O que o Coringa nos ensina?

Assim somos como ratos de laboratório, eternas cobaias do sistema corrupto.” (Coringa)

Se você ainda não assistiu ao filme, peço que não leia este artigo, pois ele contém alguns spoilers. Faço uma crítica sobre ele, à luz da Psicanálise e da Filosofia e, portanto, o ideal é que você assista ao filme e depois leia este artigo.

Um filme violento? Prefiro dizer que se trata de uma história sobre a crueldade humana. Retrato perfeito do “mau da civilização”, um dos maiores estudos de Freud.

Violência não é só sobre o lado “físico”, ela pode ser feita com olhares, palavras e gestos: desprezar o próximo, ignorar o real conceito de empatia, que não é se colocar no lugar do outro, como se pensava, mas sim entender que o outro é “outra pessoa”, que ela não tem a obrigação de ser ou pensar como você e merece ser respeitada, mesmo que ela não “comungue” das mesmas opiniões que você; mesmo que o preconceito tente ser mais forte.

Do começo ao fim do filme, eu sentia sua poderosa mensagem: “Vocês não estão percebendo que estamos criando doentes mentais a todo momento?”

O fato não é o que o Coringa se tornou ou como o filme acabou. Quem o assiste com espírito crítico vai entender que a mensagem mesmo está no “porquê” e “como” acabou.

Um garoto que entra numa escola atirando nos colegas ou tantos outros absurdos do dia a dia. Estamos tratando de doentes mentais? E nossa atuação sobre este “filme real”? Tentamos ser corretivos, entretanto, Governo e Sociedade precisam entender que a raiz está apodrecendo e é nela que precisamos atuar. Venho insistindo nesse tema: inteligência e gerenciamento emocional; saúde mental. Sim, eles deveriam estar mais presentes no cardápio de um país que quer ser desenvolvido.

Coringa tinha sonhos, limitações, problemas, estrutura. Quem somos nós para julgar ou “medir” a mente humana… Entretanto, vivemos numa sociedade que cobra perfeição e, então, vamos criando “doenças” e “doentes”. Coringa teve uma construção psíquica bem complicada: abandonado, abusado e violentado de diversas maneiras e mesmo assim ele luta para ser “normal”, para compreender o porquê de passar por tudo aquilo. Se empenha, arduamente, mas descobre mentiras, sente o descaso das autoridades e das pessoas com seus problemas, vê sonhos serem liquidados pela incompreensão e pelo preconceito, gratuitos e generalizados.

Então, Coringa se torna um assassino frio. Justifica? Claro que não. Nenhuma violência deve ser aprovada. Mas, quantos “Coringas” temos ao nosso redor? Assassinos, depressivos, ansiosos, bipolares, suicidas… A realidade está latente em cada segundo desse filme. Transtornos? Doenças? Raiz. Inconsciente. Crenças. Janelas mentais brutalmente “machucadas” ao longo da história psíquica das pessoas, da forma como a do Coringa foi e a de tanta gente está sendo, desde que nasce. Não foi por acaso que no final do filme a sociedade idolatra Coringa.

Aos que não gostaram do filme, compreendo, mas peço que coloquem um olhar mais crítico sobre ele, certamente mudarão de opinião. Coringa nos dá uma aula sobre a verdade dos transtornos mentais e de como a própria sociedade “cria” doentes e ao mesmo tempo os abandona. E nós, como estamos agindo nesse cenário?

Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?” (Sigmund Freud, 1856-1939, o Pai da Psicanálise).