O mundo vai acabar

O mundo vai acabar e eu não fiz nada. Os sinais são evidentes, o Apocalipse de São João começa a se cumprir, calendários esotéricos apontam o fim para os próximos anos e estudiosos fixam datas, como 2022… Fico pensando no que vai dar tempo de fazer até lá. Não sei se caso ou se compro uma bicicleta.

Consta que uma pedra colossal, de nome “Eros” ronda o espaço, em rota de colisão com a Terra. Teria o formato de um coração, daí o nome bonito. Haverá uma explosão de duas estrelas no ar e esta iluminação trará luz às nossas consciências. Uma parada no tempo e no espaço, para uma revisão de vida. Ai.

Não paro de ouvir e de ler que o juízo de Deus vem aí. E o atestam todos os cientistas e estudiosos da matéria, os livros escatológicos, os filmes de Hollywood, os profetas e os astrólogos. Todas as religiões e todas as seitas. O mundo vai acabar, prepare-se. Como deverá ser esta preparação? Mudamo-nos todos para o Planalto Central – a única parte do Brasil que ficará totalmente seca, uma vez que quase todo o nosso continente afundará? 

Já fizeram piada disso: mas aqueles safardanas ainda vão se salvar todos? Pois é… Bobos de nós que trabalhamos, suamos a camisa, andamos direito, pagamos impostos, não temos sítios por aí, e ainda vamos ficar debaixo d´água, enquanto eles, lá em Brasília, dão adeuzinhos de camarote para nós.

Mas se acontecer o adeus final, vou me sentir em falta com as promessas que ainda não paguei, aos amigos que não visitei, às cartas de amor que não escrevi, aos beijos que soneguei, aos sonhos que não sonhei…

O mundo vai acabar e não comi açaí na tigela, só me casei uma vez, não conheço a Capela Sistina, nem a Escandinávia, tampouco um fiorde norueguês. O mundo vai acabar e não dá mais tempo de ser cantora. Nem autora,  ninguém. Diante da iminência do fim, o que é “ser alguém”?

Com o anúncio final, ando numa sofreguidão de dar pena. Se começa a chover, quero aproveitar o fenômeno meteorológico para ler. Depois, não quero mais, quero escrever. Também me desencanto da escrita, ando pra lá e pra cá, zanzando feito besta, numa maravilhosa tarde de chuva dentro de casa. É de arrasar o coração. Ó lenta agonia da alma, como é a tua face?

O mundo vai acabar e eu ainda não construí a minha sonhada casinha com varanda. Dará tempo? O canto adorado que desenho todos os dias. Melhor tirar esta porta daqui e deixar a passagem livre; esta janela dando para o terraço interno não está boa; três quartos ou dois apenas? Lar doce lar!

Vai dar tempo de acabar o meu “Poema Inacabado”? De fazer um bolo de fubá e coar um café? De dar um passeio por aí? De assistir a mais uma missa na Igreja dos Frades? De comer um lombo de filhote na brasa, com cerveja gelada, lá na beira do rio?

O mundo vai acabar e estou atrasada em relação a tanta coisa, mas a confissão está em dia, graças a Deus. Podes acabar, ó “mundo velho sem porteira”, como diria o Liroca, personagem de Érico Veríssimo. Me pegas em estado de graça!

Faz 40 anos que espero a bela devastação. Vem, Eros, que te queros, que te queros, dentro do meu coração!