O propósito religioso

A expressão religiosa e a busca espiritual fazem parte da existência humana em qualquer local, época ou cultura. O sentido do religioso e do sagrado têm acompanhado o ser humano desde os primórdios das civilizações. Mesmo na época atual, saturada de informações, descobertas científicas e novas tecnologias, o impulso religioso permanece, e, em certa medida, até tem crescido, pois as satisfações físicas, emocionais ou mentais não preenchem, nem jamais preencherão, as necessidades mais profundas do ser.
 
Certamente, diversas podem ser as razões pelas quais se pertence a determinada religião ou filosofia espiritualista. Além da simples adesão a convenções humanas, muitos procuram serviços religiosos em momentos de crise, em fases de grande sofrimento, como a morte de familiares próximos, doença grave ou incurável. Nesses casos, a religião é buscada como fonte de consolo e esperança. Há quem se entregue a práticas religiosas para fugir ao enfrentamento de problemas e conflitos psicológicos, de frustrações pessoais, amorosas ou profissionais. Nesses casos, espera-se compensar certas carências e preencher o vazio existencial, o que é compreensível e plenamente humano, mas ainda distante de uma experiência religiosa profunda, no sentido original do termo religião, de religar a criatura à sua Fonte, o que fortalece a fé, ilumina a razão pela intuição, amplia a inspiração, além de trazer novo e mais profundo sentido à existência, bem como a todas as experiências da vida.
 
Nas fases de tranquilidade e saúde, prosperidade e bem-estar, a dimensão religiosa da vida pode parecer desnecessária, mas diante dos sofrimentos e tribulações, dores e perdas que todos algum dia conhecem, a espiritualidade e a fé mostram-se imprescindíveis, ao trazerem força interior e coragem, equilíbrio e esperança.
 
À medida que se descobre a vida interior, se compreende melhor as leis da vida e se tem alguma experiência transcendente, menos se sente obrigatoriedade de pertencer a grupos religiosos e cultos externos, o que não impede que se participe deles. Quanto mais alguém desperta a consciência espiritual, mais colabora com o bem comum, independentemente de pertencer a algum movimento religioso. A vida de muitos benfeitores da humanidade comprova que a verdadeira espiritualidade e a consequente conduta altruísta não dependem em absoluto da filiação a religiões convencionais.
 
Como existem tantas formas de se expressar a própria espiritualidade quantos sejam os seres humanos, torna-se fundamental, para uma convivência social saudável, que seja respeitada toda e qualquer manifestação de crença e de fé. Esse tem sido um dos maiores desafios humanos, até o dia em que o respeito à diversidade religiosa seja tão espontâneo quanto o respeito às diferenças étnicas, culturais, sexuais e políticas, única forma de alcançarmos a condição de sociedade verdadeiramente civilizada, pois educada para a inclusão e a legítima fraternidade.