas chegam. Posições extremas, em qualquer situação, mas principalmente quando se fala de crenças religiosas, causaram fatos que nos envergonham até hoje. Dos cristãos sendo jogados aos leões durante o império romano, ao grupo radical católico IRA na Irlanda matando protestantes; das cruzadas que invadiam nações muçulmanas e matavam todo mundo às fogueiras da inquisição que queimavam os infiéis; da Noite de São Bartolomeu que matou milhares de huguenotes à Jihad islâmica que prega que se deve matar aqueles que não seguem o alcorão, sem falar de outras mais. Tudo isso por quê? Porque os extremos geravam uma sensação de “eleitos” e “não-eleitos”, ou seja, aqueles que eram dotados da certeza maior e aqueles perdidos que não merecem viver porque estão do lado oposto. Lindo, não? Na verdade, horrível!

Este é mais um território onde existe uma prova clara de que os extremos não funcionam. A música “Imagine” de John Lennon trata disso e questiona claramente os extremos religiosos, entre outras coisas. “Imagine não existir paraíso… nenhum inferno abaixo de nós… Acima de nós apenas o céu…”.

E quando a religião se mistura com o estado e com a gestão pública, aí sim, a festa de horror está feita. Procure um caso no mundo onde isso deu certo. Não existe!

E a nossa carreira, o que tem com isso? Tudo. Extremismos religiosos atrapalham também a carreira, porque quando as pessoas trabalham com foco maior nas suas convicções religiosas, defendem uma posição e condenam posições opostas, fecham portas, não conseguem engajar pessoas e têm uma enorme dificuldade de liderar. Isso é muito simples de entender, porque posições extremas sempre vão encontrar, em um mundo tão diverso e heterogêneo, contrapontos. Portanto sempre defendi e sigo defendendo que trabalho e evangelização religiosa não combinam.

Qual é o caminho, então? Na minha visão, o caminho do meio, sem radicalismos, sem verdades absolutas, sem “eleitos” e “não-eleitos” e com respeito a opiniões divergentes, mesmo que na direção oposta do que acreditamos. Até o próximo!