O Poder do Perdão e a Liberdade Pessoal e Coletiva

Comecemos por nivelar conceitos, pois há sempre imagens mentais pré-concebidas sobre palavras, termos e expressões que utilizamos. ‘Poder’ na sua origem tem a ver com potencial, capacidade de realização. ‘Perdão’ é o ato de perdoar, formado por ‘per’ e ‘doar’, em que per é um prefixo que designa “por meio de, através de”, como em permear, perfazer, perdurar, persistir. Traz a sensação de fluxo, de movimento,  de completude, “por todos os lugares, a tudo”. Doar tem um sentido mais elevado que o dar, considerado mais virtuoso que o receber, como dom de generosidade. No exemplo a seguir, notemos a dificuldade que temos de nos perdoar: certa senhora fora confessar-se mais de uma vez com um padre sobre o mesmo pecado, justificando que queria ficar “bem absolvidinha”; ele explicou que Deus já havia lhe perdoado desde a primeira confissão. Portanto, é nobre o reconhecimento de erros cometidos e o pedido de perdão a quem se ofendeu, mas a liberação da culpa só virá se formos capazes de nos perdoar, porque para liberar os conteúdos mentais que nos causam danos, é necessário olhar para eles, o que implica em mal estar temporário, sendo preciso ter coragem e humildade para enfrentá-los. Evitamos porque é bastante desconfortável acessar com integridade as dores que jazem nas nossas memórias, comprometendo nossa qualidade de vida. Preferimos, ao contrário, negar, esquecer, empurrar “para baixo do tapete” da mente; ou, se reconhecemos que algo não vai bem, preferimos mantê-lo no intelecto (a racionalidade não acessa a dor), ou terceirizar o perdão, transferindo para o outro o poder de nos perdoar. Caso a outra pessoa nos perdoe, estará perdoando a si mesma, sendo a primeira a se beneficiar. A indulgência (virtude associada ao perdão) é uma ferramenta tão poderosa que foi até comercializada no passado, utilizada como instrumento de dominação e subjugação, mas agora podemos (ou deveríamos) nos libertar dessa História, procedendo à nossa própria autoliberação começando por perdoar a humanidade em nós, cuja ignorância vem sendo aos poucos removida pelo despertar da consciência. O perdão portanto, é o ato de doar através de si mesmo, o amor divino a tudo e a todos. A questão é que ao evitamos a dor nos omitimos de limpar níveis mais profundos do lixo histórico, ancestral e cultural que habita nossas memórias. Não admitindo enfrentar nossas sombras (que são todas compartilhadas pela humanidade), somos incapazes de nos arrepender verdadeiramente, e por consequência não permitimos que a energia do divino, do fluxo da vida, se manifeste em nós, influenciando positivamente ao redor. Assumir integralmente a responsabilidade por nossos pensamentos, palavras e ações é o primeiro passo para a verdadeira libertação da culpa que carregamos e dos grilhões que nos atamos para não caminhar com maturidade. Se não o fizermos por nós, ninguém o fará, mas se o realizarmos, todos se beneficiarão. Que o perdão é fundamental para a saúde mental e a qualidade de vida do ser humano, a Ciência já comprovou e vem sendo dito pelas religiões de maneiras diferentes há milênios. Buscar a verdade além das aparências e formas, no sentido das palavras, como princípio dentro de nós mesmos, para que o poder do perdão transforme-se em liberdade, é um bom caminho para viver de modo mais íntegro e saudável.