O sentido da Quaresma e da Páscoa Cristã

Hoje, para uma reflexão sobre tema acima, convidei o amigo e professor Adelino Francisco de Oliveira (doutor em Filosofia e mestre em Ciências da Religião e professor no Instituto Federal, campus Piracicaba). Vejam que interessante:

“O tempo da Quaresma, composto de quarenta dias que antecedem a realidade da Ressurreição de Jesus Cristo, celebrada na festa maior da Páscoa, é um forte convite ao recolhimento e à reconciliação. A Quaresma nos propõe dois momentos fundamentais: a sincera revisão de vida, por meio de um profundo mergulho no mais íntimo de si mesmo, e o encontro de reconciliação com Deus, que está sempre aberto a nos acolher”.

“A tradição da Quaresma faz memória da experiência de Jesus Cristo no deserto, a se defrontar com tudo que há de mais perverso e sedutor. No contexto bíblico, o deserto representa a possibilidade de encontro consigo mesmo, sendo lugar privilegiado de silêncio interior, a remeter à essencialidade da existência. Interessante é que o mundo contemporâneo, marcado pela falta de sentido existencial – entregue às malignas tentações do poder, do prazer e do sucesso – evidencia carência de experiências quaresmais. A proposta de um tempo singular, dinamizado por posturas de oração (atenção à interioridade e a intimidade para com Deus), de penitência (reconhecimento das limitações e fragilidades humanas) e de caridade (amor que molda e define as relações, fazendo da vida dom e serviço), constitui-se como uma oportuna e imprescindível ocasião de superação de uma perspectiva cindida de existência, tomada por angústia e ressentimento. Mas, a Quaresma compõe-se apenas como tempo de passagem. A experiência existencial definitiva desvela-se na Páscoa, a nos indicar, com a ressurreição de Jesus Salvador, o significado da vida que é capaz de se renovar na prática do amor e da doação. O mistério pascal constitui-se como o momento revelatório por excelência. Na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus nos revela sua face amorosa, no projeto de vida plena para toda a criação”.

“Os eventos da Semana Santa culminam na grande mensagem: o Amor se faz dom de si. Assim, a entrega na Cruz – gesto de total doação – passa a representar o sentido maior do amor que se revela pleno de compaixão e beleza. Neste sentido, Jesus Cristo nos ensina, de maneira exemplar, como devemos agir para que a vida alcance plenitude na comunhão e encontro com o outro. A dinâmica do dom, a entrega livre e amorosa de Jesus, manifestada e revelada na Páscoa, funda novas balizas éticas a nortearem as relações humanas. A celebração pascal fala, sobretudo, de vida. Vida que suplanta todas as formas de opressão e morte. A Páscoa de Jesus não deixa de ser um convite para se repensar a vida, no que há de mais cotidiano, bem como as próprias dinâmicas sociais. Nesse ponto, o processo pascal vivido por Jesus está tomado por imagens de banquetes de vida, onde se aprende a comunhão, a partilha e a caridade, fazendo da vida graça, dom e entrega”.

“Em um contexto em que a vida tem sido ameaçada por artimanhas de uma política neoliberal diabólica, os cristãos são chamados a se levantarem, impactados pela Ressurreição, em um vasto movimento em defesa da vida, particularmente da vida dos que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. Que com a Páscoa desponte também a aurora de um novo tempo, delineando outras perspectivas existenciais, em um cenário de uma política comprometida com a justiça e com o direito”.