O que fica da escola? Os minutos de magia!

David Chagas

O que fica da Escola? A formação para a vida. Saberes, os livros trazem e dividem, sem cobrar em troca. Há, no entanto, além de saberes, algo que permanece.

Das múltiplas mensagens recebidas de ex-alunos ­ e não são poucas ­ nenhuma evoca mais a lembrança da escola onde estive com eles que a leal gratidão por eventos que revelaram a senha do mundo. Contam-me das boas lembranças de Marcelo Rubens Paiva e João Carlos Pecci. Da inesquecível presença de Cora Coralina no pátio sombreado por eucaliptos, falando de si e da vida, ao recitar seus poemas. Dos muitos espetáculos a que assistimos juntos em São Paulo. Dos museus visitados. Das cidades históricas. Adultos, maduros, alguns já avós, têm viva na memória estas aventuras, distantes das frias apostilas formatadas.

Nada, no entanto, me deixa mais orgulhoso que saber do teatro experimental a que nos aventuramos, interpretando Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, e passeando pela obra de Adoniran Barbosa, em Saudosa Maloca. Jamais fazem referência a expressões matemáticas ou fórmulas químicas, mas trazem, ululando na lembrança, textos lidos, hoje, relacionados com suas experiências de vida.

Os grandes colégios têm, por isso mesmo, promotores de Cultura entre seus professores. O genial Serginho Groissmann foi, ainda nos anos setenta, um deles, no colégio Equipe e trouxe para seus alunos, muitos destes que participam de seus programas, dando-lhe uma das maiores audiências da televisão.

Nestes últimos dias, surpreendeu-me ver, em Piracicaba, que os colégios Anglo, tiveram, pela trigésima vez, seus Minutos de Magia, espetáculo lítero-musical apresentado no Teatro “Losso Netto”. Entre textos, músicas, dança, seus alunos clamaram pela água, em favor da vida: “eu sou a água/ que lava a cara/ que lava os olhos/ que lava a rata e os entrefolhos. (…) Aqui está a agua/ que rega a salsa e o rabanete/ que lava o sangue das grandes lutas/ que apaga o lume e o borralho/ que rega rosas e manjericos/ Eu sou a água que tira mau cheiro das algibeiras/ dá de beber às fressureiras e lava a tromba a qualquer fantoche.”

Bom saber que duas escolas se unem num só propósito: o Cidade de Piracicaba e o Portal do Engenho, ambas adeptas do sistema Anglo, ensinando, educando, orientando sobre o que é ser mais que Escola, preocupada em conscientizar seus alunos a respeito da preciosidade do líquido que faz do planeta, o celeiro da vida. Falar “da água cristalina que corre nos rios e regatos, que não é simplesmente água, mas a representação viva de nossos indígenas antepassados; do murmúrio das cachoeiras, a voz de nossos ancestrais. Dos rios nossos irmãos, que saciam nossa sede, alimentam nossas crianças; do homem branco que deveria dar aos rios a bondade a ser dedicada a qualquer irmão”.

Se todos sabemos ­ perguntaram os jovens atores participantes – o quanto a água é elemento indispensável e insubstituível a todas as formas de vida, por que não cobramos gestões efetivas em favor deste elemento indispensável e insubstituível?

É na nuvem, que Deus se propôs a oferecer água. Chuva que abençoa o chão, gelo que se derrete, neve que se desfaz, tudo para dar mais vida aos que dela necessitam. A água precede o homem. Fecha verão, abre verão oferecendo vida sem que o homem entenda o benefício que isto representa.Assim não fosse e não desrespeitaríamos tanto as minas, os olhos d’água, as nascentes e fontes.

Ou alguém não se lembra de Sete Quedas que por nós passaram e não soubemos amá-las, destruindo as sete e pulverizando a memória dos índios?