O Crepúsculo da Vida

Plínio Montagner

Há alguns anos um leitor alertava-me dos meus textos; dizia que eram tristes, que alguns cenários estavam fora do contexto, que os temas sobre o amor eram repetitivos. Justifiquei que elegia esse gênero porque o amor é o sentimento e a força que mais fascinam e movem as pessoas.

A vida é assim, apenas são diferentes as épocas, pessoas e lugares, em que a ficção e a realidade, ora se aproximam, ora se distinguem, de tal modo que podem dificultar a distinção entre um e outro gênero.

O amor desperta o homem de sua quietude, porém, se muito intenso, diminui sua individualidade aprisionando-o ao outro.

O coração é inocente mesmo, quem escreve ou fala expõe seus mistérios, não tem jeito. As perdas da vida revelam amores não percebidos, e a velhice expõe afetos eternos e outros apenas interesseiros.

Quando um ser envelhece, sorrateiramente a decadência se inicia, vem nos momentos do fazer menos, do se divertir menos, e de ser o último a descer ou a subir ao ônibus numa excursão, até o momento do pedido de socorro à família para que cuidem dele.

Sem pena, num de repente, surge um desequilíbrio, vem uma melancolia e um sentimento de revolta afrouxa a serenidade da aceitação da realidade, até à inutilidade completa.
Esse tema foi bem abordado pelo padre Fábio José de Mello, mais conhecido por Padre Fábio de Melo:

“Os antepassados devem ser tratados com amor, pois durante toda a vida acumularam créditos, mas insuficientes para serem lembrados e agradecidos”.

É inexplicável a injustiça que a sociedade e os membros de algumas famílias praticam, principalmente se os velhinhos tiverem distribuídos seus bens e ainda são órfãos de aposentadorias e não possuem um plano de saúde.

O diretor do cinema italiano Mario Monicelli não dispensou talento e criatividade ao abordar esse tema em seu filme “Parente é Serpente”, cuja história se repete no cotidiano, principalmente no momento de ajudar, de cuidar e acolher aqueles que se dedicaram a vida por eles e agora considerados improdutíveis.

O filme tende a ser uma mistura de comédia e tragédia, ficção e realidade; e não poderia deixar de ser, pois o cenário se compõe ao redor da mesa na sala de jantar de uma família italiana numa ceia de Natal.

Desde o momento da chegada dos parentes a alegria é geral, filhos, genros e noras, cunhados, tias e tios conversando, rindo, bebendo, trocando presentes, até o momento em que a anfitriã faz um aceno para perguntar em tom de súplica, se alguém entre os presentes poderia vir morar com eles, ou se poderiam morar na casa de alguém devido à idade avançada dos dois.

Da balbúrdia, dos sorrisos, da alegria e danças, um silêncio mórbido, nenhum movimento, nenhum olhar ou gesto. Enfim o filho mais velho, solteiro, iniciou seu discurso para dizer que era incapaz de assumir essa responsabilidade, que não tinha jeito para esse tipo de trabalho. Outro argumentou que não tinha condições financeiras. O seguinte, que a casa era pequena…

Genros, tios, cunhados, faziam pose de que o assunto não era com eles. Apoio, gratidão, esperança, zero.

As bravatas, os insultos, as revelações íntimas, foram demais aos anfitriões, que abandonaram a sala.

O fôlego que embala o corpo e o coração na juventude é o mesmo dos incapazes, porém como os pássaros, que perdem a inclinação de cantar, menos a de amar e de ser amado.

A máxima é: quem ama, cuida sem exigir nada em troca. “Você não sabe mais quem eu sou, mas eu não vivo sem você”.

Haverá outra declaração melhor de amor?

Plínio Montagner é professor aposentado.
plinio.montagner @hotmail.com