O peixe da cidade ou a cidade que o peixe pára?

 

Depois de tantos atos de vandalismo – alguns com tom de protesto e outros de rebeldia barata -, o microempresário Norio Ivakava teve uma ideia para solucionar o problema ou pelo menos tentar criar na comunidade o sentimento de pertencimento, que esse esse monumento merece. Numa cidade com tantos pescadores, com um rio nacional e internacionalmente conhecido, cantado e retratado não há motivo para tantas agressões, ou há?

Na matéria de Beto Silva, publicada na página 3, Ivakava sugere que o peixe seja grafitado com o tema dourado, ou seja, que ele ganhe as características de um verdadeiro dourado sob o olhar artístico dos grafiteiros ou artistas locais. Proposta semelhante foi realizada nos muros do Cemitério da Saudade, onde artistas da cidade fizeram paineis alusivos à religiosidade dando seu olhar e suas cores ao muro.

A proposta do empresário ainda prevê um jardim ao redor do peixe, com grama, flores e holofotes, além vigilância com câmeras 24 horas. Sim, vigilância. Até quando vamos precisar de vigilância para nossos atos? O cidadão não entende que, ao danificar o bem público, manda um boleto de cobrança para todos os moradores da cidade.

A proposta de vigilância de Ivakava não é absurda, ao contrário, segue os métodos utilizados em escolas estaduais e municipais, unidades básicas de saúde e outros equipamentos feitos para beneficiar todos, que acabam ficando inutilizados pela ação de poucos. Quem paga? Todos.

Minha primeira escola tinha jardim e acesso aberto à porta de entrada, mas já ganhou muros mais altos, grades, portão eletrônico e câmeras, apesar da biblioteca e quadra poliesportiva continuarem bem ruins. Ao se falar de qualquer crise de valores ou institucional, sempre mencionamos a educação como algo primordial para uma nação realmente grande em qualidades e não quantidade, inclusive por que o Brasil tem números extraordinários para quase tudo. Contudo, viver a educação plenamente exige mais que aparatos de segurança, punição e verborragia, exige tempo, paciência, respeito, formação e conteúdo. Não, não temos tudo isso ainda.

A ideia de Ivakava é boa e pode sim proteger nosso peixe dourado. Já tivemos aqui na cidade casos de praças recuperadas e reformadas, que foram destruídas em apenas uma semana. Movimentar um caminhão do Paço Municipal para um bairro custa dinheiro, o que significa que jogamos nossos recursos fora.

Só para se ter uma ideia a estátua do peixe, construída em 2012, custou R$ 90 mil aos cofres públicos. Mas, é importante que se traduza que cofres públicos nada mais são do que nosso bolso. Incomoda muito perceber o espírito de barbárie parece tomar conta de pessoas aparentemente normais e respeitosas, desde que não haja nenhuma câmera vigiando.

(Alessandra Morgado)